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29 de Abril de 2010 ⋅ Opinião

Diz-me como escreves

Desidério Murcho
Universidade Federal de Ouro Preto

Francis-Noël Thomas e Mark Turner caracterizam no livro Clear and Simple as the Truth: Writing Classic Prose (Princeton University Press, 1997) o estilo clássico de escrita, cultivada por autores como George Orwell, Bertrand Russell ou Peter Singer. Um dos traços do estilo clássico é a igualdade epistémica: a ideia de que o autor não tem um acesso privilegiado à verdade, pelo que se o estilo é lamacento e difícil de entender isso não se deve à profundidade do autor, mas antes à sua falta de visão clara. Isto contrasta com estilos de escrita que pressupõem que o autor tem um acesso privilegiado à verdade, acesso que está vedado ao leitor, que tem por missão arrastar-se penosamente pelo texto, em busca de iluminação mágica. Quando um autor quer parecer libertário mas ao mesmo tempo não pressupõe a igualdade epistémica do estilo clássico, denuncia talvez no seu estilo de escrita o género de opressão social de que os seus textos falam.

Outro traço do estilo clássico é a ênfase na realidade exterior e não no modo como o autor a vê. Na prosa clássica, o olhar do leitor é dirigido sobretudo para o tema em discussão, e não para o autor: é a realidade exterior, comum a autor e leitor, que interessa. Na prosa enlameada, a realidade exterior é secundarizada: o que mais interessa é o autor e a sua performance; daí que seja comum dizer banalidades de maneira esquisita, pois o objectivo não é o que se diz mas o modo como se diz. Isto não é muito diferente das célebres performances de Hitler, que cativava o povo de língua alemã não tanto pelo que dizia, mas pelo modo como o dizia.

Assim, o estilo de escrita contradiz por vezes o que está escrito. Um autor pretensamente libertário pode denunciar o seu elitismo escrevendo de uma maneira concebida para demarcar territórios sociais, colocando-se a si mesmo acima da plebe. O chamado "eduquês", por exemplo, é um linguarejar difícil de entender, concebido para sublinhar a origem académica do autor, que quer ser visto como socialmente "superior". Apregoa-se assim uma atitude integradora e muito democrática, ao mesmo tempo que a linguagem do pregão foi concebida precisamente para não ser integradora nem democrática.

O mesmo acontece com muitos discursos pretensamente libertários. Critica-se a racionalidade, defendendo que é a culpada do terror nazi. Mas ao impossibilitar a discussão aberta por via de um palavreado enlameado, esse discurso aprofunda o espírito de manada e a falta de deliberação racional, que são precisamente as atitudes que estão na origem do terror nazi — além da ideia instrumentalista sempre subjacente, que consiste em prostituir a racionalidade em prol de objectivos políticos e sociais demasiado importantes e nobres para poderem ser claramente discutidos por todos.

É com certeza um exagero declarar que o estilo de prosa adoptado denuncia o tipo de convicções políticas que realmente se tem, por oposição às que se quer parecer que se tem. Mas não é um exagero assim tão grande.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Publicado no jornal Público (17 de Fevereiro de 2009)
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