No Pomar, de Henry H. La Thangue
17 de Maio de 2010 ⋅ Opinião

Três demónios inimigos da filosofia

João Carlos Silva
“A Verdade derrete-se como a neve nas mãos daquele cuja alma não se derrete como a neve nas mãos da Verdade.”
Provérbio árabe

Três demónios assombram permanentemente a procura do conhecimento: o orgulho, o medo e a preguiça. Cada um por si só, ou combinados numa “geometria variável” (como se diz agora), formam uma estrutura terrivelmente poderosa e resistente de oposição ao conhecimento da verdade, constituindo-se assim como autênticos “pecados” epistémicos, ou obstáculos epistemológicos universais, extremamente difíceis de vencer na exacta medida em que exercem o seu poder hipnótico de forma invisível no interior do próprio sujeito.

O orgulho, porque defensivamente cria uma ilusão de conhecimento (quer se chame “opinião”, “crença” ou “certeza subjectiva”), que impede o reconhecimento da própria ignorância e, por consequência, a saída desse estado em direcção ao verdadeiro conhecimento — quem não sabe que não sabe, não pode querer saber aquilo que, na verdade, não sabe, mas julga já saber; além disso, reactivamente, fecha o espírito a toda a dúvida, crítica, contestação ou refutação, rejeitando como falso, impossível ou absurdo tudo o que ponha em causa, negue, contrarie ou infirme o sistema de crenças aceite como verdadeiro, produzindo um autêntico campo de distorção, selecção e manipulação “mágica” da realidade através do pensamento, o qual pode ser (por razões estratégicas ou tácticas mais ou menos inconscientes) superficialmente flexível e fluido, parecendo tudo assimilar sem crise ou necessidade de reorganização interna, mas que, de facto, esconde a sua total inflexibilidade, rigidez e fechamento dogmáticos, numa fachada de força aparente que tudo encaixa em esquemas prévios e/ou os projecta e aplica na realidade, torcendo-a e distorcendo-a, negando-a e denegando-a, de dentro para fora e de fora para dentro, a fim de se conservar intacto e igual a si mesmo, sem cedência ou compromisso com a verdade, persistindo teimosamente no erro e revelando assim a sua real natureza e finalidade. No fundo, para quem quer realmente saber, não é a verdade ou a realidade que se tem de acomodar/adaptar à mente, mas sim o contrário, a mente é que deve acomodar-se/adaptar-se à verdade ou realidade, não impondo-se ou dominando, mas abrindo-se e acolhendo, serenamente aceitando o que é. Para aquele que busca sinceramente o conhecimento (e não a afirmação da sua vontade de poder), não é o mundo como representação da nossa vontade que importa ou deve importar, mas sim a verdade “pura e dura”, doa o que doer, doa a quem doer.

O medo, porque repele e afasta tudo o que possa pôr em causa a segurança, o prazer, a felicidade ou o bem-estar que o véu da ignorância e da inconsciência permitem e proporcionam; porque, instintivamente, sabe o que convém à estabilidade mental, e tudo o que possa ameaçar ou ameace de facto essa ordem estabelecida e seja susceptível de causar sofrimento, dor, desgosto, decepção, desilusão, frustração, angústia ou desassossego, é magicamente destruído, negado, exorcizado, limitado no seu poder subversivo e destabilizador do sistema de crenças útil ou necessário à sobrevivência psíquica; o medo da verdade, o medo de saber que as coisas podem não ser como nós gostaríamos ou precisaríamos que fossem (ou pensamos que são), o medo que a realidade seja outra, diferente, imprevisível, incontrolável, incompreensível, independente, frustrante, decepcionante, totalmente estranha aos nossos desejos, esperanças ou medos, alheia e independente da nossa vontade, senso de moral ou de justiça, cruel, terrível, injusta, brutal, mais parecendo por vezes feita para nos desiludir e sistematicamente aniquilar todos os nossos sonhos, fantasias e ideais; tudo isso conduz ao medo e gera atitudes de raiva, frustração, negação, incapacidade de aceitar a verdade, obstinação no preconceito, na opinião ou crença útil à paz de espírito e até atitudes e comportamentos hostis de fúria e perseguição de tudo e de todos aqueles que ameacem os princípios, valores ou ideias que são aceites como verdadeiros e indiscutíveis, os ponham em causa e façam pensar que podemos estar errados.

A preguiça, porque a lei do menor esforço, do mais fácil, do mais simples continua a ditar e a explicar boa parte do comportamento humano; porque é mais fácil partir do princípio que já se sabe, que não vale a pena, que se “as uvas” estão distantes e, porventura, inacessíveis ou requeiram algum esforço e risco, então “estão verdes, não prestam”; porque “as coisas são assim mesmo”; porque “isso é para os intelectuais, os cientistas e os filósofos” e porque “há mais que fazer”, porque “a árvore da vida não é a árvore do conhecimento”; porque “primeiro viver, depois filosofar”, porque “isso é muito bonito na teoria, mas não funciona (ou não serve para nada) na prática”; porque, “se fosse possível saber, então já se sabia”, ou porque “o que interessa é ser feliz”, ou porque “isso não se come”, ou porque “não se vê”, ou porque “não se percebe o que ganharemos com isso”, ou porque “já toda agente sabe”, ou porque “é óbvio”, ou porque “ninguém sabe e (portanto) não é possível saber”, ou porque “Deus não quer”, etc., etc., etc., e toda a infinita panóplia de desculpas, pretextos, justificações, racionalizações e intelectualizações defensivas e reactivas, individuais ou colectivas, profanas ou religiosas, morais ou políticas, inteligentes ou estúpidas, que apenas servem o propósito de nada fazer pelo conhecimento e somente reforçam o véu da ignorância.

Existe ainda um quarto demónio, não menos poderoso, que, em associação com os outros três, ou mesmo isoladamente, também constitui uma força de bloqueio à procura da verdade. É o hábito, porque a suprema ilusão do conhecimento, que é igual ao véu da ignorância inconsciente de si mesma, pode explicar-se mediante um mecanismo cognitivo-emocional relativamente simples: habituamo-nos simplesmente a associar os nomes que damos às coisas com as próprias coisas que vemos ou pensamos e julgamos a partir daí que as conhecemos, apenas porque sabemos e usamos o seu nome ou temos uma imagem da coisa. O mesmo vale para as palavras e os seus significados. A força desse condicionamento cognitivo cria um apego emocional, tanto às representações de coisas como de palavras, que faz tudo parecer óbvio, evidente e indiscutível, impedindo dessa forma o auto-distanciamento crítico necessário ao questionamento. Paradoxalmente, é assim a própria evidência das coisas, das palavras e das suas ligações habituais que gera em nós a ilusão de conhecimento e nos cega para o seu mistério.

João Carlos Silva
jcarlossousasilva@gmail.com
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