Dark Tree, de Zachstern
16 de Maio de 2008 ⋅ Opinião

Ortografia e centralismo

Desidério Murcho
Universidade Federal de Ouro Preto

Há três aspectos quanto ao famigerado Acordo Ortográfico que importa distinguir.

O primeiro é que um acordo ortográfico feito num país é inteiramente distinto de um acordo ortográfico que visa unificar as ortografias de diferentes países. Há três razões contra a pretensa unificação ortográfica da língua portuguesa: primeiro, não há harmonia ortográfica nos países de língua inglesa, francesa ou espanhola; segundo, o acordo não unifica as ortografias, pois os portugueses continuariam a escrever "facto" e "género", e os brasileiros "fato" e "gênero"; terceiro, mesmo que unificasse a ortografia, o acordo não unificaria o léxico, a sintaxe ou a semântica: no Brasil os autocarros chamam-se "ônibus" e os comboios "trens", e muitas mais variações semânticas existirão, e ainda bem, no português cabo-verdiano, angolano, etc. Em conclusão, o acordo pretende-se unificador, mas nada unifica.

O segundo aspecto é o mais importante: legislar sobre a ortografia é uma mania centralista inaceitável. A ortografia deve ser abertamente coordenada por todos os que a usam, como acontece com o léxico, a fonética, a gramática, a sintaxe e a semântica, e não por algumas pessoas que se outorgam o direito legislar sobre ela. Onde não é preciso legislação deve-se fazer silêncio legislativo. Os angolanos sabem decidir como querem escrever as suas palavras, que são também nossas, assim como os brasileiros ou os portugueses, sem qualquer necessidade de legislação.

O terceiro aspecto é saber se vale a pena uma reforma ortográfica em Portugal, independentemente de ser unificadora ou não. Este aspecto depende do segundo. Há a tendência antidemocrática para pensar que reformar a ortografia equivale a legislar sobre a ortografia. Isto é falso. Introduziram-se muitas palavras recentemente no léxico português sem qualquer necessidade de legislação, como "lóbi", "dossiê" ou "robô". Se a ortografia precisar de reforma, esta surgirá naturalmente nos dicionários, livros, gramáticas e jornais. Se não precisámos da força da lei para passar a escrever "dossiê" em vez de dossier, também não precisamos dela para passar a escrever "ótimo" em vez de "óptimo".

Felizmente, não é hoje possível mudar artificialmente a ortografia. Esse género de idiotice era possível quando só dez por cento da população sabia ler, e ainda menos escrevia regularmente, quando havia apenas cinco jornais, cuidadosamente vigiados pelo estado, quando não havia Internet e quando se publicava por ano o mesmo número de livros que se publica hoje num mês. O acordo foi ratificado pelo Brasil, mas ninguém o usa nem vai usar. Tal como a última reforma ortográfica alemã caiu em saco roto, também qualquer reforma ortográfica portuguesa será pura e simplesmente ignorada pela maior parte das pessoas que publicam livros, artigos, romances, contos, poemas e ideias na Internet, nos jornais, nos livros académicos, escolares ou populares. O mundo, felizmente, está mais democrático do que era há cinquenta anos e cada vez mais pessoas usam a língua livremente.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Publicado no jornal Público (22 de Abril de 2008)
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