Ark
28 de Dezembro de 2009 ⋅ Livros

A outra arca

Desidério Murcho
Ark, de Stephen Baxter
Londres: Gollancz, 2009, 416 pp.
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Em Flood assiste-se à extinção progressiva da civilização científica e tecnológica, à medida que os oceanos vão cobrindo os continentes. O livro termina com a imagem inesquecível do cume do Evereste a desaparecer sob as águas em 2052, perante a consternação dos velhos e a indiferença da nova geração de seres humanos que já nasceram nas jangadas, refúgios dos últimos sobreviventes. Em Ark, voltamos a 2041 para assistimos ao desenvolvimento de um projecto mais arrojado: encontrar um planeta habitável, construir uma nave suficientemente rápida para lá chegar em tempo útil, e suficientemente grande para levar um punhado suficiente de seres humanos para permitir a sua reprodução sem problemas de consanguinidade.

Nada de novo, certo? Errado. O que há de surpreendente na abordagem de Baxter é o seu realismo. Não temos milagres tecnológicos e científicos, nem tolices cinematográficas. Com os pés solidamente assentes na ciência contemporânea, Baxter explora as possibilidades. Consegue-se, com alguma inovação científica e tecnológica, fazer uma nave que viaje a velocidades superiores à da luz. Mesmo assim, os planetas habitáveis mais próximos ficam a décadas de distância. Portanto, a nave terá de acomodar gerações de tripulantes e passageiros. Terá de conseguir reciclar água e ar. Terá de produzir alimentos durante anos. Tudo isto são dificuldades reais, e não são desprezadas por Baxter.

O mais interessante, contudo, é a atenção de Baxter aos problemas humanos que isto representa. Seres humanos que nascem numa nave e nunca pisaram o solo de um planeta. Relações tensas entre tripulantes e passageiros. Conflitos. E tudo isto para, depois de décadas, se chegar a um planeta que é habitável mas tornaria a vida humana tão precária e desgraçada, que a perspectiva de ficar no planeta não parece de todo atraente; mais valia tentar sobreviver no planeta Terra, nas jangadas ou sob os oceanos. Alguns dos tripulantes e passageiros originais decidem então voltar à Terra; outros, decidem ficar no planeta; e um terceiro grupo decide procurar outro planeta e viajar até lá.

O que temos é então uma narrativa realista sobre futuros não muito brilhantes. A fantasia de colonizar planetas como quem vai ali ao lado à Nova Zelândia comprar kiwis é brutalmente rechaçada perante a dura realidade: as distâncias entre planeta são abissais, a esmagadora maioria dos planetas não é favorável à vida, tentar viver noutro lado que não na Terra é provavelmente pior do que o pior género de existência que possamos ter na zona mais desértica da Terra.

Como em Flood, as personagens são sólidas, a narrativa é segura e inteligente. Baxter revela-se um excelente autor de ficção científica. Este é mais um livro de entretenimento sólido e inteligente para um fim-de-semana emocionante. Atire-se a ele.

Desidério Murcho
Universidade Federal de Ouro Preto
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