Core Questions in Philosophy, de Elliot Sober
10 de Janeiro de 2004 ⋅ Filosofia

Questões nucleares

Desidério Murcho
Core Questions in Philosophy: A Text with Readings, de Elliott Sober
Upper Saddle River: Prentice Hall, 2008, 576 pp.
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Poderá pensar-se que um manual escolar é afinal um manual, uma coisa demasiado específica para ter interesse para o público em geral. Mas é precisamente este divórcio entre a cultura do público em geral e a escola que favorece o formalismo, que é o inimigo número um do ensino de qualidade — que por sua vez é o inimigo número um do desenvolvimento de qualquer país. O formalismo consiste em repetir fórmulas e palavras abstrusas sem compreender e só para impressionar incautos, e transforma a escola num deserto de ideias, onde nada tem a ver com coisa alguma. O resultado é um país atrasado — pois se não for na escola que se aprende a pensar rigorosamente, a resolver problemas reais, a estudar para aprender com os grandes especialistas do passado e do presente, a discutir ideias ou teorias com objectividade e imparcialidade, onde se aprenderá tal coisa?

Elliott Sober é professor de Filosofia na Universidade de Wisconsin-Madison. Com vários livros de investigação publicados, sobretudo na área da filosofia da biologia, assim como artigos em algumas das melhores revistas especializadas com sistema de submissão anónima, não esquece os seus deveres de professor, e escreveu dois livros de carácter introdutório. Core Questions in Philosophy é um deles e abrange a filosofia da religião, a teoria do conhecimento, a filosofia da mente e a metafísica, e a ética. Além do texto do autor, claro e despretensioso, preciso e rigoroso, que nos conduz pelos meandros dos problemas, teorias e argumentos centrais clássicos da filosofia, inclui ainda vários excertos, de algumas páginas, de filósofos como Tomás de Aquino, David Hume, Santo Anselmo, A. J. Ayer, Descartes, Platão, Bertrand Russell, A. M. Turing, Sartre, J. S. Mill, Kant e Aristóteles, entre outros. Fica-se assim em contacto com os grandes clássicos da filosofia, devidamente contextualizados filosoficamente, e não apenas historicamente, compreendendo-se o que está em causa. E, como se fornecem constantemente instrumentos de avaliação crítica, o livro permite fazer da filosofia, verdadeiramente, "o lugar crítico da razão". Fugindo à linearidade que consiste em apresentar a filosofia como uma sucessão de ideias vagas sobre "questões" que de filosófico nada têm, sendo antes subjectivas e privadas reacções primárias às coisas, Sober mostra o que a filosofia realmente é: uma forma disciplinada e subtil de enfrentar problemas conceptuais graves e humanos, que a todos nos afectam, e que têm origem quer na vida comum, quer nas artes, ciências e religiões.

Afastando-se igualmente das correntes pós-modernistas que declaram a "Morte da Filosofia", acabando por matá-la de inanição, trata-se de um livro que se recomenda a qualquer leitor que queira saber o que é afinal a filosofia. Como qualquer bom autor e como qualquer professor competente, Sober escolhe alguns dos aspectos centrais de cada disciplina em função do seu grau de acessibilidade, começando pelos temas mais próximos da intuição e da vida do leitor, e avançando para as mais complexas e abstractas. Afinal, não se começa por ensinar física quântica para depois se ensinar física elementar. Esta estratégia, evidentemente, deixa muito de fora; mas nem se espera outra coisa de uma boa introdução a qualquer área: que forneça alguns dos elementos nucleares que permitirão ao leitor interessado prosseguir o seu caminho na direcção certa.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Crítica publicada no jornal Público (14 de Junho de 2003)
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