em nome da terra
28 de Maio de 2010 ⋅ Livros

Envelhecimento e identidade pessoal

Faustino Vaz
em nome da terra, de Vergílio Ferreira
Lisboa: Quetzal, 1990, 272 pp.

"Deves ter sentido o teu espírito desamparado do teu corpo como uma casa arruinada. Deves ter estado mais só do que no falado abandono do teu Pai. E essa é a solidão maior, porque um corpo é a nossa última companhia."
Vergílio Ferreira, em nome da terra

É duvidoso que se tenha apenas o corpo por companhia quando se envelhece intensamente. A imagem de Virgílio Ferreira, apesar da beleza literária com que se refere à solidão de Cristo, pode não ser plausível. Haverá ainda alguém a quem fazer companhia se nada mais há para além do corpo? Envelhece-se — mas a memória persiste no seu trabalho de articular emoções, acontecimentos, acções e pensamentos do passado com os conteúdos psicológicos do presente. Emergem conexões fortes que formam a continuidade psicológica que caracteriza a identidade pessoal. A personagem central do romance, o senhor doutor juiz de perna amputada na solidão de um lar, faz dessas conexões fortes a sua companhia, e elas são afinal um modo de lembrar o amor de uma vida. O amor por Mónica, que já expirou e de quem teve três filhos, atravessa todas as camadas sobrepostas dessa continuidade psicológica. Que poderá ser ele agora na solidão de um lar? Esse é o modo de sobrevivência da sua identidade: “a companhia que tenho é a memória de ti, para lá do horror e da degradação.” Não se pense, porém, que assim se trava uma luta contra a morte; tecer com a memória uma identidade é antes uma espécie de preparação para a morte, morrendo aos poucos para o mundo “até ficarmos só cheios de nós”.

O romance é uma longa carta do senhor doutor juiz para Mónica. Unir os fios da memória é, na verdade, uma tarefa paciente e cuidadosa. Afinal, se o que conta é a continuidade psicológica de tudo aquilo de que se teve experiência, muitos serão os fios para unir, e muitas serão as articulações que se sobrepõem. E se isso basta para definir a identidade pessoal, talvez não seja relevante se essa identidade implica uma entidade separável. Mónica pode não ter morrido ainda, e pode não ser verdade que a identidade pessoal é sempre determinada. Terá Mónica morrido? Não é seguro que sim nem que não. A certa altura, já depois da demência de Mónica, o nosso juiz pergunta “onde moras?”; insiste: “onde estás?”, para logo sugerir a resposta:

“Com amor ternura, lavo-te. É o teu corpo sem ti. Mas [itálico meu] tenho a memória inteira para te reconstituir ao apelo do meu sofrimento.”

Na longa carta, dois processos parecem estar imbricados. Se um reconstitui Mónica, outro forma a identidade daquele que a recorda. Mónica vive ainda no marido, e este procura agora reconstituir o que perdeu de si na ausência de Mónica. Muitas foram as emoções, as ideias e os projectos partilhados. Vista a esta luz, a ideia de que a identidade pessoal não implica uma entidade separável de modo algum é estranha.

Há mesmo quem afirme que a identidade pessoal não é o que conta. Nesse caso, a unidade que lentamente emerge da continuidade psicológica não exige proprietário. Ela forma-se e explica-se apenas a partir da relação entre as muitas experiências de uma vida, relação que pode ser descrita de maneira impessoal. O resultado talvez seja simplesmente um modo de viver, e não uma certa identidade pessoal. Há disso indícios no romance. A dado momento, o nosso juiz especula sobre o que fará Mónica:

“Não sei se tu te entreténs aí na cova a divagar um pouco sobre o que aconteceu. Eu sim. É um modo de viver em duplicado, vivo a cópia mesmo já um pouco apagada do que foi.”

E como excluir que existam modos de viver em triplicado? Haverá um limite para a replicação? E, havendo, será esse limite conhecível? Estas perguntas sugerem hipóteses que esvaziam a importância da identidade pessoal. Admitindo que são pertinentes, não deixa todavia de ser estranho como se organizam as relações de continuidade psicológica. Uma estranheza que o romance exprime. Na verdade,

“porque diabo estas coisinhas minúsculas nunca se despegam de nós e há outras de grande tamanho, com possibilidades vitais, e que nos largam no caminho? Quem é que vem fazer-nos a selecção? O homem é um ser tão improvável.”

Perdido então o plano geral, se é que de facto há algum, o nosso juiz pergunta finalmente: “quem é que nos organiza este mapa esfarrapado?”.

Mas não importa se o mapa é esfarrapado — e mais ainda o é quando se envelhece intensamente. É certo que se desvanecem conexões psicológicas; outras subsistem, porém:

“e sinto que há gente ainda dentro de mim, o corpo habitado. Mas o desprendimento há-de acontecer. É difícil, mas há-de. O desprendimento é um misticismo ao contrário — ocorreu-me agora isto, não o entendi ainda bem. Porque o máximo da união é o dos místicos, minha Mónica, eles passam-se todos para o lado de Deus. Hei-de passar todo para o lado de mim. Ainda lá não estou, mas vou estar.”

Ora, se os místicos perdem a sua identidade na união com Deus, também esse misticismo ao contrário levará o nosso juiz a perder a sua no lado que é dele. Onde estará ele na improvável sucessão das experiências que viveu?

Uma palavra final de natureza mais directamente bioética, por assim dizer. Esta reflexão, como uma leitura mais atenta já terá percebido, tem implicações nas atitudes perante o envelhecimento e a morte. Do ponto de vista moral, o que realmente conta pode não ser a identidade pessoal. Se isto for verdade, que ética do envelhecimento e da morte é plausível? A resposta a este problema não cabe nesta reflexão. Mas há todo o interesse em saber qual é.

O tema da identidade pessoal é apresentado de maneira muito clara no livro de introdução à metafísica Enigmas da Existência, de Earl Conee e Theodore Sider (Lisboa: Bizâncio, 2010). Thomas Nagel, em The View From Nowhere (Oxford: Oxford University Press, 1986), é uma leitura estimulante, como é estimulante tudo o que escreve. Mas há duas leituras que se destacam: Reasons and Persons, de Derek Parfit (Oxford: Oxford University Press, 1987) — a ele se deve a maior parte dos pressupostos desta reflexão; e The Ethics of Killing: Problems at the Margins of Life, de Jeff McMahan (Oxford: Oxford University Press, 2002). Estas foram as leituras que deram origem à continuidade psicológica de intuições e pensamentos que levaram à reflexão apresentada. Houve um cérebro em que essa continuidade ocorreu e duas mãos que a traduziram em palavras. Que se saiba, nem um cérebro nem duas mãos têm uma qualquer identidade.

Faustino Vaz
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