Introdução à Filosofia Contemporânea
20 de Abril de 2008 ⋅ Filosofia

Sem ranços doutrinários

Weber Lima
Introdução à Filosofia Contemporânea, de Kwame Anthony Appiah
Tradução de Vera Lúcia Mello Joscelyne
Petrópolis, RJ: Vozes, 2006, 368 pp.
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Como professor de filosofia leio vários livros introdutórios aos problemas filosóficos, sempre em busca de algum que seja mais interessante para meus alunos (mesmo porque cada qual aborda aspectos específicos e raros são os que apresentam uma abordagem sistemática e ampla das questões fundamentais filosóficas) — em especial àqueles que não pertençam aos cursos de filosofia. Contudo, os livros de introdução à filosofia, não raro, deixam muito a desejar, quer por serem simplificadores demais, quer por se perderem em minúcias que um leitor iniciante não tem condições de acompanhar. Mas este livro do filósofo anglo-africano Kwame Anthony Appiah, para mim, foi uma agradável surpresa. Com uma linguagem clara (típica de sua formação em filosofia analítica) K. A. Appiah aborda as diversas áreas e problemas da filosofia contemporânea tornando-as acessíveis a um leitor iniciante sem simplificações excessivas ou erudição obscurantista.

Transcrevo a seguir parte do prefácio do livro como uma mostra do estilo e característica argumentativa de Appiah.

Às vezes, quando estou jogando conversa fora com alguém que se sentou a meu lado em uma viagem de avião, o vizinho temporário me pergunta o que eu faço na vida. Quando isso ocorre normalmente respondo, sem muitos rodeios, que "sou filósofo". Uma de três coisas pode então acontecer: na maior parte das vezes, meu novo amigo muda de assunto — "E aquele jogo de ontem, hein?" — ou pára de conversar (a revista do avião subitamente torna-se fascinante). A segunda resposta mais freqüente envolve alguma pergunta do tipo: "Você é da linha de qual filósofo?" E, com uma freqüência um pouco menor, a pergunta é: "Qual é a sua filosofia?" Essas duas últimas perguntas revelam claramente o que os leigos acham que os filósofos contemporâneos fazem. Na verdade não sigo nenhum filósofo, da maneira como um discípulo seguiria um guru religioso; e posso desempenhar meu trabalho perfeitamente bem sem ter aquilo que as pessoas chamam de "uma filosofia".

Nesse aspecto sou um típico filósofo americano atual. Nem mesmo os filósofos contemporâneos que se denominam kantianos (de Immanuel Kant) ou wittgensteinianos (de Ludwig Wittgenstein) são realmente seguidores desses grandes filósofos do passado. Pelo contrário, o que fazem é mergulhar de cabeça na obra desses grandes homens, na tentativa de fazer sentido dela, por acreditar que ela contém idéias profundas sobre alguns aspectos do mundo ou da vida humana. O que certamente não acham é que esses filósofos tenham as respostas certas para todas as questões principais da vida humana. E, por isso, tampouco acham que o que se deve fazer é entender o que dizem seus livros e acreditar piamente em tudo o que ali foi dito. Eles não "seguem" Kant ou Wittgenstein como poderíamos "seguir" Jesus Cristo ou Buda.

Tampouco podemos afirmar que a maioria dos filósofos atuais tem "uma filosofia", ou seja, uma série de aforismos ou princípios que, segundo eles, deveria servir de diretrizes para suas próprias vidas e a dos demais. (Às vezes quando me fazem essa pergunta, respondo que minha filosofia é: "tudo é sempre mais complicado do que se imagina". Mas é claro, isso é apenas uma piada e nem sequer tem muita graça!) Os filósofos têm opiniões, teorias, preconceitos, abordagens, modos de pensar. Poucos têm uma visão claramente definida do mundo e de nosso lugar nele e os que a têm raramente acham que há uma idéia-chave que abrirá a porta para todos os segredos.

Essas falsas imagens — o filósofo como guru, o filósofo como provedor de uma visão absoluta do mundo — não nos surpreendem e ocorrem, em parte, porque a maioria dos filósofos contemporâneos não tem, nem procura ter, um perfil público mais acentuado. Se a maioria das pessoas não sabe o que fazemos é porque não fazemos qualquer esforço para lhes dizer. É bem verdade que, às vezes, apertamos o nó da gravata e dizemos que somos "filósofos profissionais" — com certeza para nos distinguirmos desses amadores confusos que escrevem best-sellers e oferecem conselhos espirituais na televisão. No fundo, isso é mais ou menos o mesmo que colocar um cartaz bem grande na frente de nosso trabalho dizendo: "É proibida a entrada". Tratamos de nossos assuntos nos recantos arborizados do mundo acadêmico, nas universidades e institutos de pesquisa, e normalmente só conversamos com nossos alunos ou entre nós mesmos. Os que ignoram o cartaz e invadem nosso terreno provavelmente acharão nossos escritos profissionais bastante assustadores. Acho que a vida profissional na filosofia tem inúmeras vantagens e é muito importante e que nossa sociedade tem muita sorte de ter, entre seus professores, pensadores e escritores, pessoas que fazem esse trabalho. E acho que é uma pena que não partilhemos mais daquilo que aprendemos com o público em geral. Pois, como espero demonstrar nesse livro, as perguntas que os filósofos fazem são perguntas importantes; e as respostas que sugerimos — e também a maneira como atuamos para elaborá-las — nos ajudam a fazer algum progresso com as perguntas.

Além de serem interessantes e importantes, muitas das perguntas filosóficas emergem a cada instante em nossa vida cotidiana. Às vezes apenas nos intrigam intelectualmente e é divertido pensar um pouco sobre elas ou discuti-las em nossas conversas com a família ou com amigos. Um filme como 2001: Odisséia no Espaço, em que uma máquina parece ter consciência e até personalidade, por exemplo, desperta em nós a curiosidade de saber se tudo aquilo pode realmente acontecer. Outras vezes, porém, as perguntas filosóficas deixam de ser apenas teóricas e surgem em contextos práticos, quando temos decisões a tomar. Um pai ou uma mãe sofrendo profundamente com uma doença terminal e nos perguntaremos se será errado concordar em ajudá-lo ou ajudá-la a morrer. Normalmente, matar seres humanos é errado. Mas, por outro lado, muitas pessoas acham que têm o direito de decidir que "Já chega. Minha vida não vale a pena". Qual deve ser a nossa decisão? De quem deve ser a decisão? (pp. 7-8. Os grifos são do autor).

O livro está dividido em nove capítulos, todos com interessantes introduções às diversas questões apresentadas:

  1. A mente: O que é a mente? Poderíamos construir uma máquina que tivesse mente? Qual é a relação entre mentes e corpos?
  2. O conhecimento: O que é o conhecimento? Como é possível justificar nossas afirmações de que temos conhecimento? O que podemos saber?
  3. A linguagem: O que é o significado? Qual é a relação entre a linguagem e a realidade? De que forma as palavras escritas e faladas expressam idéias?
  4. A ciência: O que faz uma explicação ser científica? Como podemos justificar as teorias científicas? O que é uma lei da natureza?
  5. A moralidade: Que quer dizer "juízos morais"? Como é possível saber o que é certo? Quando é certo matar uma pessoa, se é que alguma vez o é?
  6. A política: O que é o estado? Os governos têm o direito de exigir obediência? O que é a justiça?
  7. O direito: O que é uma lei? Quando devemos obedecer à lei? Quando é que o castigo é moralmente justificável?
  8. A metafísica: O que é a existência? Os números existem? Deus existe? A existência de Deus é necessária?
  9. A filosofia: Qual é a diferença entre a filosofia formal e a filosofia popular? Ou entre filosofia formal e religião e ciência? Pode haver várias maneiras de conceitualizar o mundo que, embora igualmente apropriadas, sejam incompatíveis?

O livro possui ainda notas referenciais para quem deseje prosseguir avançando em suas leituras filosóficas e um interessante índice remissivo a fim de auxiliar na localização dos diferentes conceitos apresentados — aliás, é o que se espera de um livro que seja minimamente razoável. Insisto muito nesse aspecto porque tenho lido livros introdutórios ou até mesmo pretensamente "avançados" sem nenhuma referência e/ou sem índice remissivo.

O que me agradou mais no livro de Appiah foi a apresentação sistemática das questões deixando aos leitores as conclusões pessoais sobre o que entenderam; sem os velhos ranços doutrinários (marxismo, estruturalismo, positivismo, etc.) que tenho encontrado em diversos livros de filosofia, quer sejam introdutórios, quer sejam "avançados".

Weber Lima
profweberlima@gmail.com
Instituto de Ensino Superior de Brasília
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