Reflexo, de Margarita Accurso
11 de Outubro de 2009 ⋅ Opinião

Se o universo existe, então quem o criou?

João Carlos Silva

Quando se pergunta retoricamente "Se o Universo existe, então quem o criou?", estamos perante uma questão viciada, um problema mal formulado, cuja solução é óbvia e previsível face à forma como é colocado. Que o Universo existe, seja ele o que for, como for ou por que for, é um facto incontestável. Mas que da constatação pura e simples da sua existência se passe automaticamente para a ideia de um criador necessário, eis o que precisa de ser demonstrado e não apenas pressuposto ou tacitamente assumido.

Como acontece frequentemente, o problema está em quem faz a pergunta presumir saber aquilo que de facto não sabe, ou seja, está na premissa oculta que a condiciona e formata. E qual é ela? Que tudo o que existe não só teve uma origem e uma causa, como foi criado por alguém. Em suma, se algo existe, então alguém o criou. Mas será isso verdade? Será que por detrás de todas as coisas, seres e acontecimentos se encontra necessariamente um sujeito responsável, seja ele natural ou sobrenatural, humano ou sobre-humano? Porquê acreditar nisso? Como sabemos que isso é verdade? Há algo na realidade que o evidencie ou justifique inquestionavelmente?

É mais provável que a razão explicativa desse esquema mental resida não tanto no mundo mas em nós mesmos, ou seja, precisamente na própria estrutura intencional da mente humana, com os seus desejos e crenças, emoções e cognições, estados de consciência e finalidades mais ou menos inconscientes. Uma explicação mais plausível, face a tudo o que sabemos da natureza humana e não humana, é que esse pressuposto tenha origem na projecção para o exterior da nossa própria estrutura e funcionamento psíquicos internos. A atribuição de qualidades, motivos, significados e sentimentos humanos ao mundo natural não humano é um fenómeno universal e perene, um padrão constante da natureza e condição humanas, na história e cultura de todos os povos e épocas, no plano individual e colectivo. A esse processo podemos chamar projecção, alienação, animismo, panpsiquismo, ou, mais comummente, antropomorfismo, dependendo da intenção mais descritivo-explicativa ou crítica dos seus proponentes, bem como da disciplina científica que praticam, mas em todo o caso trata-se basicamente do mesmo fenómeno.

Freud disse certa vez, a propósito, que aquilo que diferenciava a visão do mundo da psicanálise da visão do mundo do ocultismo e da religião - não fazendo aqui qualquer diferença para o efeito - era que a psicanálise acreditava na existência do acaso e na ausência de sentido - entendido como significado e finalidade - no mundo externo, mas não a aceitava no mundo psíquico interior, enquanto o ocultismo e a religião afirmam, defendem ou pressupõem exactamente o contrário disso, isto é, que os indivíduos podem pensar, sentir ou fazer coisas sem intenção, motivo ou significado, mas que tudo o que existe e acontece no mundo exterior tem significado, corresponde a intenções e tem uma finalidade ou desígnio. Parece uma observação lúcida, com a qual é difícil não concordar no essencial. Claro que podemos interrogar por que acontece isso, por que temos nós essa necessidade, simultaneamente cognitiva e emocional, de interpretar de forma criativa e projectiva a realidade, subjectivando-a e delirando-a, à imagem e semelhança dos nossos desejos, crenças, emoções e intenções, quer dizer, recriando-a à imagem e semelhança de nós próprios. E talvez a explicação seja complexa e inclua diversos factores, mas, como não é esse o nosso objectivo aqui, basta-nos referir que essa tendência humana, demasiado humana, corresponde provavelmente a uma forma ao mesmo tempo defensiva e estruturante de dar um rosto humano àquilo que não o é, de personalizar e sensibilizar o que é impessoal e indiferente, para nos fazer sentir em casa e no centro de tudo, com tudo o que existe e acontece girando à nossa volta e tendo como sentido último a nossa própria existência individual ou colectiva; no fundo, um protesto primário antropológico contra a angústia, a solidão, o acaso, o desamparo, a finitude, o absurdo, o sofrimento e a morte; um exorcismo psíquico do medo infantil e animal original face à estranheza, independência e indiferença da realidade não humana, que, ao ser humanizada, nos dá uma ilusão de segurança. Isto, combinado com a loucura crónica da humanidade, com a sua incapacidade estrutural ou, pelo menos, extrema dificuldade cognitiva em distinguir o real do imaginário, o subjectivo do objectivo, juntamente com a facilidade e natural predisposição para confundir os dois planos da ficção e da fantasia com a realidade, sobretudo quando a primeira permite um consolo e uma ilusão de controlo e protecção que a segunda não fornece ou favorece.

Será esta a origem última dos mitos, da magia e da religião? Talvez. Talvez seja humanamente irresistível, porque emocional e cognitivamente consolador, atribuir imaginariamente um sentido humano, um rosto humano e propósitos humanos a tudo o que existe e acontece, pois assim tudo fica mais compreensível, mais à nossa escala, mais acolhedor e menos assustador, frio, indiferente e insensível. Se tudo for animado por espíritos ou governado por um Espírito; se tudo for efeito de uma vontade e de uma inteligência — de preferência, omnipotente, omnisciente, omnipresente e absolutamente boa —, então o mundo e a vida não só não são absurdos, como têm uma lógica humanamente acessível, não apenas à razão humana, mas ao coração humano, uma lógica de bondade, justiça e sabedoria, uma lógica humana, no fundo. É tentador pensar assim e acreditar nisto. É uma ideia consoladora face à realidade muitas vezes terrível e assustadora e face à nossa necessidade de consolo virtualmente impossível de satisfazer, a julgar pela sua universalidade, antiguidade e perenidade.

Voltando à questão original e analisando agora o problema do ponto de vista lógico e epistémico, e não do ponto de vista psicológico ou antropológico — o qual explica mas não justifica —, se o primeiro defeito da pergunta está aqui, em pressupor que alguém necessariamente criou o universo, esse não é o único defeito que se pode assinalar. Logicamente, a primeira coisa a fazer é provar que, se algo existe, então tem de ter uma origem, isto é, ter começado a existir, não podendo existir desde sempre sem um princípio; em segundo lugar, seria necessário demonstrar que, a ter um princípio ou origem, tal não pode ter ocorrido sem uma razão suficiente ou causa necessária para o efeito. Em terceiro lugar, seria preciso provar que essa causa ou razão não pode ter sido puramente natural ou física — se é que faz algum sentido procurar uma causa natural ou física para explicar a origem de toda a natureza física —, um algo, uma força ou causa eficiente não inteligente ou intencional; em quarto lugar, então, mas só então, se conseguirmos estabelecer indubitavelmente, ou de forma altamente provável, a plausibilidade dos passos anteriores, é que poderá finalmente fazer algum sentido perguntar se houve alguém, algum criador ou arquitecto cósmico, algum sujeito ou pessoa, ainda que puramente espiritual e, portanto, sem corpo ou forma física, que hipoteticamente pudesse explicar tudo isto, e, só nesse caso, teríamos legitimidade racional para perguntar "Quem?".

Em suma, se não formos apressados, subjectivamente tendenciosos e preconceituosos na nossa investigação, se não quisermos pôr o carro à frente dos bois e saltar directamente para a conclusão, encontrando no fim aquilo que já pusemos no princípio, formulando um raciocínio circular ou cometendo a falácia da petição de princípio, então devemos seguir a sequência lógica da investigação, fazendo as perguntas certas na ordem certa, procurando as respostas correctas ou mais prováveis, sustentadas pelas melhores razões ou argumentos mais fortes, e, só no caso da pesquisa imparcialmente conduzir à última questão, é que esta pode e deve ser colocada. Como diria aproximadamente o maior dos detectives, o grande Sherlock, "Eliminado o impossível, o que restar, por muito improvável que seja, é ou deve ser verdade."

Assim, é necessário perguntar: será que tudo o que existe começou a existir, teve uma origem? Porquê? Como sabemos? Será que nada existe eternamente e sem princípio? Será o universo como um todo uma excepção a esta regra supostamente universal, ou seja, à sua própria regra interna? Será que todas as coisas e fenómenos individualmente têm uma causa e uma origem, mas não o todo formado por todas as coisas e fenómenos, isto é, o conjunto do universo? Por tudo aquilo que conhecemos das coisas e seres que o compõem, a regra parece de facto universal, confundindo-se, de certa forma e até certo ponto, com o princípio da causalidade e com o da razão suficiente. Temos hoje até algumas e boas razões lógicas, físicas e metafísicas, para pensar que talvez nem o universo como um todo — e não apenas nas suas partes e processos constituintes — seja uma excepção a esta regra. Veja-se nomeadamente as razões científicas de peso, tanto teóricas como empíricas, que suportam a teoria do Big Bang, em particular, o efeito Doppler, ou o deslocamento para o vermelho das galáxias, a distribuição quantitativa dos elementos químicos no universo e a radiação de fundo mais ou menos homogénea. E veja-se também as razões lógicas e metafísicas, explicitadas no argumento cosmológico na versão Kalam, contra a possibilidade do infinito actual e, logo, de uma regressão infinita do tempo e das causas que, a ser impossível, implicaria a necessidade de uma origem para o universo.

Mas estas razões não são conclusivas e indisputáveis, ou seja, não são indiscutivelmente verdadeiras e sem margem para dúvidas razoáveis. Logo, mesmo reconhecendo diferenças de peso na ordem das razões — as científicas parecem reunir, por agora, maior consenso do que as filosóficas, o que é normal —, a combinação de todas garante, no máximo, uma maior probabilidade a favor da tese da criação, ou melhor, de uma origem do universo, mas não uma certeza absoluta. Mesmo a teoria do Big Bang, apoiada como é num conjunto de indícios empíricos fortes, enfrenta problemas e coloca outros que permanecem irresolvidos, como o da própria causa ou causas do acontecimento e daquilo que eventualmente o precedeu. Isto não significa que a teoria seja falsa, mas tão só que é, por enquanto, incompleta ou imperfeita. E, se a teoria do universo cíclico oscilante se revelar verdadeira, então é a própria ideia de um começo absoluto, isto é, de uma criação, que fica em causa, embora isso também não resolva o problema da própria existência do universo, apenas o desloque e difira para um infinito passado que não sabemos se existiu ou sequer se pode ter existido de facto.

Em todo o caso, aquilo que importa aqui é que nem a primeira premissa, necessária à formulação da nossa questão original, pode ser estabelecida com segurança e, logo, uma vez que todas as outras se encontram dependentes desta, todo o raciocínio invisível que conduz à questão se revela meramente hipotético ou condicional e não categórico e absoluto, como a sua forma fechada dá a entender. A própria questão esconde, na sua formulação dogmática, uma série de premissas ocultas ou pressupostos dados como adquiridos, que não o estão de todo. Muito pelo contrário, são e permanecem problemas em aberto, tanto na investigação científica como filosófica. Deste modo, pressupostos como tal, mas não provados como verdadeiros, e pressuposta, mas não provada como válida a sua conexão lógica, toda a questão fica viciada desde o início e só pode conduzir a uma única conclusão possível: aquela que se pretendia, ou seja, Deus.

João Carlos Silva
Termos de utilização ⋅ Não reproduza sem citar a fonte