2 de Dezembro de 2008 ⋅ Opinião

A alegria da caserna

Desidério Murcho
Universidade Federal de Ouro Preto

A Alegoria da Caverna de Platão é o tipo de coisa que faz feliz o aristocrata. Na República, Platão discute vários temas interligados de teoria do conhecimento, metafísica, filosofia política e da educação. O aristocrata, contudo, entende qualquer discussão de ideias como redutora, porque entende a filosofia como um desporto a que se assiste de longe: é algo que os outros fazem e que nós comentamos, mais ou menos como nos filmes do Estado Novo as lavadeiras discutiam os amores alheios. Além disso, a filosofia serve de instrumento de dominação social: demarca-se hierarquias sociais com palavras caras e referências a autores prestigiantes, sobretudo aqueles que toda a gente refere mas ninguém leu seriamente.

Por isso, proponho-me alargar a cultura de fachada — e de fachos — do aristocrata, apresentando a Alegria da Caserna. Ei-la: era uma vez uns gajos que estavam numa caserna. Lá, viam filmes porno e ouviam as declarações da Ministra da Educação, com igual estupefacção: haveria realmente pénis assim tão cevados e ministras assim tão competentes? O mundo exterior parecia bom de mais para ser verdade. E foi então que um deles, mais afoito, resolveu sair da caserna para ver a Realidade Exterior. Ao princípio, foi muito custoso, até porque pisou logo uma bosta de cãozinho e o cheiro era nauseabundo. Mas insistiu corajosamente, até porque não tinha nariz, e chegou ao âmago da Realidade Exterior: a Mansão Última da Realidade Primeira. E foi lá que encontrou coisas maravilhosas. Quais? Não me apetece agora dizer. O que realmente importa é isto: o que raio estamos aqui a fazer?

Na Alegria da Caserna, estamos apenas a brincar. Mas quando o aristocrata apresenta a Alegoria da Caverna de Platão, não está a brincar: está a oprimir socialmente. A ideia é dizer mal das bestas ignorantes: gente como taxistas, padeiros e raparigas bonitas que nos centros comerciais vendem cuecas a que, com pronúncia francesa, chamam lingerie. Gente como os nossos Alegres da Caserna. Ao mesmo tempo, canta-se hinos a coisas como a Verdade, a Realidade, o Conhecimento e Outras Coisas Importantes Com Letra Grande. O objectivo deste exercício é demarcar um território social: o território do aristocrata, que não se mistura com o povão que comete o descalabro de se passear aos domingos em fato de treino nos centros comerciais. Entretanto, os problemas, teorias e argumentos mais importantes da filosofia, são desprezados — porque têm a desvantagem de ser interessantes para qualquer pessoa, seja ou não um Alegre da Caserna, desde que saibamos apresentá-los de maneira cristalina.

Para o aristocrata, a cultura é como o mijo para os cães: serve apenas para demarcar territórios. Até coisas banais como a ortografia, a gramática e a pronúncia são vistas pelo aristocrata como instrumentos de demarcação territorial. Mas há coisas mais importantes na vida do que isto. Nomeadamente, a cultura — que não devia ser vista como instrumento de opressão social, mas como algo que vale por si.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Publicado no jornal Público (2 de Dezembro de 2008)
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