Causalidade e Direção do Tempo: Hume e o Debate Contemporâneo
9 de Março de 2009 ⋅ Filosofia da ciência

Causas e a direção do tempo

Túlio Aguiar
Universidade Federal de Minas Gerais

Gostaria, antes de tudo, de registrar a motivação inicial deste trabalho. As primeiras idéias para compor este trabalho começaram a surgir a partir da leitura de alguns textos especiais em 1999. Estes trabalhos tinham em comum o fato de serem críticos com relação a uma forte tradição epistemológica que visa analisar as noções de causa, explicação e confirmação através de correlações e acarretamentos. As críticas são, via de regra, dirigidas à análise humiana da causação, às concepções hempelianas de explicação e confirmação e a todos aqueles que pretendem reduzir tais noções às relações lógicas entre leis e suas instâncias. Merecem especial destaque o artigo de Richard Boyd "Observations, Explanatory Power, and Simplicity: Toward a Non-Humean Account" (1985) e o livro de Richard Miller "Fact and Method" (1987). Embora fazendo agudas críticas à tradição humiana, ambos os autores são céticos sobre a possibilidade de se produzir uma análise filosófica das noções causais. Para Boyd, ainda que uma análise conceitual seja entendida como uma espécie de empreendimento empírico, sujeita à revisão a partir das descobertas das ciências particulares, não se deve esperar que a filosofia possa produzir alguma análise muito informativa para as noções causais1. Miller segue em linhas análogas a Boyd. Para ele, muitos dos conceitos filosoficamente importantes, como o de número ou obra de arte, estão longe de poderem receber condições necessárias e suficientes para a sua aplicação. Para Miller, ocorre que somos capazes, em cada caso, de reconhecer variedades elementares de número ou de obra de arte, formando o núcleo do conceito, e, posteriormente, estendemos a nossa lista permitindo novas variedades que mantêm certas relações com as variedades elementares. Assim, o antigo propósito de medir e calcular permitiu, por exemplo, a introdução de números do tipo de para calcular perímetros e áreas nos casos em que as antigas variedades de números mostraram-se insuficientes (MILLER (1987): 75). O mesmo ocorreria com o conceito de causa. Nós podemos reconhecer variedades elementares de causação, como empurrar, puxar e bater; reconhecemos, também que um tom de voz pode produzir certos sentimentos e que certos sentimentos causam certos comportamentos. Com as motivações apropriadas nós podemos vir a aceitar muitos outros tipos de causas2.

Concordamos com Boyd e Miller em que muito se pode aprender acerca da causação quando atentamos para as ciências particulares e que a busca por generalidade, neste e em caso similares, sempre corre o risco de ser excessiva. Miller fala mesmo de um culto da generalidade (worship of generality) como sendo uma tendência positivista, em sentido lato, que domina a filosofia pelo menos desde Kant (MILLER (1987): 3). Não é claro, porém, qual o nível de generalidade que podemos ambicionar legitimamente em relação à análise de cada noção causal. O nosso trabalho se insere exatamente nesta lacuna, pois tentamos mostrar que uma análise bastante geral e informativa de certas questões, envolvendo a causação, pode ainda ser feita. Mostramos isto através de uma investigação acerca da assimetria causal ou direção da causação. Deve ficar claro que embora mantenhamos a ênfase crítica de Boyd e Miller em relação à tradição humiana, nós, contrariamente a eles, acreditamos que um grande avanço pode ser e foi feito no esclarecimento de certas feições da causação que independe do avanço das ciências particulares. Acreditamos ainda que a investigação acerca da direção da causação revela com profundidade os problemas da tradição humiana. Assim, é possível ir bem além das críticas de Boyd e Miller à tradição humiana, apresentando um diagnóstico bastante preciso de suas insuficiências. Sobre isto, vale salientar que ambos os autores dão pequena importância aos contra-exemplos clássicos ao modelo dedutivo-nomológico de Hempel, tais como o da sombra do mastro, do pêndulo e do barômetro, enfatizando que o mais importante é compreender as limitações filosóficas da tradição humiana. Acontece que, como pretendemos mostrar, uma análise judiciosa dos contra-exemplos permite fazer exatamente isto. Como Boyd e Miller não acreditam em uma análise filosófica e geral, ainda que parcial, da noção de causação, a única coisa que podem dizer das assimetrias explanatórias é que devemos resgatar o vocabulário causal para compreendê-las. Como já dissemos, pensamos que o estudo da causação pode ir além com instrumental tipicamente filosófico e os contra-exemplos podem revelar mais do que a simples necessidade de se reintroduzir o vocabulário causal. Ainda podemos, como filósofos, aprender muito sobre a causação. Assim, embora os trabalhos de Boyd e Miller tenham servido de motivação inicial para o nosso trabalho - ao insistir na insuficiência da análise humiana da causação e do modelo nomológico-dedutivo a ela associada - avançamos por um caminho diferente na tentativa de produzir uma análise da causação filosoficamente mais informativa.

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A questão central a ser examinada, em nosso trabalho, é o aspecto assimétrico ou direcional da causação. Outra maneira de colocar a questão é perguntar pela diferença entre a causa e o seu efeito. Tendo isso em vista, deve ficar claro que o ônus explanatório desse trabalho é explicar o que é ser uma causa e não um efeito. Esta questão deve ser distinguida de outra, a saber, o que é ser uma causa e não uma não-causa. A diferença é análoga àquela entre ser empregado e não um empregador e entre ser um empregado e não um não-empregado. Um não-empregado pode ser um empregador, um desempregado ou coisas não suscetíveis de entrarem na relação empregatícia. Esta relação impõe certas funções a cada um de seus pólos, que esperamos poder descrever. A diferença entre um empregado e um desempregado é que o primeiro e não o último pertence à relação empregatícia. O desempregado pode, contudo, vir a tornar-se empregado, desempenhando as funções exigidas pela relação empregatícia. Também um empregador pode ser ou vir a ser um empregado de um outro empregador. Existem certas coisas, como paus e pedras, que pensamos não poderem entrar no tipo de relação que estamos discutindo. A própria natureza desta relação determina o que pode ou não pertencer a ela. O que foi dito acima ajuda a esclarecer o que temos em mente com relação à causação. Pretendemos investigar, dentro da relação causal, a função própria da causa e do efeito. Como veremos, pode-se avançar neste empreendimento, sem preocupações excessivas com que tipo de coisa pode ser uma causa ou um efeito. Feitos esses esclarecimentos preliminares, vejamos a divisão de nosso trabalho.

Como já dissemos, a motivação inicial de nosso trabalho foi produzir um exame crítico da chamada tradição humiana acerca da causação e noções conexas. Tal tradição, examinada em nosso primeiro capítulo, parte da primeira definição humiana de causa como uma sucessão regular3.

Depurando Hume completamente de seu aparato psicológico, a tradição humiana investe em uma formulação lógica da primeira definição. Isto se faz construindo um argumento dedutivo em que as premissas contêm uma regularidade ou lei, expressa por um condicional, juntamente com algo que instancie o seu antecedente e o seu conseqüente. Inicialmente, mantém-se que aquilo que instancia o antecedente do condicional é causa daquilo que instancia o seu conseqüente, desde que respeitadas as estipulações temporais e espaciais da primeira definição. Como a localização no espaço e no tempo é uma característica de indivíduos concretos e não se acomoda facilmente dentro da estrutura de um argumento dedutivo, a tendência da tradição humiana foi dissolver a noção de causação. Isto significa não tanto confundir o conceito de causação com o de argumento nomicamente baseado, mas em pensar que este pode cumprir todas as funções daquele. Tal é, precisamente, o nosso ponto de contenção. Um argumento nomicamente baseado não pode, sem mais, desempenhar as mesmas funções da causação.

O ponto crítico consiste em questionar se a teoria humiana e a tradição humiana de um modo geral possuem recursos para explicar a assimetria causal e explanatória. Para tanto, no segundo capítulo, investigamos o modelo dedutivo-nomológico de Hempel que se insere francamente dentro da tradição humiana. De fato, Hempel constrói as explicações como argumentos dedutivos nomicamente baseados. A causação passa a ser um caso especial destes quando o evento no explanans é anterior no tempo ao evento no explanandum. As diferenças temporais, entretanto, não criam diferenças explanatórias. Além disso, nenhuma diferença entre a causa e o seu efeito, temporal ou não, cria uma diferença explanatória. Nós não consideramos esta posição satisfatória. Focalizando exemplos, como o do mastro e sua sombra, argüimos que as intuições fortes e bem definidas que temos a respeito demandam uma teoria que explique a assimetria causal e explanatória. Em seguida, examinamos a teoria de Mackie das condições INUS - uma condição que é parte necessária mas insuficiente de uma condição suficiente mas não-necessária para um certo resultado P. A teoria de Mackie, à medida que trata das condições INUS, representa um refinamento da análise regularista da causação, típica da tradição humiana. Será que tal desenvolvimento nos dá recursos para tratar o problema da assimetria causal? Finalizamos o capítulo, avaliando uma aplicação da teoria de Mackie, feita por Papineau no contexto da relação probabilística conhecida como compartimentalização (screening-off), na tentativa de explicar a assimetria causal.

No terceiro capítulo, examinamos as principais teorias da causação no período contemporâneo, avaliando a sua aptidão para solucionar o problema da assimetria causal. Selecionamos aquelas teorias que tentam explicar a causação através de uma única noção fundamental, denominando-as teorias puras. Tais noções são, basicamente, as seguintes: transferência física, agência, dependência contrafactual e dependência probabilística. Estudando estas teorias, encontramos vários elementos que ajudam a aprofundar e aumentar nossa compreensão sobre assimetria causal (ou, como muitas vezes denominamos, a direção da causação).

Finalmente, no quarto capítulo, após algumas considerações adicionais acerca da aptidão das teorias puras para lidar com as assimetrias causais e explanatórias, nós introduzimos o que chamamos de abordagem situacional. A idéia é que aquilo que constitui a função dos eventos dentro do par causal é determinado pela situação deste na rede causal. Simplificando e adotando a linguagem das condições, temos o seguinte. As condições necessárias, que juntamente são suficientes para um evento, nas circunstâncias, quando não são uma causa da outra e nem tem uma causa comum, são as causas de tal evento. São fatores independentes que merecem o nome de fatores causais. Defendemos a abordagem situacional como a melhor opção no que tange a explicação da assimetria causal e explanatória. O nosso trabalho apresenta, também, o esboço de uma reconstrução histórica que mostra o caminho que leva à abordagem situacional. Durante este percurso, focalizamos a atenção em uma variada gama de problemas que esperamos serem fecundos para a filosofia contemporânea da causação.

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O problema da direção da causação e os problemas direcionais de uma maneira geral são em tudo surpreendentes. A primeira coisa a surpreender é que haja um problema real na questão da direção da causação. Um leigo ou mesmo um filósofo que comece a estudar o tema sentirá, provavelmente, grande perplexidade ao ver colocada a questão sobre o que diferencia a causa de seu efeito. Pode parecer, simplesmente, que não há nada a responder ou que a resposta é trivial. Todo filósofo sabe, entretanto, que envolve um grande talento filosófico o perceber um problema genuíno em questões aparentemente inocentes. Foi o que Hume fez quanto àquilo que hoje é o problema da causação. Foi o que Reichenbach fez quanto àquilo que constitui o problema da direção da causação. Uma vez reconhecido o caráter problemático do aspecto direcional da causação, surpreende, também, o número de implicações importantes que possui e o quanto podemos aprender sobre a causação e conceitos relacionados. Esperamos que o leitor que nos acompanhou até aqui tenha percebido a fecundidade do problema.

O fato de que o problema da direção da causação tenha passado relativamente despercebido, no hiato que vai de Hume a Reichenbach, deve-se, pelo menos em parte, à comodidade e à aparente inocência que as relações temporais oferecem na elaboração de uma teoria da causação. Na verdade, nenhum autor duvidou que a extensão da relação de prioridade causal esteja contida, pelo menos em sua maior parte, na extensão da relação de prioridade temporal. Ou seja, na vasta maioria dos casos, a causa precede o seu efeito. Seja como for, já apontamos vários problemas quanto à adequação da utilização de relações temporais para explicar a direção da causação. Gostaríamos de enfatizar mais uma vez que o problema mais grave para nós é que as relações temporais não conseguem iluminar adequadamente certas assimetrias encontradas em explicações que podemos, plausivelmente, considerar como explicações causais. Consideramos a teoria humiana excessivamente permissiva e vemos os exemplos do mastro e do pêndulo como sendo, realmente, contra-exemplos típicos à concepção nomológico-dedutiva da explicação, nela baseada. Isto nos leva acreditar que os problemas para o modelo N-D tem suas raízes na concepção humiana de causação. Aumentamos a força de nosso argumento, buscando a ligação entre a assimetria da causação e a assimetria da explicação. Encontramos tal ligação na abordagem situacional de Hausman.

A abordagem situacional, contudo, tem seu preço. Como era de se esperar, ao se afastar da perspectiva minimalista neo-humiana, novas frentes problemáticas são abertas. Diversas noções, como as de rede causal, conexão causal, independência causal, sistema causal, dentre outras, são introduzidas sem quaisquer dos benefícios das perspectivas reducionistas. Estas noções trazem consigo suas próprias perplexidades. Isto leva, inevitavelmente, a uma certa relativização das teorias filosóficas a determinados campos problemáticos e também a certas considerações sobre a economia da teorização. A perspectiva neo-humiana leva às dificuldades relativas ao problema da assimetria explanatória. Podemos considerar estas dificuldades como intoleráveis e, fazendo um modus tollens, rejeitar a teoria neo-humiana. Entretanto, sempre permanecerá em aberto a via oposta de se preferir a teoria neo-humiana e, fazendo um modus ponens, aceitar aquilo que dela se segue. Pode-se considerar, por exemplo, a teoria neo-humiana como a mais simples e livre de noções suspeitas, encarando as suas incongruências com as nossas concepções ordinárias como um pequeno preço a ser pago. A história do problema da causação parece indicar que a possibilidade dessa oscilação é inerradicável.

Acreditamos, entretanto, que a discussão em torno do problema da direção da causação configura um amplo programa filosófico de caráter progressivo, exibindo um grande potencial para melhorar a nossa compreensão das várias assimetrias em nosso mundo, tais como a da explicação, a do tempo, a da agência e a da entropia. A teoria humiana, por outro lado, procura lidar principalmente com um problema diferente, o da ligação entre a causa e o efeito. Parece-nos que a discussão sobre o caráter do nexo causal é comparativamente menos bem sucedida, como o debate contemporâneo parece atestar. Esperamos que nosso trabalho tenha contribuído para confirmar esta suspeita. A tradição humiana, que oscila entre resolver o problema da direção da causação através de estipulações temporais ou dissolvê-lo, encobre ou desconsidera um problema que motiva um importante programa filosófico. Isto justifica a escolha do problema de nosso trabalho e do melhor tipo de teoria para compreendê-lo.

Túlio Aguiar

Notas

  1. Boyd diz: " Acerca das noções causais menos derivadas tais como " causa total", "poder causal", "interação", "mecanismo" e "possibilidade", parece menos provável que análises informativas da espécie que os filósofos tipicamente procuram estejam disponíveis (...). Definições informativas ou análises nestes casos, eu afirmo, não são primariamente uma questão de análise conceitual, mesmo quando esta é compreendida como uma espécie de empreendimento empírico. Em vez disso, análises ou definições informativas das noções causais mais básicas devem ser estabelecidas por investigações teóricas das varias ciências e das ciências sociais. O que causação é e o que interação causal significa são questões teóricas acerca dos fenômenos naturais (...), não sendo surpreendente que as respostas a elas deveriam depender mais das descobertas empíricas das várias ciências do que as respostas para as questões mais abstratas (e tipicamente mais filosóficas) acerca da natureza do conhecimento, referência, ou explicação" (BOYD (1985): 368).
  2. Sobre o que incluir ou não no conceito de causa, Miller diz: " tais disputas são frequentes na história da ciência e concernem aos mais diversos candidatos ao status causal, por exemplo, enteléquias, processos e estruturas inconscientes, ação à distância, campos eletromagnéticos e momento tratado como um fator físico envolvido em pontos de equilíbrio e trajetórias " (MILLER (1987): 81).
  3. "Um objeto precedente e contíguo a outro, tal que todos os objetos semelhantes ao primeiro são colocados em uma relação semelhante de prioridade e contigüidade com os objetos semelhantes ao último" (T. 172).
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