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9 de Setembro de 2008 ⋅ Opinião

Atavismo linguístico

Desidério Murcho
Universidade Federal de Ouro Preto

Poucas pessoas sabem como se faz um livro, e por isso não sabem que o que um autor ou tradutor escreve é pacientemente revisto por pessoas especialistas nessa tarefa. Muitos desses profissionais são heróis desconhecidos do grande público, mas muitíssimo respeitados por editores, tradutores e autores. Esses profissionais apanham erros tipográficos, infelicidades de estilo, ambiguidades, obscuridades e puro entulho verbal. São pessoas que dominam melhor a língua portuguesa do que nós, e põem esse conhecimento ao serviço de todos. Aprendi mais com estes profissionais do que nas aulas de português.

Contudo, alguns revisores têm uma mentalidade infeliz. Esta mesma mentalidade está subterraneamente presente numa boa parte da vida linguística nacional. Por exemplo, o FLiP, da Priberam, é um corrector ortográfico e sintáctico sem o qual não quero viver. Mas não reconhece palavras como "caralho", "foder" e outras preciosidades do linguarejar de caserna. Para minha agradável surpresa, o Dicionário de Língua Portuguesa da Porto Editora, versão online, regista estes termos. Mas muitos revisores querem à viva força evitar obscenidades, mesmo quando o autor as quer escrever ou quando o tradutor está a fazer bem o seu trabalho de tradução — e lá ficamos com "chichi" em vez de "mijar" (outra palavra irreconhecida pelo FLiP), em traduções de obras linguisticamente violentas, que usam os termos estrangeiros equivalentes.

Se o problema fosse só um certo prurido linguístico próprio da Titi do Raposão, não seria assim tão mau. Mas a mentalidade salazarista manifesta-se noutros preciosismos linguísticos mais graves. Escrever "estado" — ou "pátria" — com maiúscula é usar as maiúsculas não para indicar um nome próprio, como é de lei, mas no seu sentido reverencial. Mas por que raio havemos de ter reverência pelo estado ou pela nação ou pela pátria, se não porque no fundo somos todos ainda salazaristas? O estado é uma pura abstracção política, e só temos de viver com essa tolice porque não somos capazes de viver de outra maneira; caso houvesse outra maneira melhor de viver a vida, seria um alívio acabar com o estado. Viver sem Papel Higiénico também não seria boa ideia, mas nem por isso usamos maiúsculas — e caso alguém invente outra coisa melhor, abandonamo-lo sem saudosismos pacóvios.

Mais grave é o medo de expandir sagazmente a língua portuguesa, que nos faz usá-la como se não fosse nossa: mais facilmente introduzimos um anglicismo desnecessário do que se tem a coragem de escrever "incontradição". O prefixo "in-" tem o papel de negar; a palavra "não" não é um prefixo, mas usamo-la como tal só porque os ingleses usam "non-" como prefixo. Mas os ingleses não usam evidentemente "not" como prefixo, e limitaram-se a ir buscar ao latim o "non", que na verdade nós podemos usar com igual direito. O atavismo linguístico manifesta e reforça a mentalidade atávica nacional e quanto mais depressa nos livrarmos do primeiro mais depressa poderemos livrar-nos do segundo.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Publicado no jornal Público (9 de Setembro de 2008)
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