A Matemática das Coisas
12 de Agosto de 2008 ⋅ Opinião

Ciência e poder

Desidério Murcho
Universidade Federal de Ouro Preto

O último livro de Nuno Crato, A Matemática das Coisas (Gradiva, 2008), é um prodígio de clareza e lê-se com o fresco entusiasmo da descoberta que terão todos os seres humanos adultos que não se esqueceram do prazer de descobrir. Nuno Crato alcançou um raro poder de síntese e clareza, tornando a divulgação da ciência uma arte. Como Carlos Fiolhais, Jorge Buescu e outros cientistas portugueses, Crato faz divulgação científica ao nível do melhor que se faz no mundo. E este facto é curioso, dado que as coisas eram muito diferentes há meros vinte anos.

Nessa altura, ciências como a física, matemática ou biologia eram em parte intrujices de mestre-escola, enredadas em palavreado que ninguém compreendia — e ainda bem, pois assim reservava-se tal coisa aos eleitos. Salvo Rómulo de Carvalho (o poeta António Gedeão), mais tarde o grande António Manuel Baptista, e poucos mais, os universitários viam com maus olhos a divulgação científica. Quando a Gradiva começou a publicar em Portugal bons livros estrangeiros de divulgação científica, a reacção académica tonta não se fez esperar: diziam que aquilo não era verdadeira ciência, nem os seus autores verdadeiros cientistas. Na verdade, tratava-se apenas uma reacção histérica de quem nem entendia o que é a ciência nem conhecia bibliografias actualizadas.

Hoje, a ciência nas universidades mudou, graças a autores como Nuno Crato, Jorge Buescu, Carlos Fiolhais e tantos outros. Estes cientistas têm uma compreensão genuína da ciência, não a entendendo como mero formalismo de mestre-escola para assustar criancinhas. Levar a ciência ao cidadão tornou-se felizmente comum em Portugal. Esta é uma profunda mudança sociológica, que falsifica a ideia de que a ciência é necessariamente elitista. Na verdade, quem afirma esta ideia trai geralmente o seu elitismo, por duas razões.

Em primeiro lugar, porque não faz este trabalho duro e democrático de divulgar a sua área da especialidade ao cidadão; tudo o que este tipo de pessoas faz e escreve serve exclusivamente para a sua promoção académica e pessoal, e não para levar a compreensão e a descoberta aos cidadãos.

Em segundo lugar, porque geralmente essas pessoas escrevem de uma maneira que só os iniciados compreendem — ou seja, o seu elitismo manifesta-se numa maneira de escrever extremamente rebuscada, pressupondo sempre da parte do leitor uma imensidão de leituras que a maior parte das pessoas não fez. É assim irónico que autores pretensamente libertários e de esquerda sejam, na verdade, profundamente elitistas e autoritários, ao passo que a tão odiada ciência tenha produzido tantos divulgadores admiráveis, como Nuno Crato.

Era bom que a profunda mudança nas ciências da natureza e na matemática que nos últimos vinte anos se deu em Portugal se desse também noutras áreas, nomeadamente na história, filosofia, sociologia e outras disciplinas cruciais. É preciso abandonar também nestas áreas a intrujice de mestre-escola e o elitismo disfarçado de discurso libertário.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Publicado no jornal Público (12 de Agosto de 2008)
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