Defending Science Within Reason
13 de Novembro de 2004 ⋅ Filosofia da ciência

Compreender a ciência

Desidério Murcho
Defending Science — Within Reason: Between Scientism and Cynicism,de Susan Haack
Prometheus Books, 2003, 411 pp.
Comprar

Haverá algo de comum à física, biologia e química, que a distinga da matemática, da história ou da filosofia? O partidário do cientismo declara que há algo de especial, sendo estas ciências as únicas verdadeiramente "científicas" — o resto é colecção de selos. Os pós-modernistas concordam, mas acham que o que realmente importa são as colecções de selos — ou seja, a ciência comprometida socialmente, a ciência como ideologia, a ciência como distorção dos factos para melhor servir ideais políticos. Entre os dois extremos, levantam-se vozes de sensatez, que defendem a racionalidade da ciência, mas uma versão alargada da racionalidade. É o caso de Susan Haack, uma das mais prestigiadas filósofas da lógica e epistemólogas contemporâneas. Este livro mereceu já os elogios de Jacques Barzun (autor de Da Alvorada à Decadência, Gradiva) e de Gerald Holton (autor de A Cultura Científica e os seus Inimigos, Gradiva), declarando-se Steven Weinberg, tantas vezes também ele muito próximo do cientismo serôdio, um leitor fiel de Haack.

Em doze capítulos escritos com imensa verve e acessíveis mesmo a quem desconhece a bibliografia técnica de filosofia da ciência, Haack apresenta as suas ideias sobre a natureza da ciência. Numa palavra, a autora defende que o que caracteriza as ciências como a física ou a biologia é a aposta decidida na racionalidade, deitando-se mão de tudo o que nos possa ajudar a descobrir a verdade das coisas. Assim, no caso da física ou da biologia, recorre-se à experimentação, mas o mesmo não se faz em muitas áreas da cosmologia e certamente que não se faz tal coisa em lógica ou matemática — que não são menos científicas por isso. Há assim algo que distingue todas as práticas académicas sérias dos falsos estudos, que não procuram a verdade das coisas, mas antes a distorção das coisas para baterem certo com os seus preconceitos ideológicos preferidos.

O principal responsável pela perspectiva errada das ciências que é partilhada pelo cientismo e pelo cinismo é o positivismo lógico. Deste ponto de vista, a ciência faz-se segundo o modelo da máquina de salsichas: há um motor de raciocínio lógico, e há um canal de entrada e um canal de saída. No canal de entrada metem-se as observações e do outro lado saem as teorias científicas. Como este modelo nunca pôde ser desenvolvido cabalmente, como os positivistas desejavam, o positivismo deu origem ao cinismo, que declara estar a física ao nível da bruxaria. Em ambos os casos, estamos perante o que se poderia chamar provincianismo cognitivo: uma visão simplista da racionalidade e da ciência. Sintoma de provincianismo cognitivo está ainda presente em quem declara que é na aplicação tecnológica que está a diferença da física, pois como é evidente a tecnologia já existia muito antes de existir física, e sempre funcionou suficientemente bem para que os seres humanos não se tivessem extinguido. É por isso que mandar os cínicos atirar-se da janela para lhes provar que a gravidade é real revela uma enorme incompreensão.

Discutindo com humor e inteligência os mal-entendidos dos críticos acríticos e dos apoiantes cegos da ciência — e sem ataques pessoais — Haack oferece uma visão enriquecida da ciência, da sua racionalidade e objectividade. Poderá não agradar a gregos nem a troianos, mas esse é o preço a pagar pela imparcialidade... científica.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Originalmente publicado no jornal Público (1 de Maio de 2004)
Termos de utilização ⋅ Não reproduza sem citar a fonte