22 de Novembro de 2015   Filosofia da ciência

Ciência e objetividade

Álvaro Nunes

Introdução

Houve um tempo em que as teorias eram eternas. Ou, pelo menos, assim pareciam. A física de Aristóteles e a cosmologia de Ptolomeu, por exemplo, ambas formuladas na Antiguidade, foram aceites sem muitas modificações até ao século XVII. Mas, nesse século, devido à revolução científica levada a cabo por Bacon, Galileu e Descartes e, em particular, por Newton, tudo mudou. A cosmologia de Ptolomeu foi rapidamente substituída pela de Copérnico; e a física de Aristóteles pela de Galileu e de Kepler, e estas, por sua vez, pela de Newton. A partir daí surgiram um grande número de teorias, com mais ou menos sucesso, em campos até então entregues ao ocultismo, à especulação ou à autoridade religiosa, que levaram à formação de novas ciências. A Química emergiu com Lavoisier (1743–1794); a Geologia com James Hutton (1726–1797); e a Biologia com Lamark (1744–1829), para referir apenas algumas das ciências mais importantes. Daí para cá surgiram mais ciências, enquanto outras se ramificaram num grande número de áreas de investigação especializada (genética, bioquímica, física das partículas, etc.). Ao mesmo tempo, teorias consideradas conquistas permanentes do espírito humano revelaram-se falsas e foram substituídas por outras teorias, que acabaram também por ser substituídas. Na Biologia, a teoria da evolução de Lamark foi substituída pela de Darwin e esta, por sua vez, deu origem à teoria neodarwinista — resultado da sua junção com a teoria dos genes de Mendel (1822–1884) — ainda atualmente aceite; na Física, a teoria da gravidade de Newton, vista durante séculos como a explicação definitiva do movimento dos corpos, foi substituída pela teoria da relatividade de Einstein, que o seu autor considerava apenas uma solução provisória. E algo semelhante aconteceu nas outras ciências.

Tudo isto torna evidente um facto importante: a ciência evolui e essa evolução parece ser um dos seus aspetos mais distintivos. Isto levanta dois problemas filosoficamente interessantes:

  1. Como é que a ciência evolui?
  2. Dá-se essa evolução de acordo com critérios objetivos?

O propósito deste texto é conhecer a resposta a estas duas questões dada por dois importantes filósofos da ciência do século XX, Karl Popper e Thomas Kuhn.

Karl Popper

O progresso e a objetividade da ciência

A explicação de Popper do progresso da ciência está intimamente associada com a sua concepção do método científico. Recordemos os seus traços principais.

Para Popper, a ciência começa com problemas, para cuja solução são formuladas hipóteses ou conjeturas. Estas hipóteses são depois submetidas a testes severos com o objetivo de provar que são falsas. Algumas são imediatamente eliminadas, porque não passam os testes a que são submetidas. Outras passam estes testes e podemos dizer que são corroboradas por eles. Isto não significa que estas teorias sejam verdadeiras; apenas que os testes a que foram submetidas até àquele momento foram incapazes de mostrar que são falsas. Mais tarde ou mais cedo, porém, todas as teorias serão afastadas porque os testes revelaram que são falsas. Quando isto acontece, um novo problema surge para o qual são propostas novas hipóteses, que vão também ser submetidas a testes, num processo que continua indefinidamente.

Popper resume algumas vezes o seu método com o esquema seguinte:

P1 ➝ TT ➝ EE ➝ P2

P1 representa o problema inicial; TT, as teorias propostas para resolver esse problema; EE, o processo de teste e eliminação das teorias; e P2, o novo problema que resulta da eliminação de todas as teorias — falsas — propostas para resolver P1. Quanto maior a diferença entre o problema inicial (P1) e o problema final (P2) maior o progresso realizado.

Assim, o método que o cientista usa ao fazer ciência é ao mesmo tempo o instrumento de progressão da ciência e a explicação para a substituição de umas teorias por outras, que temos observado ao longo da história da ciência. A ciência progride, e o conhecimento científico cresce, pelo derrube das teorias científicas vigentes através de testes exigentes e a sua substituição por teorias melhores, capazes de resolver os problemas que as outras teorias resolviam e também os que elas se revelaram incapazes de superar. A ciência é, assim, ao mesmo tempo revolucionária e conservadora. Revolucionária, porque as novas teorias derrubam as anteriores; e conservadora, uma vez que incorpora aquilo em que estas tiveram sucesso.

Esta capacidade de escolher entre teorias melhores e piores pressupõe um critério de progresso, isto é, um critério para determinar se uma teoria constitui, ou não, um avanço relativamente às outras. Popper aceita a teoria da verdade como correspondência, segundo a qual uma teoria é verdadeira se está de acordo com os factos e falsa se não está. Contudo, ele não pode usar a verdade como critério de progresso e afirmar, como os indutivistas, que a ciência progride por acumulação de teorias verdadeiras, porque as teorias científicas são sempre hipotéticas e conjeturais. Ele tem, portanto, de recorrer a outro critério. Qual é esse critério? A verosimilhança ou a proximidade à verdade. O facto de uma teoria ter sucesso onde todas as outras falharam, de ser capaz de explicar o que as outras explicam e aquilo que as outras não explicam, significa que essa teoria é uma melhor aproximação à verdade, uma teoria mais verosímil, que todas as outras. A verdade, embora não seja alcançável, funciona como uma ideia reguladora, uma luz no fundo do túnel, para a qual a ciência deve tender. O método é o processo que os cientistas usam para esse fim. E como na sua base está a atitude crítica, fundada em regras lógicas, a ciência é racional e objetiva. A escolha entre teorias não se faz com base em aspetos subjetivos, como as preferências individuais dos cientistas, mas em critérios objetivos, uma vez que os testes a que as teorias são submetidas são feitos de acordo com procedimentos metodológicos precisos, que permitem determinar quais as que se aproximam mais da verdade.

Thomas Kuhn

Vida e obra

Thomas S. Kuhn nasceu em 18 de julho de 1922, em Cincinnati, Ohio, nos Estados Unidos. Como no liceu revelou-se um excelente aluno a Matemática, em 1940, entrou para a Universidade de Harvard como estudante de Física. Depois da entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial, Kuhn resolveu fazer o curso o mais rapidamente possível e, em apenas três anos, em 1943, licenciou-se summa cum laude, isto é, com a mais alta honra. Kuhn passou o resto dos anos de guerra a fazer investigação relacionada com radares em Harvard e na Europa. Em 1946, fez o mestrado e, pouco depois, em 1949, o doutoramento em Física, com uma tese sobre a aplicação da mecânica quântica à física do estado sólido. Antes, ainda em 1947, foi convidado pelo presidente da Universidade de Harvard para lecionar um curso sobre ciência centrado no estudo de alguns casos históricos. Isto levou-o a interessar-se por história da ciência e, depois, por filosofia da ciência. Durante este período, ele concentrou-se no estudo da teoria da matéria no século XVIII e nos momentos iniciais da história da termodinâmica. Kuhn interessou-se em seguida pela história da astronomia e, como consequência disso, em 1957, publicou o seu primeiro livro, A Revolução Copernicana: A Astronomia Planetária no Desenvolvimento do Pensamento Ocidental. Em 1956, Kuhn trocou a Universidade de Harvard pela de Berkeley, para lecionar história da ciência. Aí, o contacto com filósofos da ciência, como Stanley Cavell (1926-) e Paul Feyerabend (1924–1994), permitiu-lhe desenvolver os seus interesses em filosofia da ciência. Na sequência disso, Kuhn publicou, em 1962, A Estrutura das Revoluções Científicas, o seu livro mais importante e controverso, considerado uma das principais obras da segunda metade do século XX. É nesta obra que Kuhn expõe a sua teoria da ciência e que surge o conceito de paradigma e de mudança de paradigma, que depois se tornou usual da política ao futebol. Muito do trabalho subsequente de Kuhn centrou-se em história da ciência e filosofia da ciência, em particular, procurando articular e desenvolver as ideias que apresentou em A Estrutura das Revoluções Científicas. Em 1964, Kuhn trocou a Universidade de Berkeley pela de Princeton, ao mesmo tempo que A Estrutura das Revoluções Científicas, inicialmente aceite sobretudo pelos cientistas sociais, começou a interessar os filósofos. Em 1977, Kuhn publicou o livro A Tensão Essencial, constituído por ensaios em história e filosofia da ciência, em que realça a importância da tradição na ciência. No ano seguinte, publicou Black-Body Theory and the Quantum Discontinuity, sobre os primórdios da mecânica quântica e, em 1979, trocou uma vez mais de universidade, aceitando um convite do MIT. Nos anos subsequentes Kuhn continuou a trabalhar em problemas levantados por A Estrutura das Revoluções Científicas. Kuhn morreu a 17 de junho de 1996, após dois anos de doença devido a cancro dos pulmões.

A filosofia da ciência de Kuhn

Para Popper, a ciência é objetiva em última instância porque o seu método — o método das tentativas e erros — se baseia num conjunto de regras lógicas que são o modelo e a garantia da racionalidade. O cumprimento dessas regras pelos cientistas na sua prática de investigação permite a escolha das melhores teorias, das teorias corroboradas, que resistiram aos testes quando todas as outras falharam, e que, por isso, estão mais próximas da verdade. A tarefa da filosofia da ciência, deste ponto de vista, é isolar e descrever estas regras tal como surgem no método e tornar claro para a comunidade científica os princípios que subjazem ao seu próprio trabalho. Apesar de criticar com veemência o critério de demarcação e a concepção do método dos indutivistas, neste ponto Popper segue-os de perto. A história da ciência é vista por ele, como pelos indutivistas, como uma disciplina auxiliar cujo papel é o de fornecer exemplos de práticas científicas bem-sucedidas, que ilustrem o método em ação.

Kuhn não pode estar mais em desacordo com esta visão não histórica da ciência e da filosofia da ciência, que reduz esta última à análise da estrutura lógica da ciência. Do seu ponto de vista, a história da ciência tem um papel central na filosofia da ciência. Podemos mesmo dizer que o seu trabalho filosófico é uma tentativa de desenvolver uma filosofia da ciência com base na história da ciência. A função da história da ciência, pensa ele, não é apenas fornecer alguns exemplos de investigações científicas bem-sucedidas para ilustrar uma certa concepção da ciência. É, ao contrário, o estudo de casos significativos da história da ciência que nos permite saber o que a ciência é. A história é, assim, o ponto de partida do filósofo da ciência na sua tentativa de compreender a ciência tal como ela é praticada pelos cientistas.

Ciência normal

Que revela a história da ciência sobre a ciência? Antes de mais, que tanto a concepção indutivista como a falsificacionista da ciência estão erradas. A atividade científica não se processa do modo como uns e outros afirmam, mas antes de acordo com o seguinte esquema:

Ciência normal ➝ crise e ciência extraordinária ➝ revolução científica ➝ nova ciência normal

Este desenvolvimento por fases, no entanto, só se verifica quando uma ciência atinge um certo nível de maturidade. Antes disso não existe propriamente uma ciência, mas uma área de investigação em que diferentes escolas e subescolas competem entre que si e discordam em aspetos fundamentais: que problemas investigar, que metodologias aplicar, qual a natureza dos fenómenos a explicar, etc. Kuhn chama a este estádio ciência pré-paradigmática, que se carateriza por uma total discordância e um constante debate. Nele não existe um corpo de crenças garantidas e partilhadas pelos investigadores e há quase tantas teorias quanto investigadores, cada um procurando construir o seu campo de investigação desde a base. Kuhn dá como exemplo de uma ciência pré-paradigmática a óptica antes de Newton. Desde a Antiguidade que existia um grande número de teorias acerca da natureza da luz, mas não existia consenso nem nenhuma teoria que fosse geralmente aceite antes de Newton ter proposto a sua teoria das partículas.

Uma área de investigação torna-se uma ciência madura quando existe consenso entre os investigadores que nela trabalham relativamente aos problemas a investigar, as leis a aplicar, e os métodos e os instrumentos a usar nesse campo de investigação. Isto acontece quando há uma realização científica que uma comunidade científica particular reconhece como exemplar e fundando a sua investigação futura. Isto é, quando existe aquilo a que Kuhn chama paradigma, um conjunto de problemas, soluções — teorias e leis — práticas metodológicas e princípios metafísicos, que são aceites pela generalidade dos praticantes daquele campo. Uma ciência madura é dominada apenas por um paradigma, que estabelece o que é ou não legítimo investigar dentro de uma ciência e coordena e dirige a investigação nessa ciência. São exemplos de paradigmas a física de Aristóteles, a mecânica de Newton, o eletromagnetismo de Maxwell e a seleção natural de Darwin. Aquilo que, segundo Kuhn, distingue ciências de não-ciências não é, como pensam os indutivistas, o facto de as teorias científicas poderem ser verificadas, ou, como pensa Popper, o facto de poderem ser falsificadas, mas o de existir ou não num determinado campo de investigação um paradigma aceite pela generalidade dos seus praticantes. Diferentes áreas de investigação atingiram a maturidade, isto é, tornaram-se ciências, em diferentes ocasiões. A Matemática e a Astronomia na Antiguidade, a Óptica no século XVII, a Química no século XVIII e a Biologia no século XIX, por exemplo. Por outro lado, muitas das ciências humanas atuais, porque não têm um paradigma dominante, não constituem ciências.

Podemos, apesar disso, dizer que um paradigma é constituído por

Por exemplo, o paradigma newtoniano inclui as leis do movimento de Newton, mas também métodos para aplicar estas leis ao movimento dos planetas, dos pêndulos, das bolas de bilhar, etc., assim como vários tipos de telescópios e de técnicas para o seu uso e para a correção dos dados obtidos por seu intermédio, em conjunto com pressupostos metafísicos, como o de que o mundo é um mecanismo em que várias forças operam de acordo com as leis do movimento de Newton.

Quando uma área de investigação adota um paradigma, ela entra num estádio a que Kuhn chama ciência normal e é nisto que consiste a maior parte da atividade científica. A ciência normal não visa descobrir novos tipos de fenómenos ou novas teorias, mas apenas aumentar o sucesso do paradigma aceite, articulando-o de modo a melhorar a sua correspondência com a natureza. Por isso, a investigação feita na ciência normal tem em vista a resolução de puzzles ou enigmas. Os puzzles são problemas sugeridos aos cientistas pelo paradigma aceite. Para resolver estes puzzles, os cientistas usam as regras do paradigma, esperando, desse modo, que as soluções dos problemas novos sejam semelhantes às dos problemas previamente examinados na sua disciplina. Eram puzzles para o paradigma newtoniano, por exemplo, conceber técnicas matemáticas para aplicar as leis de Newton ao movimento dos fluidos ou a melhoria da exatidão das observações astronómicas. Ao fazerem ciência normal, os cientistas assumem que o paradigma fornece os meios necessários para a solução dos puzzles que coloca. Uma solução de um puzzle que viole uma regra do paradigma, por exemplo, uma lei da natureza, não é, em princípio, aceitável. Por outro lado, o fracasso na solução de um puzzle é visto como um fracasso do cientista e não como uma deficiência do paradigma.

Contudo, mais tarde ou mais cedo surgem puzzles que, apesar dos seus esforços, os cientistas são incapazes de resolver de acordo com o conjunto de regras e técnicas sugeridas pelo paradigma aceite. Kuhn chama anomalias a estes problemas. Estas anomalias podem pôr em questão as leis, os instrumentos e as regras aceites por uma comunidade científica, sugerindo que têm de ser modificados ou mesmo abandonados. Kuhn dá como exemplos de anomalias os cometas para a cosmologia aristotélica, que via o mundo para além da Lua como não estando sujeito à mudança, e a necessidade de reforma do calendário, ocorrida no tempo de Copérnico, para a astronomia ptolomaica.

Nem todas as anomalias são igualmente graves. Qualquer paradigma encontra dificuldades e existe sempre alguma discrepância entre as previsões1 das teorias e os dados experimentais, sem que isso ponha em causa o paradigma vigente e a atividade científica de acordo com a ciência normal. Por isso, algumas anomalias podem, pelo menos inicialmente, ser negligenciadas. Foi o caso da previsão da lei da gravidade de Newton do movimento de Mercúrio, que diferia dos dados observacionais, sem que isso levasse alguém a pôr em causa a teoria de Newton. Outras podem encontrar uma solução de acordo com as expetativas. Por exemplo, a lei da gravidade de Newton também fazia previsões para o movimento da Lua que diferiam dos dados experimentais. Contudo, ao fim de algum tempo de investigação foi possível obter, a partir da teoria, um valor de acordo com as experiências e a anomalia deixou de existir.

Mas mesmo que as anomalias sejam graves, elas não falsificam o paradigma, como Popper pensaria. Lembremos que, de acordo com Popper, o progresso da ciência faz-se por um processo em que conjeturas arrojadas são submetidas a testes com o objetivo de as refutar. Deste ponto de vista, uma previsão da teoria que não esteja de acordo com a realidade refuta a teoria e leva à sua substituição por outra mais próxima da verdade. Para Kuhn, no entanto, as anomalias não correspondem a estas instâncias popperianas de falsificação das teorias. Ele duvida mesmo de que seja possível refutar uma teoria. Assim como também pensa que nenhuma anomalia, por mais grave que seja, leva ao abandono de uma teoria a não ser que exista uma outra para a substituir. Para Kuhn, uma teoria científica é considerada inválida apenas se existe uma alternativa disponível para ocupar o seu lugar. Assim, os cientistas, quando fazem juízos acerca das teorias apenas as comparam, não as refutam. Segundo Kuhn, o estudo histórico do desenvolvimento científico não revelou nada que se aproxime do método das tentativas e erro proposto por Popper. Por outras palavras, a história da ciência mostra que a descrição de Popper do progresso da ciência é falsa, uma vez que não corresponde à forma como os cientistas trabalham.

Crise e ciência extraordinária

Quando numa dada ciência surge uma anomalia grave, essa ciência entra em crise e passa da ciência normal para aquilo a que Kuhn chama ciência extraordinária. Uma anomalia é considerada grave se:

Outro fator importante para o despoletar da crise é o acumular de anomalias dentro de um paradigma.

A transição para a ciência extraordinária ocorre à medida que os cientistas dão cada vez mais atenção à anomalia. As primeiras tentativas de a resolver seguem de perto o paradigma aceite, mas à medida que o problema continua a resistir a uma solução, as tentativas de resolvê-lo afastam-se cada vez mais das soluções-padrão sugeridas pelo paradigma, e as regras da ciência normal tornam-se progressivamente mais difusas e frouxas. Os cientistas começam a entrar em discussões filosóficas e metafísicas e tentam defender as suas soluções para a anomalia com argumentos filosóficos. Embora ainda exista um paradigma, poucos são os cientistas que estão de acordo acerca da sua natureza e mesmo as soluções dos problemas anteriormente resolvidos aplicando os instrumentos disponibilizados pelo paradigma são postas em questão. O consenso até aí existente relativamente às características fundamentais da atividade científica começa a ser substituído por cada vez mais e maiores divergências e os cientistas começam a expressar abertamente a sua insatisfação com o paradigma vigente. Finalmente, alguns cientistas, em particular os mais jovens ou os mais recentes naquele campo da ciência e, portanto, menos presos à tradição do que os seus colegas, começam a sugerir alternativas ao paradigma vigente.

Revolução científica

Segundo Kuhn, as divergências entre os cientistas causadas pela crise podem terminar de três maneiras diferentes:

  1. A anomalia é resolvida no contexto do antigo paradigma, os cientistas voltam a fazer ciência normal e a confiança no paradigma é restaurada;
  2. A anomalia resiste a uma solução, os cientistas chegam a acordo em que nenhuma solução pode ser encontrada no estado atual da sua ciência e decidem deixar o problema para futuros cientistas resolverem;
  3. A anomalia é resolvida por uma nova teoria que é cada vez mais aceite até se formar um consenso entre os membros da comunidade científica em torno desta teoria.

Esta terceira possibilidade é aquilo a que Kuhn chama revolução científica e, no essencial, consiste na substituição de um paradigma por um outro paradigma. Uma característica importante das revoluções científicas, segundo Kuhn, é que elas não são cumulativas. Para os indutivistas, quando uma teoria é substituída por outra, a velha teoria é incorporada na nova, que é mais abrangente. Para Kuhn, ao contrário, uma revolução científica é a reconstrução de uma ciência a partir de bases novas, em que tanto algumas das generalizações mais elementares daquele campo como muitos dos seus métodos e aplicações mudam radicalmente. O novo paradigma é, por isso, muito diferente e incompatível com o antigo. Por exemplo, o paradigma aristotélico via o mundo como estando dividido em duas regiões distintas, uma supra-lunar, imutável e composta de esferas em que os planetas eram arrastados em movimentos circulares, e outra, sub-lunar, sujeita a toda a espécie de movimento e alterações, ao passo que os paradigmas que o substituíram — o galilaico, o cartesiano e o newtoniano — eliminaram esta distinção e viam o mundo como sendo constituído pelo mesmo tipo de substâncias. Do mesmo modo, ao rejeitarem o antigo paradigma, os cientistas rejeitam também as previsões que fazia que não estão de acordo com as previsões do novo paradigma. Contudo, um novo paradigma só é adotado se pode solucionar as anomalias que o velho foi incapaz de solucionar. Assim, ao adotar um novo paradigma, os cientistas são capazes de dar conta de um grande número de fenómenos ou de dar conta com maior precisão de fenómenos já conhecidos.

Outro aspeto importante das revoluções científicas é que paradigmas rivais também veem como legítimas e significativas questões diferentes. Questões acerca da massa dos planetas eram irrelevantes para os físicos aristotélicos e fundamentais para os newtonianos. O problema da velocidade da Terra relativamente ao éter, que era muito importante para a física pré-einsteiniana foi eliminado pela física de Einstein.

A influência dos paradigmas é tal que a forma como os cientistas veem o mundo é determinada pelo paradigma com o qual trabalham. Kuhn afirma que é como se os proponentes de paradigmas rivais vivessem em mundos diferentes. Ele dá como exemplo que só foram registadas e discutidas mudanças no céu depois da teoria heliocêntrica de Copérnico ter sido proposta. Antes disso, como o paradigma aristotélico afirmava não existir mudança no mundo supra-lunar, nenhuma mudança foi observada pelos astrónomos ocidentais.

A incomensurabilidade dos paradigmas

Como é que se dá a passagem de um paradigma para outro? Isto é, como é que os praticantes de uma ciência abandonam um paradigma e adotam outro? O processo de adoção de um novo paradigma é um dos aspetos mais controversos da teoria da ciência de Kuhn e em que a sua descrição da ciência mais se afasta das posições defendidas por Karl Popper e pelos filósofos indutivistas. Recordemos que para Popper existem critérios racionais que permitem escolher, entre todas as teorias propostas para resolver um problema, aquela que é objetivamente a melhor, a que é a mais verosímil. A perspetiva de Kuhn é completamente diferente. Para Kuhn, a mudança de paradigma por parte de um cientista é um acontecimento súbito. O cientista que abandona uma teoria a favor de uma nova teoria não passa gradualmente de uma para a outra. Em vez disso, quando abandona uma adota imediatamente a outra, numa espécie de conversão que tem muitas semelhanças com a conversão religiosa. A razão de ser disto, segundo Kuhn, está no facto de que os paradigmas são incomensuráveis. A palavra incomensurabilidade significa “sem medida comum” e tem origem na matemática, em que era usada pelos gregos antigos para expressar a ideia de que não existe uma medida comum entre o cateto e a hipotenusa de um triângulo retângulo isósceles. A sugestão de Kuhn ao dizer que os paradigmas são incomensuráveis é, obviamente, que não se pode determinar com rigor qual dos paradigmas em competição é melhor porque não existe uma medida comum, exterior e independente aos paradigmas, que permita compará-los de forma completamente objetiva. Há três ordens de razões para que os paradigmas sejam incomensuráveis:

  1. Os cientistas que apoiam paradigmas rivais discordam quanto aos problemas que um paradigma deve resolver, porque os seus padrões ou as suas definições de ciência não são os mesmos;
  2. Os proponentes de paradigmas rivais usam termos, conceitos e experiências em novos contextos e com significados e interpretações diferentes;
  3. Os cientistas que apoiam paradigmas rivais fazem investigação em mundos diferentes.

Este último aspeto, que os cientistas trabalham em mundos diferentes, é o mais importante. É óbvio que o mundo não muda quando um cientista muda de paradigma. O que muda é a forma como esse cientista observa e compreende o mundo.2 Kuhn utiliza os resultados obtidos em certas experiências da psicologia da percepção para tornar claro o que quer dizer. Do mesmo modo que os sujeitos destas experiências, para terem a percepção de objetos diferentes — como quando uma mesma imagem pode ser vista alternadamente, por exemplo, como um pato ou um coelho — mudam para paradigmas perceptivos diferentes, cientistas a trabalhar em tradições de ciência normal diferentes e, portanto, com paradigmas diferentes, percepcionam o mundo de forma diferente. Mas, ao contrário dos sujeitos destas experiências, que podem guiar-se na sua interpretação pelas linhas do desenho, os cientistas não têm nenhum padrão externo e independente, acima e para além da sua própria forma de perceber e compreender o mundo, pelo qual possam avaliar objetivamente a sua compreensão da realidade.3

Não pensemos, no entanto, que tudo o que Kuhn está a dizer é que os cientistas, ao mudarem de paradigma, mudam unicamente a forma como interpretam as suas observações do mundo, que se mantêm idênticas e imutáveis. Onde antes viam o Sol a girar em torno da Terra passaram a ver a Terra a girar em torno do Sol, mudando assim de uma interpretação falsa para uma interpretação verdadeira da realidade, enquanto a observação em si se mantém a mesma. Esta forma de compreender o que acontece aquando de uma mudança de paradigma pressupõe que existem observações objetivas, puras e independentes do sujeito e das suas crenças, sobre a realidade, e que algumas vezes interpretamo-las corretamente, outras não. Kuhn nega que tais observações objetivas existam. As observações nunca são objetivas porque são sempre influenciadas pelo paradigma adotado pelo cientista, ao ponto de com a mudança de paradigma as próprias observações mudarem também. Um cientista ptolomaico e um cientista copernicano veem coisas diferentes quando olham para o céu. Em termos práticos, é como se vivessem efetivamente em mundos diferentes. A esta ausência de observações puras junta-se a inexistência de uma linguagem neutra e imparcial, que o cientista possa usar para descrever as suas observações. Mesmo que existissem observações estáveis e objetivas, a ausência de uma linguagem neutra para descrever essas observações torna impossível uma avaliação e uma escolha objetiva dos paradigmas.

O facto de os paradigmas serem incomensuráveis tem importantes consequências para o debate entre os proponentes de paradigmas diferentes e para a escolha entre paradigmas rivais. Se os cientistas não concordam acerca de quais os problemas que devem ser resolvidos e quais as soluções aceitáveis — o que acontece facilmente pois, como vimos, têm diferentes concepções de ciência e diferentes padrões de escolha, usam os conceitos de forma diferente e vivem em mundos diferentes —, o facto de os paradigmas serem incomensuráveis torna impossível uma comparação exaustiva do tipo proposto pelos indutivistas e por Popper, com o objetivo, por exemplo, de saber qual o paradigma que resolve mais problemas. Por outras palavras, Kuhn recusa que a escolha entre paradigmas possa ser feita por processos estritamente racionais, como os adotados no método indutivo e no método falsificacionista. E embora ele realce o papel da argumentação (para, por exemplo, saber se a nova teoria pode resolver os problemas que levaram a antiga teoria à crise, se é mais precisa que a antiga ou se prediz fenómenos que a antiga teoria foi incapaz de prever) e afirme que os cientistas podem ser persuadidos por seu intermédio, também afirma que os cientistas escolhem os paradigmas com base em fatores não-lógicos (estéticos e psicológicos), como a elegância, a adequação ou a simplicidade, que diferentes cientistas valorizam de forma diferente. Assim, um cientista pode ser atraído pela teoria heliocêntrica de Copérnico por causa da sua simplicidade, outro porque permite a reforma do calendário, e um terceiro porque é mais elegante que o paradigma ptolomaico. É devido à importância destes fatores não-lógicos que Kuhn compara a mudança de paradigma por parte de um cientista a uma conversão.

Estas teses de Kuhn, e em particular a tese da incomensurabilidade, isto é, a tese de que não é possível comparar os paradigmas em competição com base em padrões lógicos precisos e em experiências que possam determinar com rigor qual deles é verdadeiro ou se aproxima mais da verdade — isto é, qual deles é uma melhor descrição e explicação da realidade —, significam que a ciência não é nem racional nem objetiva.

Esta conclusão de Kuhn está em direta oposição à concepção tradicional da ciência. A crença comum quer aos filósofos indutivistas quer a Popper quer a muitos cientistas das ciências naturais que se reveem na teoria da ciência de Popper é a de que o conhecimento científico é racional e objetivo e de que a ciência tem sido imensamente bem-sucedida na sua busca por explicações cada vez mais corretas e abrangentes da realidade. A teoria da ciência de Kuhn põe tudo isto em questão. Segundo ele, há um elemento humano, pessoal e subjetivo, na seleção entre paradigmas rivais e a ciência evolui — isto é, muda de paradigma — mas não existem razões para afirmar que o novo paradigma constitua um progresso relativamente ao anterior. De certa forma, é o irracionalismo de que David Hume era acusado, como vimos na unidade sobre o conhecimento, e que Popper julgava ter superado, que Kuhn faz reviver com a sua teoria da ciência fundada na história. Não é de admirar, por isso, que os seus críticos rapidamente o tenham acusado de irracionalismo, de relativismo e de ceticismo.

Como se faz, então, de acordo com Kuhn, o progresso da ciência? Em rigor, só na ciência normal, que tem por base sempre um paradigma e é cumulativa, existe progresso. Ao selecionarem puzzles que podem ser resolvidos usando técnicas e instrumentos próximos dos que já existem, os cientistas aumentam gradualmente o conhecimento disponível na sua disciplina. O progresso existe, portanto, no interior dos paradigmas. Mas, as revoluções científicas, apesar das enormes alterações a que dão origem quando, devido a uma crise, um paradigma é substituído por outro, não constituem propriamente um progresso. Como não existem critérios objetivos de comparação entre paradigmas, Kuhn recusa que possamos dizer que o novo paradigma que emerge de uma revolução científica é verdadeiro ou, como pretendia Popper — para quem as revoluções trazem consigo teorias que são melhores aproximações à verdade —, uma melhor descrição ou uma melhor explicação da realidade. Por esse motivo, as mudanças de paradigma que resultam das revoluções científicas constituem mais uma evolução ou de uma mudança do que um progresso na verdadeira acepção da palavra.

Comparação entre as teorias de Popper e Kuhn

Embora Popper e Kuhn usem nas suas teorias uma linguagem diferente, ambos afirmam que elas têm muitos pontos em comum. Por exemplo, ambos dão grande importância às revoluções científicas e à substituição das teorias por outras. Onde existe maiores divergências entre as filosofias da ciência de Popper e Kuhn é nas questões tratadas neste capítulo, relativas ao progresso e à objetividade da ciência.

Para Popper, a prática científica, que corresponde à aplicação do método falsificacionista, garante ao mesmo tempo o progresso e a objetividade da ciência. A substituição de uma teoria refutada por outra constitui um progresso porque esta é objetivamente — devido ao uso de padrões lógicos — uma melhor aproximação à verdade do que a outra. Mas, para Kuhn, não há padrões independentes e objetivos que permitam comparar os paradigmas rivais e determinar qual é, de acordo com esses padrões, o melhor. Por esse motivo, as teorias científicas não são objetivas e, em rigor, não podemos falar de progresso da ciência.

QUADRO COMPARATIVO DAS TEORIAS DE POPPER E KUHN
Há progresso em ciência? É a ciência é objetiva?
Popper Sim. As teorias que substituem as teorias refutadas estão mais próximas da verdade e constituem um progresso relativamente a essas teorias. Sim. Existem padrões racionais, estabelecidos no método científico, que permitem comparar as teorias e determinar qual é mais verosímil.
Kuhn Não. Há mudanças de paradigmas, mas nada nos permite afirmar que o novo paradigma constitui um progresso relativamente ao antigo paradigma. Não. Não há padrões objetivos que permitam determinar qual dos paradigmas em competição é verdadeiro ou se aproxima mais da verdade.

Álvaro Nunes

Bibliografia

Notas

  1. Uma previsão é um fenómeno que se pode inferir logicamente de uma teoria. Por exemplo, as leis de Galileu predizem que a aceleração de um corpo em queda é constante. As previsões são muito importantes para os indutivistas e para Popper, pois é por intermédio delas que as teorias são testadas.

  2. Às vezes as pessoas dizem que até ao tempo de Copérnico o Sol girava em torno da Terra, e que a partir dessa altura passou a ser a Terra a girar em torno do Sol. A única forma de isto não ser um disparate óbvio é interpretar esta afirmação como significando que as pessoas viviam em mundos diferentes, no sentido de Kuhn, devido a adotarem paradigmas diferentes acerca do sistema solar, antes e depois de Copérnico.

  3. Popper tem uma posição em parte similar. Não há observação que não esteja carregada de teoria e é por isso que não há observações nem problemas puros. Uns e outros pressupõem sempre uma teoria — um paradigma, na linguagem de Kuhn — que determina o que observamos e o eventual problema que possa daí resultar. Contudo, para Popper, ao contrário de para Kuhn, o facto de umas teorias serem mais verosímeis do que outras permite compará-las e determinar qual delas corresponde mais à realidade.