Continental Philosophy
23 de Março de 2004 ⋅ Filosofia

O abismo

Leônidas Hegenberg
Continental Philosophy, de Simon Critchley
Oxford: University Press, 2001, 149 pp., 6,99 libras
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Há muitos anos tem estado em tela o "abismo" que separa filósofos da Inglaterra e dos EUA (e da Austrália), de colegas da Alemanha e da França. De um lado, a corrente analítica, "inaceitável" para estes. De outro, um misto de fenomenologia, existencialismo, hermenêutica e estruturalismo, "inadmissível" para aqueles.

Afortunadamente, as divergências têm sido comentadas por alguns estudiosos que evitam tendenciosidades. Critchley é um desses estudiosos — na condição de professor em Essex e de diretor do Collége International de Philosophie, em Paris. O livro que preparou para a série das "Very Short Introductions" é de especial valia para quem deseja compreender certos aspectos das divergências entre franco-germânico e anglofônicos. Não traz respostas que especialistas desejariam encontrar, mas abre boas perspectivas para quantos não tiveram oportunidade de meditar a respeito daquelas divergências.

Para leitores desejosos de aprofundar estudos, o ensaio de Critchley pode ser lido com dois livros de maior alcance, Continental Philosophy Since 1750, de Robert Solomon, e Introduction to Continental Philosophy, de David West. Vale a pena, ainda, ver A Companion to Continental Philosophy, obra organizada pelo próprio Critchley, em companhia de W. R. Schroder.

Em tese, o livro de Critchley, publicado na Inglaterra, destina-se a adeptos da filosofia analítica, convidando-os a melhor conhecer o que se passa no continente europeu. Na política britânica se fala em "eurocéticos" e "eurofanáticos". Levando a dicotomia para o campo filosófico, fica implícito que as considerações do livro podem ser de interesse para as duas facções.

Critchley ressalta que "filosofia continental" é termo aplicável a um período de 200 anos da história da filosofia, abrangendo, após Kant (fim do século XIX), diversas correntes, a seguir enumeradas, indicando apenas alguns nomes de maior relevo. 1) Idealismo alemão (Fichte, Hegel); 2) crítica à metafísica (Marx, Nietzsche); 3) fenomenologia — germânica (Husserl, Heidegger) e francesa (Sartre, Merleau-Ponty); 4) hermenêutica (Dilthey, Ricoeur); 5) marxismo ocidental e Escola de Frankfurt Marcuse, Habermas); 6) estruturalismo francês (Lacan, Althusser) e pós-estruturalismo (Foucault, Derrida).

Apesar dessa variedade temática, a filosofia continental gravita em torno de problemas que se agrupam em um "núcleo" usualmente ignorado pela tradição anglo-americana. Caracterizar esse núcleo requer, segundo o autor, o plano mais amplo das relações entre sabedoria e conhecimento. Os dois temas andam (ou andaram) separados e a tentativa de reuni-los, por difícil que seja, tem sido a tônica do pensamento continental. Em certa medida, o continente realça um pensamento socrático: a sabedoria diz respeito ao que significaria "boa vida", "uma vida feliz". Para muita gente, isso pode parecer anedótico, pois a filosofia nada tem a ver com a "boa vida", assunto encaminhado para uma psicologia — até meio folclórica. Em outras palavras, nos velhos tempos a filosofia era atividade prática, diversa da investigação teórica em que transformou a partir do século XVII. Melhor dizendo, a "filosofia" (= amor ao saber) se transformou em "scientia" (= conhecimento).

Critchley observa, porém, que a concepção científica do mundo não eliminou a necessidade de atribuir um sentido à vida. A muito perturbadora lacuna que se abriu entre sabedoria e conhecimento vem sido preenchida retornando às religiões antigas, inventando religiões, aceitando autoritarismo político ou, ainda, aderindo às variadas formas de esoterismo. Está posto o dilema. De um lado, "endeusamento" da ciência, o cientismo. De outro, repúdio à ciência, o obscurantismo.

Colocadas as bases de suas considerações, o autor usa o cap. 2 para relatar certas idéias de Kant. De modo interessante, sublinha que a Crítica do Juízo (1790) estabelece um vínculo entre o entendimento (campo da epistemologia voltado para o conhecimento da natureza) e a razão (campo da ética voltado para a liberdade). Kant abriu, assim, o caminho para o idealismo alemão.

No cap. 3, o foco são as "duas culturas" a que alude C. P. Snow (cf. seu livro The Two Cultures, reeditado em 1993), para deixar claro que o pensamento inglês ("englishness") também oscila, desde o começo do século XIX, entre hábitos empíricos (Coleridge) e idéias utilitaristas (Bentham).

Em seguida, Critchley examina o pensamento franco-alemão de modo sistemático, centrando sua análise nos conceitos de crítica, práxis e emancipação. É preciso escapar da crise provocada por uma ciência que nos transforma em "gado que pasta contente nos prados". A fim de fugir da crise — na verdade, o desconhecimento de que existe crise (o niilismo de Nietzshe) — é indispensável a crítica das idéias tradicionais. É indispensável a "destruição", tal como proposta por Heidegger e que Derrida levou para a França, vista como "déconstruction". A critica permite concluir que o ser humano está imerso em um mundo que ele próprio deve erigir (práxis) a fim de alcançar a liberdade (emancipação).

O cap. seguinte mostra como o niilismo nietzsheano tem origem nos romancistas russos, ressaltando que estes o encaram por prisma sócio-político, ao passo que o pensador alemão lhe dá dimensões metafísicas.

Uma célebre discussão filosófica ocupa o cap. 6. Compara-se a concepção científica do mundo, defendida por Carnap, e a experiência existencial (ou hermenêutica), advogada por Heidegger. Para benefício de todos, Critchley preocupa-se em mostrar onde ambos erraram.

O penúltimo cap. destina-se a reavaliar o contraste entre cientismo e obscurantismo. Opondo-se à filosofia analítica, os filósofos do continente — Bergson, Husserl, Heidegger e os integrantes da Escola de Frankfurt — entendem que a ciência natural não fornece (nem deve nem pode fornecer) modelo para um método filosófico e não dá ao ser humano um promissor acesso ao mundo. Conquanto essa posição dos pensadores continentais tenha aspectos perfeitamente aceitáveis, o fato é que gerou atitude anti-científica, fácil de conduzir ao obscurantismo. Para o autor, vale a pena aceitar as palavras de Putnam (Meaning and the Moral Sciences, 1978, trad. livre): "admitir que o conhecimento é muito mais amplo do que a ciência me parece uma necessidade cultural se desejarmos sadia e humana visão de nós mesmos e da ciência".

Nas observações finais, Critcley nota que as idéias dos pensadores continentais não têm recebido, nos últimos tempos, quaisquer contribuições interessantes. Nota que, de outra parte, muitos estudiosos britânicos e americanos se debruçaram sobre a tradição franco-germânica, evitando os equívocos da simples tradução e do (simplório?) comentário.

A rigor, podemos concluir que voltamos a Sócrates...

Como nos demais livros da coleção, este contém um bom índice remissivo, livros de apoio, para cada capítulo, e indicações para leituras adicionais. Tem 21 ilustrações. Destas, são interessantes as fotos de Nietzshe, Husserl, Heidegger e Carnap; as caricaturas, de Kant e Mill; e quadros retratando Hegel, Jacobi e um jantar imaginário, na casa de Kant.

Leônidas Hegenberg
Instituto Brasileiro de Filosofia
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