18 de Outubro de 2015   Lógica

Mais um dogma do empirismo1

Saul Kripke
Tradução de Desidério Murcho

1. O outro dogma do empirismo

É conhecida a rejeição de Quine da “teoria do significado” — concebida como uma teoria de noções intensionais como sinonímia, analiticidade, intensão, e assim por diante — assim como a sua aceitação da “teoria da referência”.2 A discrepância resulta certamente da diferença entre os paradigmas destas teorias.

Já no Mathematical Logic Quine sublinha que “não há como negar que sabemos tão claramente o que significa dizer que uma dada afirmação é verdadeira — absolutamente Verdadeira — como compreendemos a própria afirmação”. E ele continua:

As circunstâncias nas quais se diria que a afirmação

1. Jones fuma
é verdadeira, e.g., são precisamente as circunstâncias nas quais se diria que o próprio Jones fuma. A verdade da afirmação 1 não é mais misteriosa do que as noções de Jones e de fumar. (Quine 1940: 4; itálico no texto; a afirmação recebeu uma nova numeração)

O mesmo acontece com os predicados e com “aplica-se” — e.g., “é esférico” aplica-se precisamente àqueles objectos que são esféricos; “é primo” aplica-se precisamente aos números primos, e assim por diante.

Prtes gratuitos

O mesmo não acontece no caso da analiticidade, sinonímia e assim por diante. Não irei ensaiar aqui os conhecidos argumentos, dado que pretendo mostrar que se pode oferecer argumentos semelhantes a favor de uma perspectiva a que irei chamar “afirmativismo”. (Poderia ter-lhe chamado “positivismo”, mas este termo já foi tomado.) Chamo à perspectiva que critico “negativismo”; os seus partidários são “negativistas”.

Segundo os negativistas, além da verdade, o paradigma da descitação de Tarski permite-nos dar sentido a uma noção chamada “falsidade”. (Daí que faça supostamente parte da “teoria da referência”.) Como se explica, supostamente, a “falsidade”? Bem, uma explicação invoca uma operação a que chamam “negação”: dizer que

2. “Jones fuma” é falsa

é dizer apenas

3. ~(Jones fuma)

Ou, verbalmente, “Jones não fuma” — ou, mais literalmente, “Não se dá o caso de Jones fumar”.

Mas como explica o negativista a operação “~” usada na explicação da falsidade? Ora, com uma tabela de verdade:

4. p ~p
V F
F V

Mas certamente que isto envolve a noção de falsidade que estamos, supostamente, a explicar. Será o nosso argumento inequivocamente circular? Bem, tem a forma, figurativamente falando, de uma curva fechada no espaço.3

Observações semelhantes aplicam-se às tentativas de fornecer uma explicação paralela na metalinguagem. Uma afirmação é falsa quando não é verdadeira. Simbolicamente:

5. A é falsa

significa:

6. ~(A é verdadeira)

(Alguns negativistas podem duvidar desta explicação. Algumas frases, afirmam, “não são verdadeiras nem falsas”, ou têm um “hiato no valor de verdade” — seja o que for que isto quer dizer. Deixemo-las de lado. Só complicam as coisas.)

Mas a explicação da falsidade em termos de negação na metalinguagem está obviamente sujeita aos mesmos problemas que encontrámos na explicação anterior recorrendo à negação na linguagem-objecto.

Chega. Considere-se uma linguagem só com conectivas afirmativas — por exemplo, conjunção. Dizer ⌈(A ∧ B) é verdadeira⌉ é dizer que A e B são ambas verdadeiras; em cada caso particular, a explicação é bastante paralela à de “Jones fuma” dada acima. O negativista queixa-se que esta explicação é “inadequada”. A explicação correcta tem de consistir numa tabela de verdade com mais três linhas, tradicionalmente apresentadas, e correspondendo a quando A ou B poderiam ser “falsas”. Mas é claro que a explicação afirmativa dada é, de facto, perfeitamente completa. Do mesmo modo, ⌈(A ∨ B) é verdadeira⌉ significa que A é verdadeira ou B é verdadeira. ⌈(x) A(x) é verdadeira⌉ diz que A(x) é verdadeira seja qual for o valor atribuído a x; ⌈(∃x) Ax é verdadeira⌉ diz que para algum valor de x, A(x) é verdadeira.

Denomine-se “afirmativa” qualquer linguagem L de primeira ordem que tenha uma lista finita de predicados primitivos, admita a conjunção e a disjunção como conectivas primitivas, e tenha os quantificadores universal e existencial. Pode uma linguagem assim ser “adequada para a ciência”?

Presumamos, ainda que só para efeitos de discussão, que a linguagem só seria adequada se a completássemos com a negação. Contudo, mesmo o negativista admite, dadas as suas “leis de De Morgan”, que toda a frase da linguagem alargada é logicamente equivalente a uma frase com a negação aplicada apenas às fórmulas atómicas, Pi(x⃗), i.e., aos predicados primitivos seguidos das variáveis. Alarguemos a linguagem acrescentando a cada predicado Pi um predicado Pi* como seu complemento. Então, tudo o que é exprimível na linguagem negativista permanece exprimível. É verdade que a minha terminologia — “leis de De Morgan”, “complemento”, e assim por diante — é negativista. Mas o nosso argumento dirige-se aos negativistas; nós, afirmativistas, consideramo-lo supérfluo.4

Dificilmente preciso de mencionar algumas manobras negativistas ainda mais óbvias. Carnap, no seu Formalization of Logic (1943: 101), pensa que um sistema formal apropriado, além de “regras para ser teorema”, deveria conter as denominadas regras de rejeição. Só se estas fossem dadas seria o sistema completamente claro. É desnecessário comentar esta perspectiva. Limita-se a tomar a ideia negativista como primitiva, sem explicação.

2. Empirismo sem o Dogma

O que acontece se adoptarmos a perspectiva afirmativista aqui defendida? Primeiro, um dos aspectos mais difíceis da lógica moderna, os chamados paradoxos, desaparecem imediatamente. Cada um desses “paradoxos” invoca, como se vê facilmente, uma noção negativista, e desaparece, do nosso ponto de vista.

Mais importante é que a qualidade e a civilidade da nossa discussão, em filosofia e não só, irá melhorar consideravelmente. Em vez de pensar que os outros têm perspectivas “falsas”, admite-se ao invés que há perspectivas que temos maior ou menor relutância em aceitar. Em vez de rotular a perspectiva do nosso interlocutor com o epíteto dúbio e ofensivo de “falsa”, poder-se-ia dizer: “Tenho muita relutância em aceitar a sua perspectiva”. Os benefícios para a civilidade e a inteligibilidade do nosso discurso são realmente imensos.

Uma defesa do negativismo resulta das nossas intuições admitidamente bem definidas acerca da falsidade. Frases como “2 + 2 = 5”, “A Lua é feita de queijo” e semelhantes têm um ar especial de que toda a gente se dá conta. Estas intuições são em si inocentes, mas seria um erro apelar a elas a favor de uma dicotomia geral (seja lá isso o que for) entre frases verdadeiras e falsas, entre “verdade” e “falsidade”.5

Mas, argumentará o negativista, “Não está você mesmo a condenar as minhas perspectivas como falsas? Que outra coisa quer dizer?” Bem, tenho muita relutância em aceitar essas perspectivas. Na verdade, tenho uma relutância extrema em dizer que as compreendo.

Não que eu proponha banir completamente as expressões negativistas, pelo menos no imediato, do nosso discurso quotidiano. Em próprio acabei de usar uma.6 E para dar uma representação “lógica” ou “canónica” dessas noções, talvez a lógica negativista habitual tenha um certo papel. Mas no discurso estritamente científico, ou no discurso sério em geral, esclarecendo a última e verdadeira natureza da realidade, a restrição à terminologia afirmativista é o caminho certo. As vantagens para a civilidade do nosso discurso foram já descritas. E essa civilidade discursiva poderá conduzir, com mais probabilidade do que a conversa negativista habitual, à paz mundial; pois muitos conflitos foram antecedidos de condenações negativistas das asserções do outro lado como “falsas”. Estarei sendo demasiado optimista? Veremos.7

Saul Kripke

Publicado originalmente em Philosophy and Phenomenological Research, Setembro de 2015 (91.2: 381–385)

Notas

  1. Como se tornou habitual no meu trabalho, este artigo foi apresentado oralmente (sem notas e até sem os artigos e livros de Quine) em várias ocasiões. Contudo, neste caso, não há gravações. Respondendo a pedidos, concordei, hesitante, em escrevê-lo. Apesar de a versão aqui apresentada ter sido escrita, penso que o leitor terá uma vantagem considerável em imaginar uma apresentação oral, com as pausas e ênfases apropriadas. 

  2. Neste artigo, seguem-se na maior parte do tempo as convenções de Quine quanto à citação. Contudo, as aspas de citação são por vezes omitidas quando o significado é mais claro, especialmente quando se usa itálicos. 

  3. Cf. Quine (1951: 30). 

  4. Veja-se Quine (1960: 265) sobre o mentalismo e o fisicismo. O argumento pode também ser comparado à forma argumentativa negativista da reductio ad absurdum. Mostramos, apesar de usarmos premissas negativistas, que a negação é supérflua. 

  5. Veja-se Quine (1960: 66–67). 

  6. Cf. Quine (1960: 221). 

  7. Agradeço a Gary Ostertag e Romina Padró a consideração cuidadosa dos argumentos aqui apresentados. Este artigo foi completado com o apoio do Centro Saul Kripke do Centro de Pós-Graduação da CUNY.