Ilustração
16 de Setembro de 2008 ⋅ Opinião

Filósofos a mais

Desidério Murcho
Universidade Federal de Ouro Preto

Hoje em dia há filósofos a mais, queixam-se algumas pessoas; até uma besta como eu é um filósofo. E têm razão, do seu ponto de vista. Só que todas as pessoas têm razão do seu próprio ponto de vista. O que vale a pena pensar outra vez é se esse ponto de vista é defensável.

Há igualmente muitos pintores, músicos, cientistas e engenheiros. Quase nenhuns serão inovadores como Picasso, Mozart, Einstein ou Eiffel; alguns serão competentes, mas não serão inovadores, e alguns serão incompetentes. O mesmo se pode dizer de actores, ciclistas e futebolistas: há uma grande diferença entre ser inovador e fecundo, meramente competente ou incompetente. Por que se queixam então algumas pessoas relativamente aos filósofos apenas? Por que razão não se pode ser um filósofo modesto, meramente competente, sem se ser inovador, sem se ser um Kant ou — cruzes, canhoto! — um Heidegger?

A resposta a esta pergunta ocuparia tomos imensos de densa prosa psicométrica, fenomenológica, historiográfica e só realmente um grande filósofo poderia dedicar-se-lhe. Por isso, não vou responder-lhe, dado que não sou muito alto. Vou apenas levantar algumas hipóteses como quem espanta lebres que esvoaçam espantadas mesmo sem terem asas nem espantos.

Quando a filosofia não é vista como uma actividade entre outras, fica-se com a ideia de que só os tocados pelos deuses podem ser filósofos — porque só eles têm um acesso privilegiado à verdade. Aos restantes mortais resta tentar compreender pacientemente o que eles escreveram. Deste ponto de vista, os problemas da filosofia são demasiado profundos para poderem ser estudados normalmente como quem estuda mecânica de fluidos, pintura ou poesia. Assim, declarar-se filósofo seria como declarar-se profeta, santo ou até o filho de deus que é deus sendo apenas um juntamente com os outros dois (mesmo a aritmética elementar pode ser tão profunda que só alguns privilegiados podem adorá-la).

O facto, porém, é que as coisas não são assim. Há carradas de filósofos por aí hoje em dia. Bem sei que isto é uma chatice, mas é como as coisas são. Qualquer pessoa razoavelmente tola, como eu, pode estudar e tornar-se um filósofo, e o mundo não fica melhor do que era antes. Mas também não ficaria melhor com mais um actor ou mais um político. O mundo dificilmente fica melhor seja com o que for, e não fica certamente melhor com mais pensamentos mal pensados sobre a inalcançabilidade inefável do ser-se filósofo.

Tudo isto seria meramente divertido se não tivesse consequências educativas e culturais. Mas quando um jovem inteligente gosta de pensar e se apaixona pelos problemas da filosofia não ficará com certeza arrebatado com a ideia de que nunca poderá tornar-se um filósofo, mas apenas um filodoxo, um comentarista, um necrófilo do texto filosófico alheio. Esta mentalidade poderá ter como consequência a inexistência em Portugal de filósofos inovadores, fecundos e amplamente citados e discutidos por esse mundo fora. Tudo o que há é bestas como eu.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Publicado no jornal Público (16 de Setembro de 2008)
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