Criação do Mar, de Victor Cauduro Rojas
Guia das falácias

Falácias causais

Stephen Downes
Universidade de Alberta

Os argumentos causais são os argumentos onde se conclui que uma coisa ou acontecimento causa outra. São muito comuns mas, como a relação entre causa e efeito é complexa, é fácil cometer erros. Em regra, diz-se que C é a causa do efeito E se e só se:

  1. Geralmente, quando C ocorre, também E ocorre; e
  2. Geralmente, se C não ocorre, então E também não ocorre.

Diz-se "geralmente" porque há sempre excepções. Diz-se, por exemplo, que riscar o fósforo é a causa da chama porque:

  1. Geralmente, quando riscamos o fósforo ele acende (excepto quando riscamos o fósforo dentro de água...); e
  2. Geralmente, quando o fósforo não é riscado, ele não acende (excepto quando o acendemos com um maçarico...).

Muitos especialistas requerem também que uma afirmação causal seja apoiada por uma lei da natureza. Por exemplo, a afirmação "riscar o fósforo é a causa da chama" é justificado pelo princípio "a fricção produz calor, e o calor produz o fogo".

Depois disso, por causa disso (post hoc ergo propter hoc)

O nome em Latim significa: "depois disso, logo, por causa disso". Isto descreve a falácia. Um autor comete a falácia quando pressupõe que, por uma coisa se seguir a outra, então aquela teve de ser causada por esta.

Exemplos:

  1. A imigração do Alentejo para Lisboa aumentou mal a prosperidade aumentou. Portanto, o incremento da imigração foi causado pelo incremento da properidade.
  2. Tomei o EZ-Mata-Gripe e dois dias depois a minha constipação desapareceu...

Prova: Mostre que a correlação é coincidência, mostrando: 1) que o "efeito" teria ocorrido mesmo sem a alegada causa ocorrer, ou que 2) o efeito teve uma causa diferente da que foi indicada.

Efeito conjunto

Sustenta-se que uma coisa causa outra mas, de facto, são ambas o efeito de uma mesma causa subjacente. Esta falácia é muitas vezes apresentada como um caso especial de falácia post hoc ergo propter hoc.

Exemplos:

  1. Estamos a viver uma fase de elevado desemprego que é provocado por um baixo consumo. (De facto, ambos podem ser causados por taxas de juro muito elevadas.)
  2. Estás com febre e isso está a fazer com que te enchas de borbulhas. (De facto, ambos os sintomas são causados pelo sarampo.)

Prova: Identifique os dois efeitos e mostre que ambos são provocados pela mesma causa subjacente. É preciso indicar a causa oculta e provar que ela causa cada efeito.

Referências: Cedarblom e Paulsen: 238.

Causa genuína mas insignificante

O objecto ou evento identificado como a causa de um efeito, é uma causa genuína — mas insignificante quando comparada com outras causas desse evento. Note-se que não se trata desta falácia quando todas as outras
causas são igualmente insignificantes. Não é falacioso dizer que a sua ajuda causou a derrota do partido do governo, porque o seu voto tem o mesmo peso de qualquer outro voto e, portanto, é igualmente parte da causa.

Exemplos:

  1. Fumar causa a poluição do ar em Edmonton. (É verdade mas o efeito do fumo do tabaco é insignificante comparado com o efeito poluente dos automóveis.)
  2. Deixando a tua fornalha acesa durante a noite contribuis para o aquecimento global do planeta.

Prova: Identifique uma causa mais significativa.

Referências: Cedarblom e Paulsen: 238.

Tomar o efeito pela causa

A relação entre causa e efeito é invertida.

Exemplos:

  1. O cancro faz fumar.
  2. A propagação da SIDA foi provocada pela educação sexual. (De facto, o desenvolvimento da educação sexual foi provocado pela propagação da SIDA.)

Prova: Exponha um argumento causal, mostrando que a relação entre causa e efeito foi, de facto, invertida.

Referências: Cedarblom e Paulsen: 238.

Causa complexa

O efeito é provocado por um certo número de objectos ou eventos, dos quais a causa identificada é apenas um parte. Uma variante disto são os ciclos de feedback onde o efeito é ele mesmo parte da causa.

Exemplos:

  1. O acidente não teria ocorrido se não fosse a má localização do arbusto. (Certo, mas o acidente não teria ocorrido se o condutor não estivesse bêbado, e se o peão tivesse prestado atenção ao trânsito.)
  2. A explosão do Challenger foi causada pelo tempo frio. (Verdadeiro, mas não teria ocorrido se os anéis em o tivessem sido bem construídos.)
  3. As pessoas estão com medo por causa do incremento do crime. (Certo, mas as pessoas têm sido levadas a violar a lei em consequência do seu medo. O que ainda aumenta mais o crime.)

Prova: Mostre que todas as causas e não apenas aquela que foi mencionada são precisas para explicar o efeito.

Referências: Cedarblom e Paulsen: 238.

Stephen Downes

Tradução e adaptação de Júlio Sameiro