Look into my eyes
10 de Junho de 2008 ⋅ Opinião

Filosofia e aspiradores

Desidério Murcho
Universidade Federal de Ouro Preto

A filosofia é sobretudo uma actividade crítica e não um corpo de conhecimentos. É a procura de justificações plausíveis e publicamente defensáveis das nossas crenças e convicções. Neste sentido, a filosofia é subversiva por natureza. Será que o deus cristão existe? Qual é o mal da escravatura? Teremos realmente livre-arbítrio, ou isso não passa de uma ilusão? Estas perguntas são irritantes. Ou porque põem em causa as nossas crenças mais queridas ou porque parecem irrelevantes para a vida quotidiana. Mas queiramos ou não tentar responder a estes e outros problemas, eles existem.

Confunde-se muitas vezes a filosofia com discursos pretensamente inspiradores. Transfigura-se a filosofia e não se trata já de discutir ideias livre e cuidadosamente, mas antes de usar a autoridade ilusória dos filósofos mortos para alimentar as aspirações mais palermas. Descobriu-se que não estamos no centro do universo e que o Deus bíblico não fez o mundo em sete dias? Ah, mas a marca de Deus está nas nossas aspirações humanas indeléveis, de suprema importância cósmica. Aceitamos que Deus morreu? Ah, mas substitui-se isso pelo Ser e desatamos a perorar contra a lógica e a racionalidade, as culpadas de todos os males da humanidade.

O obscurantismo nunca se deu bem com a exigência de clareza do pensamento crítico da filosofia. As duas perguntas filosóficas típicas são suficientes para deitar por terra muitos parágrafos lamacentos que nada dizem realmente de interessante: "Que quer isso realmente dizer?" e "Será isso verdade?"

Mas não será uma ingenuidade procurar a verdade? Afinal, o que é a verdade? Estas perguntas são pontos de partida para sofismas inacabáveis. É muito difícil ter uma boa teoria filosófica sobre a verdade, mas não precisamos de tal coisa para fazer o nosso trabalho crítico normal. Não precisamos disso para nos perguntarmos se hoje é terça-feira. O sofisma consiste em insistir que precisamos disso para podermos discutir livremente afirmações tonitruantes que não querem ser discutidas — não querem ser discutidas porque mal o fazemos a aura que as torna atraentes cai por terra.

Um teste simples contra a tolice linguística que tem o poder hipnotizador de inspirar quem aspira a ser inspirado dessa maneira é este: pegue-se numa dessas afirmações e neguemo-la. Se verificarmos que o seu poder inspirador é igual, é porque é isso que nos atrai e não a sua verdade — o que significa que é uma intrujice. Vejamos um exemplo: "O Homem é o ser para a morte". O que quer isto dizer? Parece profundo, mas é igualmente profundo, e igualmente machista, dizer que o Homem não é um ser para a morte. Por outro lado, se retirarmos o lodo gramatical da primeira afirmação obtemos uma verdade simples: os seres humanos morrem. Agora, a sua negação já é obviamente tola: os seres humanos não morrem.

É este o poder do pensamento crítico: escangalha aspiradores e restitui-nos o filosofar genuíno, genuinamente subversivo.

Desidério Murcho
Publicado no jornal Público (20 de Maio de 2008)
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