A Fragilidade da Bondade
11 de Junho de 2009 ⋅ Ética

A reabilitação da sorte moral

Lucca Otoni
A Fragilidade da Bondade: Fortuna e Ética na Tragédia e na Filosofia Grega, de Martha Nussbaum
Tradução de Ana Aguiar Cotrim
São Paulo: WMF Martins Fontes, 2009, 486 pp.
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Este livro divide em dois tempos, antes e depois, as discussões em torno da vulnerabilidade humana. Os gregos buscavam uma vida boa que não dependesse tanto dos favores dos deuses e sim da auto-suficiência racional baseada na reflexão ética. O processo para alcançar esse objetivo correlaciona-se diretamente com a fortuna, týkhe, ou seja, aquelas circunstâncias nas quais o agente humano não está no comando da situação faltando-lhe, pois, o controle. Catástrofes, doenças, pequenas ou grandes desgraças, estão configuradas na falta de fortuna. A Fragilidade da Bondade nos traz uma profunda e substancial reflexão sobre a vulnerabilidade humana à fortuna. A questão central que nos é posta está em saber se a fortuna é responsável por sermos pessoas moralmente boas ou más. Para isso Nussbaum empreende uma análise de perspectivas expressas na poesia e na filosofia grega do século V a.C..

Os poetas, segundo Nussbaum, refletem uma visão profunda e densamente enraizada na cultura grega clássica no tocante à relevância da fortuna moral. Destacam-se aqui as tragédias. Em contraste, Platão, especialmente n'A República e n'O Banquete, elaborou uma teoria que nega, incisivamente, todo o papel de destaque aos efeitos morais da fortuna. No Fedro, nos diz Nussbaum, Platão começa a reformular suas idéias. Aristóteles, por sua vez, promove definitivamente a reabilitação da fortuna moral expondo a força de uma doutrina cujos elementos, fielmente, são o reflexo das opiniões da cultura grega tal e como, outrora, haviam feito os poetas.

Filosoficamente, a discussão sobre qual a melhor forma de conduta humana já passa de dois mil anos. Seria a conduta humana dirigida pela razão ou a guiada pela emoção? Há prevalência de uma sobre a outra ou equilíbrio entre ambas? A Fragilidade da Bondade sintetiza um dos lados da disputa identificada no pensamento ético grego que permeia a vulnerabilidade dos valores diante dos arroubos da fortuna. Em oposição a este lado está a auto-suficiência de razão, a aspiração de resguardar da fortuna a vida ética. Estabelece-se então um confronto entre Platão e Aristóteles. Nussbaum se posiciona clara e definidamente asseverando que os poetas e Aristóteles estavam corretos e Platão equivocado em não admitir que sem a fortuna a própria bondade humana é impossível. Posto assim, a história do confronto adquire um clima de disputa cuja tendência é a separação. De um lado estão personagens como Hemon, Tirésias e Aristóteles simpaticamente vistos como defensores da sensibilidade ao risco e aos potenciais conflitos da decisão moral. Em oposição temos Agamêmnon, Etéocles, Creonte e Platão tidos como avessos à complexidade, dedicados a eliminar a fortuna do universo moral. Sobre estes últimos podemos dizer que são kantianos avant la lettre.

As 486 páginas de A Fragilidade da Bondade, traduzida da última edição revista, se dividem em três partes que são subdivididas em treze capítulos, cada qual com cinco partes, e dois interlúdios. Cada capítulo é auto-suficiente, pelo que tanto se pode ler todo o volume como se pode ler diretamente os capítulos que mais nos interessem. Há, contudo, uma exceção: os capítulos da parte III, sobre Aristóteles, formam uma unidade.

O foco da obra começa a se ampliar a partir de um longo prefácio no qual Nussbaum, em doze páginas, faz uma reflexão quinze anos após a primeira edição e na qual sustenta seus argumentos. Numa espécie de balanço, Nussbaum examina o papel da vulnerabilidade humana à fortuna no pensamento ético dos poetas trágicos, de Platão e de Aristóteles. Em seguida, ancorada inicialmente num pensamento de Píndaro, que aponta para o problema que se situa no cerne do pensamento grego sobre a vida boa para um ser humano, discorre em nove páginas sobre fortuna e ética.

Algumas posições da autora são implausíveis. Por exemplo, a autora nos diz que Agamêmnon e Etéocles refletem o conflito indissolúvel entre os deveres militares e familiares, mas que Agamêmnon não deve ser reprovado especificamente pelo assassinato de Ifigênia, e sim pelo seu estado de espírito ao consenti-lo. Etéocles, por sua vez, não é condenado por cometer fratricídio, mas por não se aperceber da sua gravidade. É claro que tanto Sócrates quanto Platão desconfiam dos desejos não racionais. Mas teria essa desconfiança força suficiente para que a autora afirme que a hostilidade à ideia de fortuna moral e o anseio de resguardar a vida humana de todo tipo de acaso seriam os responsáveis pela recomendação platônica de nos entregarmos à razão? Isso é dito expressamente nos textos platônicos? A fortuna moral teria papel tão central nos diálogos? Seria ela um fator crucial na motivação da teoria platônica do Bem? Na avidez de mostrar a relevância da tragédia grega enquanto fonte de reflexão acerca da fragilidade dos valores éticos, Nussbaum assevera que a Hécuba de Eurípides representa a essência da virtude humana, cujo caráter é vitimado, abalado, pelos eventos terríveis com que se lhe apresentam. Outrossim, é plausível, e justo, dizer que a fraqueza de caráter da mulher representada não teria vindo à tona não fosse pela ocorrência desses eventos terríveis.

É importante esclarecer que, em seu conteúdo, o título A Fragilidade da Bondade encerra duas palavras que merecem ser definidas no contexto. Bondade corresponde à eudemonia, ou seja, o bem humano e não à bondade de caráter. Fortuna, por sua vez, é usada no sentido de týkhe, que os gregos usavam para designar aqueles eventos sobre os quais os humanos não tinham controlo — o que não implica, contudo, aleatoriedade ou determinismo. Sublinhe-se que este é um livro sobre a desgraça e sobre as maneiras pelas quais o pensamento ético chega a um acordo com a desgraça. O propósito é estabelecer uma conexão entre textos poéticos e filosóficos da Grécia antiga, de modo que possam refletir-se em questões atuais da teoria moral, além, é claro, de suscitar respostas para problemas éticos ao leitor do século XXI. Ao aproximar literatura e filosofia, Nussbaum busca tratá-las como congruentes em termos de estilo, método e tema.

Um dos temas centrais da obra é o papel que as emoções têm como forma de esclarecimento de questões éticas. A autora aborda com frequência a questão cognitiva das emoções tanto com relação aos poetas quanto a Platão e Aristóteles. Com Platão, Nussbaum analisa o Protágoras, Fedro, A República e O Banquete. Outro ponto central que a autora desenvolve está em Aristóteles: a insistência dele em afirmar que os seres humanos são tão vulneráveis quanto ativos, detendo uma pluralidade rica e irredutível de atuações, bem como a ênfase no papel do amor e da amizade na vida boa.

Ao relacionar as obras filosóficas com as tragédias, Nussbaum evidencia a importância do risco e a relação entre as coisas valiosas e as emoções, apresentando-os como elementos constitutivos de uma vida boa e sublinhando a dependência do agente de causalidades que fogem ao seu controlo. Essa aproximação propicia um enriquecimento de nossa compreensão da vulnerabilidade dos valores humanos em relação ao acaso e, a partir desse aprendizado, nos incita à tentativa de fazer surgir uma possibilidade de eliminação da influência do acaso na vida humana. Nussbaum nos apresenta interessantes reflexões sobre as emoções conceituando-as não como forças irracionais, mas como respostas inteligentes à percepção de valor e importância de objetos, fatos ou pessoas. Assim, sua proposta é um exame da aspiração à auto-suficiência racional no pensamento ético grego que tem por fim, utilizando o poder controlador da razão, tornar uma vida boa humana imune à fortuna. Para isso Nussbaum analisa algumas obras dos três grandes poetas trágicos (Ésquilo, Sófocles e Eurípedes), e de dois grandes filósofos (Platão e Aristóteles).

Nussbaum procura também mostrar como a abordagem kantiana dos problemas da fortuna nos impediu de entender melhor os textos gregos. O estudo sobre Platão revela, a partir do Protágoras, uma similitude entre a racionalidade prática e a preocupação dos trágicos na intenção de derrotar a fortuna. Partindo dos diálogos do período intermediário (Fédon, A República e O Banquete) a autora expõe o desenvolvimento das ideias platônicas em direção às estratégias adotadas para a eliminação da incomensurabilidade e do conflito entre os valores.

O amor é um foco que se destaca na estrutura da obra. É analisado como meio de resposta à beleza da fragilidade humana e, na sequência, discute-se, igualmente, como o Fedro questiona e modifica a concepção prévia de valor platônico especificamente em relação à bondade humana.

Aristóteles entra em cena com a discussão de seu método filosófico. Movimento e ação voluntários buscam estabelecer que relação nossos movimentos devem ter com os acontecimentos do mundo para que as atitudes éticas sejam apropriadamente direcionadas a eles. Trata-se igualmente da racionalidade prática aristotélica, da fragilidade das componentes individuais da melhor vida humana e das vulnerabilidades a que está exposta. Nussbaum analisa a importância do papel da tragédia e das emoções trágicas no aprendizado humano.

Índice

Prefácio à edição revista
Prefácio
Agradecimentos
Abreviaturas

Capítulo 1: Sorte e ética

Parte I — Tragédia: fragilidade e ambição

Capítulo 2: Ésquilo e conflito prático

Capítulo 3: A Antígona de Sófocles: conflito, visão e simplificação

Conclusão da Parte I

Parte II — Platão: bondade sem fragilidade?

Capítulo 4: O Protágoras: uma ciência da razão prática

Interlúdio 1: O teatro antitrágico de Platão

Capítulo 5: A República: verdadeiro valor e o ponto de vista da perfeição

Capítulo 6: O discurso de Alcibíades: uma leitura do Banquete

Capítulo 7: "A história não é verdadeira": loucura, razão e retratação no Fedro

Parte III: Aristóteles: a fragilidade da vida boa humana

Capítulo 8: Salvando as aparências de Aristóteles

Capítulo 9: Animais racionais e a explicação da ação

Capítulo 10: Deliberação não científica

Capítulo 11: A vulnerabilidade da vida boa humana: atividade e desastre

Capítulo 12: A vulnerabilidade da vida boa humana: bens relacionais

Apêndice à Parte III — Humano e divino

Interlúdio 2: Sorte e as emoções trágicas

Epílogo: Tragédia

Capítulo 13: A traição da convenção: uma leitura da Hécuba de Eurípides

Notas
Bibliografia
Índice geral
Índice de passagens

Martha Nussbaum

Sobre a autora

Martha Craven Nussbaum nasceu em 6 de Maio de 1947 nos Estados Unidos onde é professora de Direito e Ética da Universidade de Chicago. É a titular da cátedra Ernst Freund Distinguished Service Professor of Law and Ethics e uma das maiores referências contemporâneas em sua área. Sendo uma das mais conhecidas personalidades americanas, Nussbaum lecionou como professora titular em Harvard e Brown. Em 2007, na Primavera, foi professora visitante da Harvard Law School. Relacionando-se com as mais prestigiadas universidades de todo o mundo e organizações de investigação internacionais, suas áreas principais de atuação são a filosofia do direito, a ética e a estética. As revistas Foreign Policy e Prospect em seu número 4, Junho/Julho de 2008, apontam Nussbaum como uma das cem mais importantes intelectuais do mundo. As conferências que dá em diversos países são extremamente concorridas e dentre a sua vasta produção destacamos, além de A Fragilidade da Bondade, o premiado Cultivating Humanity (1998) e também, Aristotle's De Motu Animalium (1978). Outros livros incluem Love's Knowledge (1990), Essays on Aristotle's De Anima (1992), The Quality of Life (1993), The Therapy of Desire (1994), Poetic Justice (1996), For Love of Country (1996), Sex and Social Justice (1998) Plato's Republic: The Good Society and The Deformation of Desire (1998), Women and Human Development: The Capabilities Approach (2000), Upheavals of Thought: The Intelligence of Emotions (2001), Hiding From Humanity: Disgust, Shame, and the Law (2004), Animal Rights: Current Debates and New Directions (2004), Frontiers of Justice: Disability, Nationality, Species Membership (2006), The Clash Within: Democracy, Religious Violence, and India's Future (2007).

Lucca Otoni
luccaotoni@gmail.com
Universidade Federal de Ouro Preto
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