O Banquete e Apologia de Sócrates
16 de Setembro de 2010 ⋅ História da filosofia

A musa ática

Aldo Dinucci
Banquete e Apologia de Sócrates, de Xenofonte
Tradução de Ana Elias Pinheiro
Coimbra: Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos, 2008, 105 pp.
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É notória a falta de boas traduções das obras clássicas em língua portuguesa. Editoras universitárias muitas vezes oferecem boas traduções de clássicos, comentadas e anotadas, mas, infelizmente, por via de regra essas editoras têm uma distribuição deficiente e, por essa razão, trabalhos de pesquisadores competentes e dedicados se perdem no esquecimento.

Então, como meio de superar essa situação e efetivamente difundir pesquisas, trabalhos acadêmicos e traduções de clássicos, algumas editoras universitárias e grupos de pesquisa começaram a oferecer tais obras gratuitamente pela internet aos interessados, em formato PDF. Exemplo disso é a biblioteca virtual Classica Digitalia da Universidade de Coimbra, que publicou uma série de traduções clássicas e trabalhos acadêmicos relativos aos estudos clássicos, simultaneamente comercializando-os no formato tradicional e oferecendo-os para descarga gratuita em PDF.

Entre esses trabalhos temos a satisfação de ver obras de Xenofonte traduzidas por Ana Elias Pinheiro, que se incumbiu da tarefa de verter para o português não só as Memoráveis e a Apologia de Sócrates, mas também o célebre Banquete de Xenofonte, tradução acerca da qual faremos aqui uma breve recensão.

A tradução do Banquete de Xenofonte é apresentada numa edição conjunta com a Apologia de Sócrates, do mesmo Xenofonte. No prefácio, José Ribeiro Ferreira observa que era uma das metas da comissão organizadora do VIII congresso da International Plutarch Society (2008) a publicação de traduções fidedignas de obras gregas e latinas relacionadas com o tema e ainda sem tradução, contando-se entre essas as referidas obras de Xenofonte.

Na introdução da obra (p. 13), Ana Elias Pinheiro começa por tratar da instituição do banquete (symposion) na Grécia clássica, observando que nele havia um momento consagrado às discussões de ordem cultural. Tal era a importância do symposion como instituição social que dele se originou um gênero literário específico, do qual fazem parte obras como a homônima de Platão, o Banquete dos Sete Sábios e No Banquete, de Plutarco, além de No Banquete, do imperador Juliano.

Ana Elias Pinheiro apresenta então o contexto, o cenário, a data dramática e as figuras do diálogo. O banquete tem como cenário a casa do milionário Cálias (que, como personagem, aparece como anfitrião também em Platão, no Protágoras) e como pretexto a vitória no pancrácio de Autólico, filho de certo Lícon, talvez um dos acusadores de Sócrates.

De seguida, Ana Elias Pinheiro trata da relação entre Xenofonte e Sócrates, observando que Panécio de Rhodes (segundo Diógenes Laércio, 2.64) incluía os diálogos de Xenofonte entre os diálogos socráticos dignos de crédito.

Mais adiante (p. 20), Ana Elias Pinheiro observa que “pese embora Diógenes Láercio, em 2.58, o ter incluído no rol dos filósofos, a verdade é que Xenofonte não escreveu tratados filosóficos”. Aceitar isso ao pé de letra seria retirar também Platão do rol dos filósofos, por não ter também escrito tratado algum que nos tenha chegado. Porém creio que a tradutora quer referir-se a uma opinião muito difundida ao longo dos séculos XIX e XX em relação a Xenofonte, qual seja, que não era propriamente um filósofo e que não compreendeu como Platão o pensamento socrático. Entretanto, os pesquisadores divergem quanto a essa questão, e penso que Ana Elias Pinheiro deveria ter-se referido a isso tendo em vista a necessidade de apresentar ao leitor o estado atual dos questionamentos relativos ao tema.

Ora, o filósofo alemão Leo Strauss publicou em 1961 uma tradução comentada do diálogo de Xenofonte Hiero, na qual defende a tese de que Xenofonte é um pensador político original capaz de lançar luz a um importante problema da intelectualidade ocidental do século XX (e, podemos dizer também, do século XXI): a incapacidade da filosofia e das ciências sociais de reconhecer e compreender o fenômeno da tirania. As reflexões de Strauss quanto ao pensamento político de Xenofonte e sua relação com o mundo contemporâneo conduziram Strauss a um profícuo debate com Alexandre Kojève. Esse debate, incluindo intensa troca de correspondências, foi editado por Victor Gourevitch e Michael Roth e publicado pela editora da Universidade de Chicago primeiramente em 1991 e novamente, numa edição revista e ampliada, em 2000.

Afirmando que a ciência política moderna encontra as suas origens em Maquiavel, Strauss observa que este deliberadamente apaga a distinção entre o príncipe e o tirano, rompendo com toda uma tradição na ciência política. Daí a necessidade de voltar os olhos para Xenofonte, para compreender que reflexões de ordem política Maquiavel rejeitou. Strauss defende, assim, a tese de que Xenofonte foi posto de lado como pensador político pelo posicionamento adotado por Maquiavel, o qual, aliás, se refere várias vezes à obra de Xenofonte Ciropédica (A Educação de Ciro) e, ao fazê-lo, deixa clara a sua intenção de romper com a tradição clássica de pensamento político (cf. por exemplo o final do cap. 14 de O Príncipe).

Strauss observa também que, até o final do século XVIII, Xenofonte era considerado pela intelectualidade “um sábio e um clássico no sentido preciso” (2000: 26), mas que, nos séculos XIX e XX, ao ser comparado a Platão e a Tucídides, foi colocado abaixo de ambos, como filósofo e como historiador. Isso porque Xenofonte não seria primariamente nenhum dos dois, mas fundamentalmente um orador socrático:

“A retórica socrática — observa Strauss — é concebida como instrumento indispensável da filosofia. O seu objetivo é levar filósofos em potência à filosofia, treinando-os e liberando-os dos feitiços que obstruem o esforço filosófico [...] A retórica socrática é enfaticamente justa. É animada pelo espírito da responsabilidade social. A sociedade sempre irá tentar tiranizar o pensamento. A retórica socrática é o meio clássico para voltar sempre a frustrar essas tentativas.” (2000: 27)

Voltando à tradução de Ana Elias Pinheiro, é bom salientar o caráter difícil da tarefa de se traduzir Xenofonte, conhecido desde a Antiguidade como a “musa ática” pela suavidade de sua dicção. Ainda mais a tarefa de traduzir o Banquete, obra muito distinta da escrita por Platão, na qual sucessivos convidados se levantam e discursam longamente. No seu Banquete, Xenofonte procura mostrar como realmente os intelectuais socráticos se comportavam nessas festas. Como diz o próprio Xenofonte, nesta tradução: “A mim não me parece que sejam dignas de lembrança apenas as ações sérias dos homens de bem, mas também os seus momentos de diversão” (p. 17). “Em seus momentos de diversão” traduz en tais paidiais, expressão difícil de verter, e que Ana Elias Pinheiro reconsidera e modifica na página 31, optando então pela expressão “em seus momentos de irreflexão”. Nesse caso, a primeira opção me parece a melhor, já que a palavra em questão é paidía, que significa estritamente “brincadeira de criança, passatempo, diversão”, enquanto “momentos de irreflexão” tem uma conotação negativa certamente não intencionada por Xenofonte.

A tradução transcorre muito bem quanto à dicção, o que nem sempre é o caso em se tratando da difícil tarefa de transpor uma obra clássica para uma língua moderna, e quanto a esse quesito Ana Elias Pinheiro merece todos os elogios. Além disso, os parágrafos são numerados, o que é de utilidade para os classicistas. O diálogo como um todo, ademais, é de interesse para os intelectuais em geral, pois mostra-nos não apenas certo ideário próprio dos socráticos como também o caráter descontraído e franco da troca de idéias e do filosofar de Sócrates e seus amigos, o que também é muito enfatizado por Platão ao longo dos chamados diálogos socráticos.

Parabenizamos mais uma vez a idealização e consecução da Classica Digitalia pela Universidade de Coimbra, e fazemos votos para que cada vez mais pesquisadores, grupos de pesquisa e editoras universitárias disponibilizem gratuitamente na rede as suas reflexões, pesquisas e traduções, de modo amplificar e difundir cada vez mais a transmissão de idéias e os debates filosóficos.

Aldo Dinucci
Universidade Federal de Sergipe
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