Da Quod Amem
5 de Abril de 2009 ⋅ Livros

Epigramas

Hugo Pinto Santos
Da Quod Amem: Amor e Amargor na Poesia de Marcial, de José Luís Lopes Brandão
Lisboa: Edições Colibri, 1998, 158 pp.
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A visão que habitualmente temos do poeta Marcial — quando não fica pura e simplesmente turvada por aquilo a que Sena chamou a "mania "classicista" dos estudiosos das literaturas clássicas" —, há que de dizê-lo, é superficial, se não enviesada. Este livro parece-me dar um notável contributo no sentido de inverter essa tendência, cumprindo o desiderato de promover a "reabilitação de um poeta cuja obra os ouvidos castos da piedade cristã chegaram ao ponto de condenar à fogueira" (p. 131).

Ancorado num solidíssimo conhecimento dos epigramas de Marcial, traça o autor, no seu ensaio, um percurso pela obra do grande Hispano que permite a apresentação de diversas hipóteses de trabalho que se me afiguram, a todos os níveis, dignas do maior interesse; por outro lado, equaciona a possibilidade de estabelecer conexões biográficas — que têm em conta toda uma rede de factores intervenientes, que passam pela informação social, o substrato cultural, a história, em suma —, com as devidas cautelas e reservas de quem escreve com a maior propriedade — e desvelo, acrescentaríamos. Assim, terá sido seu propósito "esboçar um perfil da alma do poeta e facultar uma espécie de guião de leitura dos Epigramas de Marcial, com variadas informações, deles retiradas, para o estudo da Roma do século I" (p. 15). Ao longo do seu ensaio, José Luís Lopes Brandão faz jus ao itinerário traçado, chegando não só a conclusões valiosas acerca da obra — e, até certo ponto, desconhecidas, mesmo dos frequentadores dos clássicos —, mas também sobre o homem responsável pela obra — "Do conjunto dos epigramas tentaremos reconstituir, pedaço a pedaço, a alma de Marcial: o rosto imortal do poeta." (p. 23)

No título, recuperam-se as palavras de Marcial, Quod amem: "(Se queres dar vigor e alma à minha Talia / e pedes versos imortais,) dá-me algo que eu possa amar." A tensão entre amor e amargor, de que o subtítulo lança mão, crispado vaivém entre irrisão e sincero cuidado, formarão as linhas mestras do ensaio de Lopes Brandão. Ao contrário do que vulgarmente sucede, o estudioso não privilegia o mais óbvio: a veia satírica e escarninha do poeta de Bílbilis. Muito embora não a esqueça, luta por trazer à luz e, sobretudo, por reflectir acerca das zonas da sua poesia em que avulta um outro Marcial, que mal conhecíamos.

Desse modo, Lopes Brandão defende que carece de sustentação a usual concepção segundo a qual Marcial é um poeta incapaz de amar. Seja esse amor o da sua pátria, na sua afectuosa expressão, "nostra Hispania" (p. 25), seja o dos (poucos, é certo) que o mereceram, é inegável que se trata de um mal-entendido insidiosamente mantido há séculos. Da estima que demonstrava pelos amigos, restam-nos alguns exemplos, como no poema em que Marcial enjeita um possível rumor de desentendimento com outro grande poeta, que, embora nada tenha escrito sobre o nosso autor, parece dele ter sido amigo — "Tu que tentas inventar querelas entre mim e o meu querido Juvenal, / o que não ousarás dizer, pérfida língua?" (p. 76) São mais, porém, os testemunhos da amizade franca e desinteressada do poeta, como quando, ao amigo Pudente, fala, comovido, da reacção aos seus versos (Marcial era particularmente atento e sensível à receptividade da sua obra) — "Obrigas-me, Pudente, a emendar os meus escritos / com a pena, pela minha própria mão. / Oh quanto me estimas e me amas, / tu que queres ler os originais das minhas bagatelas!" (p. 74) De resto, "Marcial", esclarece o ensaísta, "muitas vezes esconde, por detrás dos gracejos, uma concepção pessoal da vida humana e da sociedade que muitas vezes escapa ao leitor distraído" (p. 124). São disso notável exemplo os poemas que dedica à morte dos seus escravos — "Embora devas ser, como é tua obrigação, ó terra, benévola e leve, / não podes ser mais leve do que a mão deste artista." (p. 123) Daí que o ensaísta fale da "humanidade do poeta", que, defende, seria "ainda invulgar para a época" (p. 124). Algo em que não podemos deixar de acreditar perante os poemas em que lamenta a tortura escolar das crianças — "E que as sinistras palmatórias, ceptros dos pedagogos, / parem e durmam até aos idos de Outubro. / No Verão, se as crianças estão bem de saúde, aprendem o suficiente." (p. 125) Por outro lado, "pelo que nos é dado deduzir dos epigramas", ensina Lopes Brandão, "a vida amorosa do poeta foi balizada por uma série de fogachos que, de acordo com a instabilidade do temperamento e da situação, nunca lhe permitiram fixar-se numa relação mais duradoura e mais profunda" (p. 144). Nesse sentido, não fica, alega o ensaísta, provado o suposto casamento do poeta, o que, de resto, os seus poemas parecem corroborar.

Lopes Brandão não deixa, contudo, de parte o que é eventualmente a faceta mais reconhecível de Marcial. "O nosso poeta", diz, "parece não suportar os excessos, quer de devassidão, quer de castidade, e, porque conhece a natureza humana, ridiculariza, como suspeitos de hipocrisia, os que se mostram exageradamente íntegros" (p. 36). Destarte, não pretende, no seu ensaio, branquear o que não tem necessidade de o ser — bem pelo contrário. Simplesmente, terá sido sua intenção mostrar a complexidade de um autor que, infelizmente, diríamos, tem mantido na sombra grande parte dos seus cambiantes e muitos dos aspectos mais surpreendentes da sua obra. Pela via mais óbvia da mofa — "Marino é um calvo cabeludo que cobre a careca com os cabelos longos das têmporas, mas estes voltam ao lugar com o vento" (p. 48): "Juntas daqui e dali teus ralos cabelos / e cobres Marino, de tuas cabeludas fontes, / o vasto campo da luzidia calva. / Mas, agitados ao sabor do vento, tornam e ficam entregues a si próprios e cingem a nua / cabeça" (Epigramas, vol. 4, Edições 70, p. 58) —, ou por meio de abordagens mais subtis que nunca se alargam em muitas palavras, mas atingem, certeiras, o alvo — "Porque é que não te envio, Pontiliano, os meus epigramas? / Para que tu, Pontiliano, me não envies os teus." (p. 41) —, a sua crítica dirige-se ao que lhe parece desajustado, risível, hipócrita, falso "Ele que terá conseguido o grau de cavaleiro pela posição social que a sua poesia lhe conferia, não tolera que alguém tente mostrar ser aquilo que não é." (p. 43) Eleitas privilegiadas da sua crítica, as mulheres dissolutas, as que ocultam a idade, as que encarnam a falsidade, a fealdade moral e física — "Em uma noite, eu posso dar quatro; mas, em quatro anos, / eu morra, Telesila, se te consigo dar uma que seja!" (p. 105) Neste particular, reside, porventura, um dos seus maiores talentos de poeta realista e exímio pintor de incisivos quadros vivos em que palpita toda a vida, toda a cidade — "Nos quadros da vida romana elaborados por Marcial, vivem mulheres de carne e osso, mesmo quando encobertas por nomes falsos. A partir desses quadros, podemos deduzir o juízo do poeta sobre a mulher em geral. (...) Mas o poeta quase sempre se abstém de julgar, limita-se a construir as cenas com o material de que dispõe que a maior parte das vezes é mau" (p. 111) Daí que, num dos seus epigramas, confesse, com sinceridade: "A minha poesia não prejudicou nem sequer aqueles que tinha razão para odiar / e a mim não me agrada a fama à custa da vergonha de quem quer que seja / (...) Gracejo sem ofender" (p. 142). Não esquecidos, entretanto, são os falsos amigos, verberados sem piedade — "Só preciso disto: que de repente um raio te torne mudo, / para não poderes dizer, Bácara, "Se precisares de alguma coisa..."" (p. 90).

É, no entanto, o próprio poeta quem demarca as fronteiras entre a subversão das suas palavras e a justeza da sua própria vida — "a minha página é lasciva, mas a minha vida, proba" ("lasciva est nobis pagina, uita proba", p. 22). Para si, reserva, como desejável, algo que poucos, decerto, enjeitariam, e que se me afigura uma das mais bem gizadas expressões de um ideal de vida — "riquezas não produzidas pelo trabalho, mas herdadas; / um campo não ingrato, um fogo nunca extinto; / querelas, nunca; toga, raras vezes; espírito sossegado; / vigor inato, corpo saudável; / franqueza prudente, amigos de condição semelhante; / convívio simples, mesa sem artifícios; / noite sem embriaguez, mas livre de preocupações; / um leito não austero, mas sem deixar de ser casto; / um sono que torne breves as trevas; / aceitares-te tal como és, sem preferires ser outra coisa; / o último dia, não o temer nem o desejar" (p. 57).

Outro dos lugares-comuns geralmente agregados a Marcial, e que Lopes Brandão pugna por esclarecer e, por fim, combater, é a do poeta bajulador do princeps, que não teria recuado perante a crueldade inaudita de tiranos como Domiciano. Ora, "Já Tremoli notou", lembra Lopes Brandão, "que Marcial não tinha uma verdadeira alma de adulador, o que fez que", acrescenta, "a sua adulação quase não tivesse resultados visíveis. Parece-nos existir, em muitos epigramas, mais ironia que adulação." (p. 146) Na verdade, e ao que se julga, a sua estabilidade financeira, por fim alcançada, terá chegado mais como resultado do auxílio de mecenas particulares do que do próprio imperador, cujo apoio nunca se mostrou propriamente pródigo. Algo que, de certa forma, explica o tom por vezes formulaico, e bastas vezes empolado até ao absurdo, dos seus louvores, bem como uma certa desafectação face ao assunto tratado — "Nestes epigramas em que se expressa o amor de Roma pelo seu imperador, ou pelo menos seus ministros, Marcial, como nota Bardon, parece excluir-se tacitamente desse número, quando seria de esperar que vincasse a sua afeição, se esta existisse realmente." (p. 147)

Creio que, a despeito do alongado da citação, as seguintes palavras de José Luís Lopes Brandão poderiam servir de remate e conclusão, mais eficazmente que outras — "Através dos epigramas de Marcial percorremos as ruas de Roma, acompanhamos os clientes na saudação matinal, num roçagar de togas apressadas, entramos no foro, subimos ao Capitólio, vamos ao teatro e às termas, somos convidados de vários banquetes e ouvimos muitos poetas, conhecemos as pessoas mais notáveis de então e também as mais pobres, convivemos com algumas cortesãs e entramos na intimidade de algumas alcovas, ouvimos boatos que correm de boca em boca, aprendemos a analisar criticamente as reacções de algumas personagens e, ao anoitecer, regressamos, cansados, à água-furtada no Quirinal, àquele espaço exíguo que o poeta partilha connosco para o descanso merecido, após um dia fatigante. E aprendemos muito acerca da alma humana: a poesia de Marcial hominem sapit. [tem sabor humano]" (p. 51)

Com uma obra publicada já extensa, na área da literatura latina, Lopes Brandão é professor auxiliar da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e integrou a equipa de especialistas encarregada da tradução integral dos epigramas de Marcial (Epigramas, Marcial, 4 volumes, Edições 70). O leitor interessado poderá ainda ler uma escolha generosa dos epigramas de Marcial, brilhantemente traduzidos, em edição bilingue, pelo poeta Alberto Pimenta (in Telhados de Vidro, n.º 7). Refiram-se ainda os trinta e um epigramas, vertidos por José António Campos, incluídos na esgotadíssima (clamorosa ausência de reedição) Antologia de Poesia Latina Erótica e Satírica, Fernando Ribeiro de Mello (Edições Afrofite, 1975). Nota, ainda, para a selecção poética, em versão de Jorge de Sena, em Poesia de 26 Séculos, I volume, De Arquíloco a Calderón, Editorial Inova, 1971 (várias reedições).

Hugo Pinto Santos
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