Ponto Fixo, de ZakQ100
6 de Dezembro de 2009 ⋅ Opinião

Azar cósmico e o futuro pós-humano

Desidério Murcho
Universidade Federal de Ouro Preto

Como outros palermas da minha geração, cresci sonhando com um futuro espacial. A ficção científica, e as descobertas científicas sobre o nosso sistema solar e o universo, alimentavam o sonho. Mas quando a Viking chegou a Marte e enviou a sua primeira e icónica imagem da paisagem marciana foi o princípio do fim do sonho.

A especulação sobre o nosso futuro no espaço ganhou força a partir de meados do séc. XX, quando o nosso conhecimento do universo e do sistema solar começou a crescer. Um duplo fenómeno cultural curioso é que das poucas pessoas que têm um bom conhecimento sobre a natureza do universo e do nosso sistema solar, poucas se dão conta de que, primeiro, quase ninguém tem hoje qualquer noção da dimensão e natureza do nosso sistema solar, da nossa galáxia e do restante universo e, segundo, que ao longo da maior parte da história da humanidade quase nada se sabia, nem sequer sobre a Lua. Foi só a partir do séc. XX que o conhecimento sobre o nosso sistema solar e sobre a nossa galáxia começou a ganhar corpo. Em plena segunda guerra mundial, por exemplo, ninguém sabia que a nossa galáxia é apenas uma de entre biliões de outras galáxias. As diversas tradições orais que estão na base do Antigo Testamento emergiram de culturas que não tinham conhecimento nem sequer da dimensão do planeta — não faziam ideia alguma, por exemplo, da existência das civilizações chinesa e indiana — quanto mais da dimensão do universo. Quando se tem plena consciência da dimensão do universo, a mundividência religiosa não parece grandiosa mas antes mesquinha e ignorante.

O novo conhecimento científico deu assim origem a uma mundividência cósmica, partilhada por um punhado de pessoas em todo o planeta, que cresceram com plena consciência da dimensão do universo. Mas a ficção científica cinematográfica em nada tem ajudado a dar uma consciência correcta da dimensão do universo — abundam as naves ultra-rápidas que viajam de sistema solar para sistema solar em apenas alguns minutos ou horas, como quem vai ali ao sul de França comprar vinho tinto. Além disso, insiste-se num universo superpovoado de seres alienígenas que na verdade são muito semelhantes em mentalidade tola aos tolos humanos — com as suas guerras territoriais e ideológicas, hierarquias, orgulhos e sonhos de conquista. A realidade, contudo, é muito diferente. Até aos anos oitenta do séc. XX nem sequer sabíamos se realmente haveria outros planetas a orbitar as muitas estrelas que podemos observar no céu nocturno. Hoje sabemo-lo, mas os sonhos ficcionais não estão mais perto de se realizar. A estrela mais próxima de nós, Proxima Centauri, está tão longe que a luz demora mais de quatro anos a chegar lá. Mesmo apenas teoricamente, talvez não seja possível viajar em tempo útil para qualquer outro sistema solar. E o nosso sistema solar nada tem de interessante que valha a pena visitar pessoalmente.

Tivemos azar cósmico. Temos uma só Lua, e ainda por cima deserta. Poderia ter oceanos, formas de vida, vegetação. Poderíamos ter tido três ou quatro luas. Marte e os outros planetas poderiam ter sido habitáveis, ter oceanos, vida, florestas. Mas não; tivemos azar cósmico e além da Terra nenhum outro planeta ou satélite poderá albergar-nos. O sonho de viajar, conhecer novos planetas, fundar novas colónias humanas — que está na base de uma parte da ficção científica — é refutado pela dura realidade. Nenhum interesse há em viajar até à Lua ou Marte porque nada há lá que possa sequer sustentar um ser humano apenas, quanto mais uma colónia. Muitas pessoas ainda não se aperceberam desta realidade, ou não a querem ver, e insistem na analogia agora refutada definitivamente com o período das descobertas, que começa na Europa no séc. XV e atinge o seu auge no séc. XVIII. A analogia foi refutada porque o que permitiu as descobertas e a expansão dos europeus foi o singelo facto de que isso dava dinheiro. Claro, atrás dos mercadores e homens de negócios vinham também os exploradores, os cientistas, os curiosos; mas não fossem aqueles, estes não teriam podido ir a lado algum. As pessoas iam ao Brasil ou à Austrália porque era possível trazer de lá riqueza e fundar lá colónias; por essa mesma razão não mais de uns poucos exploradores foram à Antárctica, e ninguém fundou lá colónias. Acontece que a Lua, Marte ou qualquer outro dos corpos celestes deste nosso pobre sistema solar é muitíssimo menos favorável à vida do que a Antárctica. Os poucos dias que os seres humanos passaram na Lua tiveram de levar absolutamente tudo o que consumiram lá — do ar à água, dos alimentos à energia para não morrerem congelados. Que raio de interesse poderá alguém ter, nestas condições, para ir a Marte ou a qualquer outro planeta do nosso sistema solar?

Um dos filmes de ficção científica mais interessantes revela bem o provincianismo terráqueo. “O Dia em que a Terra Ficou Parada” (1951), de Robert Wise, faz um extraterrestre vir à Terra avisar os seres humanos de que ou se civilizam de vez e abandonam as guerras e palermices costumeiras, ou serão extintos. Isto porque os seres humanos acabaram de dar os primeiros passos no domínio do espaço, com o lançamento de Sputnik, e portanto são agora uma ameaça à segurança da civilização extraterrestre. A ideia é bonita mas terrivelmente provinciana porque as distâncias entre as estrelas é tal que ainda hoje os seres humanos nada podem fazer para provocar estragos a quem tem a sorte de morar do outro lado da galáxia, quanto mais em 1950. (Depois, em 2008, fez-se uma nova versão do filme, baseado na ideia absurda de que os extraterrestres vinham cá dar tareia aos terráqueos porque estes andam a matar as ervas e os piolhos e tal; pensamento ecológico gone mad.)

Muitos dos que nasceram com o sonho da descoberta espacial ainda não acordaram para a realidade. Tudo o que podemos obter do sistema solar, da galáxia e do restante e imenso cosmos é a satisfação da nossa curiosidade intelectual. Não há qualquer perspectiva de podermos viver noutro corpo celeste, porque nenhum corpo celeste além da Terra tem o que nós precisamos para respirar, comer, viver. Tivesse a Lua ou Marte oceanos, florestas, minérios importantes e neste momento já haveria cidades humanas na Lua ou Marte. Mas não têm tal coisa e por isso é absurdo insistir que um dia iremos fazer cidades ou pequenas comunidades na Lua ou em Marte, ou em qualquer outro corpo celeste do nosso triste sistema solar. Alguns autores de ficção científica não parecem querer enfrentar a realidade, e continuam a escrever como se estivéssemos em meados do séc. XX, sonhando com muitos planetas habitáveis onde seria aventuroso, enriquecedor e viável estabelecer comunidades humanas. Infelizmente, isto é uma mera fantasia. Não há tal coisa.

Ou haverá? Perfeitamente ciente da dimensão do universo e da fantasia das viagens em naves que são mais ou menos como aviões, mas mais rápidas, Carl Sagan apresenta em Contacto (1985) uma alternativa teoricamente possível, na qual se “dobra” o espaço, viajando por túneis de um ponto para outro do universo. Esta e outras hipóteses cientificamente respeitáveis revelam apenas o desespero que é encontrarmo-nos num sistema solar desinteressante, no qual um único planeta é capaz de albergar formas de vida complexas. E a verdade é que a existência de seres inteligentes pode ser uma raridade, no universo, tal como as aves são raras no nosso sistema solar. E mesmo com o género de tecnologia sonhada por Sagan, poderemos nunca descobrir quaisquer formas complexas de vida extraterrestre, ainda que existam, dada a imensidão do universo: se conseguíssemos explorar uma estrela por segundo, demoraríamos três mil anos a explorar todas as estrelas da nossa galáxia — e há biliões de galáxias.

Onde é que isto nos deixa? O sonho de explorar outros planetas carece de realismo. Mesmo que seja possível, é uma possibilidade de tal modo remota que não tem poder motivador. Isto deixa-nos, num certo sentido, onde sempre estivemos. Deixa-nos no provincianismo das nossas preocupações mesquinhas, que nos faz imaginar realidades distantes, na ficção científica, só para voltarmos a falar de nós mesmos e dos nossos problemas: guerra, discriminação, dominação, opressão das hierarquias, facciosismo, cegueira. O sonho que mais vale a pena sonhar, em ficção científica, é assim o domínio das tecnologias genéticas, que nos permitam ter bebés mais inteligentes, mais sensatos — menos humanos, num certo sentido. Se a humanidade é o que tem mostrado ao longo dos milénios — exploração dos fracos, frivolidade, injustiça, provincianismo — talvez valha a pena sonhar com um futuro pós-humano, em que os nossos descendentes, mais inteligentes e sensatos, possam fundar uma sociedade que, ao contrário de todas as sociedades humanas, não seja uma vergonha cósmica.

Desidério Murcho
Termos de utilização ⋅ Não reproduza sem citar a fonte