Philosophy of Science
31 de Outubro de 2005 ⋅ Filosofia da ciência

A científica mente

Desidério Murcho
Philosophy of Science: The Central Issues, org. por Martin Curd & J. A. Cover
Londres e Nova Iorque: W. W. Norton, 1998, 1379 pp.
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A filosofia das ciências aborda problemas epistemológicos, metafísicos, lógicos e metodológicos levantados pelas ciências da natureza e pelas ciências sociais. Esta antologia é dedicada unicamente às ciências da natureza e é a melhor obra do género — não apenas pela selecção criteriosa de ensaios, mas também pelas introduções esclarecedoras e pelos comentários substanciais dos organizadores. Deste modo, quem está interessado nos problemas filosóficos suscitados pelas ciências da natureza encontra aqui os materiais ideais para dar os primeiros passos nesta área.

Para quem pensa que Kuhn e Popper são as palavras finais e sagradas em filosofia da ciência, esta obra é particularmente informativa pois inclui algumas das críticas centrais às ideias destes dois filósofos. Popper defendeu que seria a falsificação a marcar a diferença entre ciência e pseudociência. Por falsificação entende este filósofo a possibilidade de uma teoria ser refutada pela experiência empírica. O que distinguiria a psicanálise da ciência, por exemplo, seria o facto de na primeira nenhum facto empírico poder refutar qualquer afirmação dos seus praticantes, ao contrário do que acontece no caso das verdadeiras ciências empíricas. Lakatos, todavia, discorda deste critério; e é fácil de ver que a astrologia, sendo igualmente uma pseudociência, é todavia perfeitamente susceptível de refutação empírica — acontece apenas que os seus praticantes olham para o lado quando estão perante refutações óbvias.

Também a noção de paradigma de Kuhn, encarada como sacrossanta nas zonas mais débeis da cultura académica, é criticamente avaliada e rejeitada em alguns dos ensaios desta antologia. A raiz do relativismo cognitivo de Kuhn, e a razão pela qual pretendeu reduzir a filosofia da ciência à sociologia da ciência, é o seu positivismo, que o impede de compreender que um debate pode ser racional ainda que não seja estritamente dedutivo, matemático ou experimentalmente mecânico.

A noção de lei da natureza é criticamente avaliada na sétima parte desta antologia, confrontando-se as teorias regularistas com as necessitaristas. Ambas aceitam que as leis da natureza descrevem o mundo tal como é, mas Nancy Cartwright é famosa por se opor a esta ideia, argumentando que as leis da natureza nem sequer aproximadamente são verdadeiras. Esta filósofa defende que os cientistas querem fazer duas coisas diferentes e irreconciliáveis com as leis da natureza: descrever com exactidão e explicar a natureza.

A obra está dividida em nove partes, dedicadas aos seguintes problemas: a demarcação entre ciência e pseudociência; racionalidade, objectividade e valores na ciência; a tese de Duhem-Quine da subdeterminação das teorias pelos factos; indução, previsão e provas na ciência; a confirmação e o teorema de Bayes; a explicação científica; a noção de leis da natureza; a redução entre teorias; realismo científico e empirismo. Entre os filósofos representados nesta antologia contam-se Popper, Kuhn, Lakatos, Michael Ruse, Larry Laudan, Duhem, Quine, Gillies, Wesley C. Salmon, Hempel, Paul Horwich, Carnap, Railton, Ayer, Dretske, Mellor, Nancy Cartwright, Ernest Nagel, Feyerabend, Philip Kitcher e van Fraassen, entre outros. Imperdível.

Desidério Murcho
Publicado no jornal Público (14 de Maio de 2005)
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