19 de Janeiro de 2016   História da filosofia

Persuasão e manipulação

Álvaro Nunes

É no diálogo Górgias, em que uma das personagens principais é o sofista do mesmo nome, que o conflito que opôs, na Antiguidade, os filósofos aos mestres de retórica a propósito da educação é melhor tratado por Platão. O que se segue é um resumo de algumas das ideias mais importantes desse diálogo.

A definição de retórica

A retórica como persuasão

O Górgias começa com o problema da definição de retórica. Interrogado por Sócrates, Górgias vai sucessivamente fornecendo a informação que a permite definir. Assim, para ele,

[…] a retórica é a arte de persuadir pela palavra os participantes de qualquer espécie de reunião política e tem por objecto o justo e o injusto. Ela proporciona a quem a possui ao mesmo tempo liberdade para si próprio e domínio sobre os outros na cidade.

Górgias está tão convencido do poder persuasivo da retórica que afirma que o orador não precisa de conhecer o tema de que fala para ser persuasivo, inclusive para ser mais persuasivo que um especialista

[…] o orador conseguirá que o prefiram a qualquer outro, porque não há matéria sobre a qual um orador não fale, diante da multidão, de maneira mais persuasiva do que qualquer profissional. (Platão, Górgias, 456c)

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A retórica como manipulação

Platão opõe-se vigorosamente à retórica assim concebida e, por isso, denuncia o seu carácter manipulador em dois momentos. No primeiro, mostra que o orador só é persuasivo se aqueles para quem fala não conhecerem o assunto de que fala; se conhecerem, o orador não é mais persuasivo do que um profissional. No segundo, mostra que a definição de retórica de Górgias não é correcta, apresentando, por intermédio da personagem Sócrates, a sua própria definição de retórica.

Há, segundo Platão, duas realidades diferentes, a que correspondem duas artes. Essas realidades são a alma e o corpo. A arte da alma tem o nome geral de política e divide-se em legislação e justiça. A arte do corpo não tem um nome único, mas tem também duas partes, a ginástica e a medicina. Apesar de serem artes diferentes com objectos diferentes, há uma certa correspondência entre elas: a legislação corresponde à ginástica e a justiça à medicina.

A adulação, como simulacro destas quatro artes, tem também quatro partes: a cozinha imita a medicina; a toilette imita a ginástica; a retórica imita a justiça e a sofística imita a legislação. Platão julga que uma qualquer actividade só é uma arte se cumprir duas condições:

É fácil compreender a primeira condição se pensarmos no que distingue uma arte como a medicina da prática dos curandeiros. Quando o médico pratica uma determinada operação ou receita um determinado medicamento, fá-lo, não porque tenha, com base meramente em experiências repetidas, aprendido que é isso que deve fazer, mas porque a investigação racional permite estabelecer uma relação entre a forma como o corpo humano funciona e a operação ou medicamento que receita. O curandeiro, pelo contrário, é incapaz de estabelecer uma relação directa entre as suas práticas e a biologia do corpo humano e não tem, por isso, qualquer justificação racional para elas.

A segunda condição pode parecer hoje muito estranha, porque pensamos que para algo ser uma arte não tem de ter por fim o bem, mas para Platão essa condição é de grande importância. Só quando uma actividade cumpre as duas condições é uma arte ou ciência.

Assim, para Platão, a retórica não é uma arte, mas uma forma de actividade empírica que tem por fim produzir no auditório um sentimento de agrado e de prazer. Platão chama a essa actividade empírica adulação e, como já vimos, divide-a em quatro partes: a cozinha, a toilette, a sofística e, claro, a retórica.

O quadro seguinte resume a perspectiva de Platão:

Artes
(fundadas na razão têm por objectivo o bem)
Actividades empíricas
(fundadas em conjecturas têm por objectivo o prazer)
Relativas à alma Política Legislação Sofística Adulação
Justiça Retórica
Relativas ao corpo Sem Designação Única Ginástica Toilette
Medicina Cozinha

Consequências

Esta descrição tem importantes consequências éticas e políticas. Recordemos que Platão afirma que as artes têm por objectivo o bem, enquanto as actividades empíricas que constituem a adulação têm por objectivo o mero prazer. Assim, é possível distinguir:

Paralelamente, é possível também distinguir duas concepções de felicidade:

O primeiro género de vida, bem como a primeira concepção de felicidade são os do filósofo. O segundo género de vida e a segunda concepção de felicidade são os do orador.

Assim, para Platão, o que está verdadeiramente em causa no conflito educativo com os oradores é a questão de saber para que género de vida devem os jovens ser educados: se para uma vida de adulação e prazer, como Platão pensa ser a vida dos oradores; se para uma vida de filósofo, de que Sócrates é o modelo e que tem por fim o bem. Talvez a passagem do Górgias em que este conflito entre a vida de filósofo e a vida de orador é mais visível seja aquela em que Cálicles — uma das outras personagens que interpela Sócrates — diz o seguinte:

Acredita-me, meu caro, deixa-te de argumentações, “cultiva a arte dos negócios”, exercita-te naquilo que te pode dar a reputação de homem sensato, “deixando aos outros todas essas subtilezas”, que não passam de tolices ou frivolidades e que “acabarão por te fazer habitar uma casa vazia”; toma por modelos, não esses argumentadores de bagatelas, mas os homens que souberam adquirir riquezas, glória e os outros bens da vida. (Platão, Górgias, 486c)

Platão pensa, claro, que os jovens devem ser educados para a prática do bem, isto é, para a vida de filósofo. Defende, em conformidade, que a felicidade consiste no bem e que a virtude e a justiça são condições necessárias para se ser feliz, de modo que:

Contudo, a maior parte dos homens, confundindo o prazer com a felicidade, pratica injustiças, servindo-se depois da retórica para persuadir os juízes nos tribunais e evitar o castigo. Precisamente o contrário do que deveriam fazer porque dessa forma destroem qualquer possibilidade de serem felizes.

De acordo com os princípios que estabelecemos, Polo, assumem idêntica atitude os que fogem do castigo, porque vêem o que este tem de doloroso, mas são cegos para o que ele tem de útil, e não compreendem que maior infelicidade que viver com um corpo doente é viver com uma alma que não está sã, mas corrupta, injusta e ímpia. Daqui resulta que fazem tudo para evitar o castigo e não serem libertados do maior dos males: é por isso que acumulam riquezas e amigos e se esforçam por desenvolver o talento de persuasão pelo discurso. (Platão, Górgias, 479b)

Assim, Platão aconselha, de uma forma que não pode deixar de parecer estranha, que a retórica seja usada para o fim oposto àquele que é usual, isto é, não para alguém se defender se tiver cometido alguma injustiça e for acusado, mas para se acusar a si próprio, a algum familiar ou amigo que tenha cometido um injustiça, para que sofra o castigo e se cure.

Se no plano pessoal o procedimento dos homens não é o mais adequado, no plano político as coisas não são melhores. Também neste caso os oradores usam a retórica para adular o povo, promovendo os seus interesses pessoais em vez do bem comum. Mesmo os políticos como Temístocles, Címon, Milcíades ou Péricles, unanimemente reconhecidos pelos serviços prestados a Atenas, são vistos por Platão como tendo-se limitado a satisfazer os seus desejos e os dos outros sem terem feito de facto o necessário para melhorar os cidadãos.

Se nos lembrarmos do que dissemos antes sobre as artes e as actividades empíricas, será fácil percebermos os motivos de Platão. A política é a arte da alma e como arte visa o bem e não o prazer. Ora, os políticos que acabámos de referir só poderiam ter sido bons políticos se, em vez de satisfazerem os desejos dos atenienses, tivessem procurado melhorá-los. É por isso que aos olhos de Platão estes políticos são maus e o único verdadeiro político é Sócrates. Ele é o único que procura tornar os cidadãos de Atenas melhores.

Álvaro Nunes

Bibliografia