Jardim Infantil, de Charles Burchfield (1893-1967)
4 de Novembro de 2009 ⋅ Ensino da filosofia

Instrumentalização do ensino e ilusão

Desidério Murcho
Universidade Federal de Ouro Preto

Geralmente não uso o termo “educação”; prefiro o termo “ensino”. Faço-o pelas mesmas razões que os defensores iluministas do ensino universal falavam de instrução, e não de educação: porque se opunham à instrumentalização do ensino — ideológica, política, religiosa ou social. Acontece que, infelizmente, hoje em dia parece cada vez mais que falar de ensino é falar de educação, que muitas vezes é apenas uma forma mentirosa de falar de doutrinação ou lavagem ao cérebro.

Qual é a diferença? Quem defende o ensino com base no valor intrínseco do que é ensinado, como é o meu caso, tende a desconfiar das instrumentalizações do ensino — por melhores que sejam as intenções. Quando me falam de educação para a cidadania já sei que logo a seguir vem a ideia de doutrinação: vamos doutrinar as crianças e jovens para qualquer coisa. E a mim não me interessa o que vamos doutrinar — o problema é a doutrinação. Uma vez mais, qual é a diferença?

O maior desafio do ensino de excelência é dar autonomia intelectual aos estudantes. E esse, do meu ponto de vista, é o objectivo prioritário. A doutrinação é exactamente o contrário disto: consiste em fazer os estudantes repetir lugares-comuns politicamente correctos sem qualquer atitude crítica perante eles, só porque vêm escritos nos manuais ou foram promovidos pelo Ministério da Educação, ou pelos professores, ou pela sociedade em que se acham por acaso inseridos. A diferença do ensino para a autonomia intelectual é que não se pretende que o estudante aprenda a repetir ideias feitas, mas antes a pôr em causa todas as ideias feitas. Não interessa se essas ideias feitas até são verdadeiras e defensáveis: se forem objecto de doutrinação, tornar-se-ão dogmas mortos nos espíritos dos estudantes e prepararão o terreno para o mais perigoso dos totalitarismos, que é o que foi de tal modo interiorizado que não é sentido como totalitarismo.

Fico por isso desconfiado sempre que se instrumentaliza o ensino. Do meu ponto de vista, a razão de ser do ensino é o valor intrínseco do que é ensinado. É importante ensinar filosofia, música, biologia, história, arqueologia, engenharia, e tudo o mais, porque essas coisas são importantes e porque muitos alunos têm talento para essas coisas e não o descobrirão se não contactarem com essas coisas na escola. Que essas coisas têm, depois, por vezes, aplicações sociais importantes é óbvio; queremos ter médicos competentes, e políticos, e engenheiros. Mas estaremos a construir sociedades totalitaristas se só houver competência técnica, mas não houver autonomia intelectual. Se das escolas saírem autómatos que sabem repetir, mas não pensar. Que são incapazes de pôr em causa, por si mesmos, as ideias feitas da sua sociedade, partido, religião, classe social ou etnia. Que só sabem repetir fórmulas matemáticas ou da biologia, teses filosóficas ou históricas, ideias sociológicas ou económicas, sendo totalmente incapazes de as pôr em causa.

A ilusão do instrumentalismo educativo é fácil de explicar e é uma parte da velha ilusão da infalibilidade que, como John Stuart Mill bem viu, está por detrás de todos os ataques à liberdade. Vejamos: a mentalidade pública contemporânea é fruto do quê? Do pensamento autónomo da maior parte das pessoas? Claro que não; é fruto da repetição impensada de ideias feitas. Essas ideias feitas foram implantadas na mentalidade das pessoas através da educação, explícita e inexplícita (a educação explícita ocorre sobretudo nas escolas, a inexplícita é dada sobretudo pelos pais, pelos grupos sociais, pela televisão, etc.; mas, claro, uma parte importante da educação inexplícita ocorre também nas escolas). A ilusão suprema de quem instrumentaliza a educação, encarando-a como doutrinação, é pensar que as suas ideias feitas são melhores do que as ideias feitas dos seus antepassados, cujo fruto é a sociedade contemporânea. Mas quem considera que a educação é fundamentalmente um instrumento de mudança social é porque considera que a sociedade que temos hoje não é a melhor. Contudo, sendo ou não a melhor, a verdade é que a sociedade que temos hoje resulta directamente da mentalidade que as pessoas têm e essa mentalidade resulta directamente da educação, sobretudo inexplícita, de que foram vítimas. O que garante então que as ideias que os reformadores sociais actuais querem introduzir sub-repticiamente no ensino são melhores do que as anteriores? Nada, excepto a ilusão de infalibilidade.

Toda a gente com fraca experiência de vida e de pensamento pensa que a sua mentalidade, os seus lugares-comuns, os seus valores e ideais são os melhores do mundo. Mas é evidente que isto é uma ilusão porque o mesmo pensavam as pessoas que no passado moldaram as mentalidades presentes, mentalidades que muitos reformadores sociais hoje consideram erradas. Assim, mesmo que se queira instrumentalizar a educação para fazer uma sociedade melhor, o caminho tem de ser a autonomia intelectual dada aos estudantes e não a repetição de gramofone das ideias que nós hoje consideramos bonitas. O caminho, mesmo nesse caso, tem de ser o mesmo caminho que teremos de trilhar caso defendamos que o ensino é importante primariamente por causa da importância intrínseca do que é ensinado, e não porque podemos instrumentalizá-lo para fazer “bons cidadãos”. Esta expressão, “fazer bons cidadãos”, é em si uma contradição nos termos. Uma sociedade humana não pode ser uma sociedade humana florescente se for uma sociedade de formigas, e fazer bons cidadãos envolve necessariamente fazer formigas: cidadãos que repetem conscienciosamente ideias feitas, valores herdados, lugares-comuns e outros artigos de contrabando intelectual.

Partidarismo, sectarismo, fanatismo, tribalismo, falta de autonomia — estas são algumas das raízes mais importantes das maiores tolices humanas. E são comuns. São ilusões inscritas nos nossos genes, talvez, tão inevitáveis quanto é inevitável pensar que os objectos mais pesados caem mais depressa ou que a Terra está imóvel. É preciso pensamento crítico, distanciamento epistémico, amor à verdade, probidade intelectual, para pôr em causa essas ilusões inevitáveis. Mas se tudo o que ensinarmos aos alunos é a substituir ideias feitas falsas por outras ideias feitas, ainda que verdadeiras, não teremos resolvido o problema de fundo, que é haver ideias feitas — tanto faz se são verdadeiras ou falsas.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
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