Música, de Edward Burne-Jones
17 de Maio de 2011 ⋅ Opinião

A Crítica despede-se

Desidério Murcho
Universidade Federal de Ouro Preto

Nascido em 1997 como um mero site pessoal chamado desidério@net (numa altura em que não havia ainda blogs, que tornaram fácil a qualquer pessoa publicar textos na Internet), o que hoje é a Crítica chega agora ao fim, quinze anos depois da sua fundação. A Crítica passou por várias mutações, mas o seu objectivo manteve-se sempre idêntico: a divulgação de textos e livros de filosofia, importantes para professores, estudantes e o grande público.

A concepção de filosofia que sempre animou este espaço era então quase desconhecida nos países de língua portuguesa: uma concepção de filosofia primariamente cognitiva ou científica, que a afasta de discursos hipnóticos que por meio da mandinga verbal visam a hipnose reconfortante do intelecto. Hoje, contudo, graças à Internet, ao preço mais acessível dos livros e a uma certa abertura em Portugal ao que de melhor se faz nas universidades do resto do mundo, só continua a ser filosoficamente provinciano quem não tem curiosidade intelectual — e quem não a tem também certamente não se interessa pelo género de filosofia que a Crítica sempre divulgou. O papel da Crítica, que talvez tenha sido importante, está cumprido. É tempo de passar à frente.

O investimento de tempo e dedicação que a Crítica sempre exigiu não é mais recomendável. Quero fazer outras coisas, preciso de tempo para elas e penso que tenho esse direito. Há quase vinte anos que venho servindo, sobretudo, não os meus interesses pessoais e profissionais, mas os interesses dos jovens estudantes, dos professores, de quem se interessa por filosofia. Penso que já chega. Outros agora que tomem o meu lugar, se alguém decidir fazê-lo.

Quer dirigindo a Filosofia Aberta, quer dirigindo a Crítica, quer dirigindo a Filosoficamente, quer escrevendo livros introdutórios e de divulgação, procurei elevar a cultura filosófica portuguesa. Fi-lo porque cedo me apercebi de que a filosofia tal como realmente era feita nas mais prestigiadas universidades dos países mais desenvolvidos não era conhecida no país; e porque a mim, pessoalmente, e talvez a outros como eu, o género de filosofia dominante nas escolas e universidades portuguesas pura e simplesmente não me interessava. Penso que dei uma contribuição modesta para mostrar que há alternativas para quem as quiser seguir.

Portugal é desde há vários séculos um dos países culturalmente mais atrasados da Europa. Isso tem consequências desastrosas, criando um sistema de realimentação que nos faz ficar no mesmo sítio. O sistema de realimentação é este: muito jovens como eu, que se interessavam por áreas como a ciência ou a filosofia, viam-nas como coisas que se faziam apenas no estrangeiro, pois o contacto que tínhamos nas escolas com elas era, na melhor das hipóteses, caricatural — e muitas vezes nenhum. No meu caso, a maior parte da formação científica e literária que tenho, porque desde jovem me interessei por ciência e literatura, não a ganhei na escola, mas lendo livros de autores estrangeiros. E o mesmo no que respeita à filosofia. O efeito que isto tem é afastar dessas áreas precisamente os jovens que seria normal que a elas se dedicassem, o que realimenta as instituições com pessoas cujo real interesse nessas áreas é nulo ou próximo disso. E onde falta a paixão, falta a qualidade do trabalho intelectual, ainda que seja verdade que a paixão não basta para fazê-lo bem.

Tivesse eu hoje 17 anos e a ideia de ser cientista já não me encheria de tédio, pensando que acabaria por ficar mais ou menos igual aos meus professores de ciências. Isto porque no caso da matemática, física, biologia ou química, temos hoje bons cientistas portugueses, iguais aos cientistas das melhores universidades de outros países. E precisamente por serem cientistas competentes e informados, comprometidos e apaixonados pela sua área, publicam maravilhosos livros de divulgação, que certamente atraem jovens curiosos para as suas universidades. É o caso de Jorge Buescu, Carlos Fiolhais e Nuno Crato, entre — felizmente — muitos outros. A ciência, em Portugal, atingiu a excelência académica.

Infelizmente, isso não acontece no caso da filosofia. O atraso continua a ser gritante e estamos ainda longe dos países mais desenvolvidos. Além disso, a paixão de comunicar e divulgar a filosofia aos mais jovens e ao grande público não só não existe como não é particularmente bem vista. Mas já estivemos mais longe, no caso da filosofia. Talvez um dia lá cheguemos, talvez um dia tenhamos professores universitários portugueses de filosofia como existem noutros países mais desenvolvidos — professores que escrevem livros introdutórios de grande qualidade, ao mesmo tempo que têm sólidos currículos académicos.

A cultura académica portuguesa sofreu uma revolução profunda nos últimos vinte anos — mas essa revolução tarda a chegar à filosofia. De departamentos sem contacto com a vida académica internacional, cuja falta de qualidade só competia com a pretensão da linguagem e a opacidade do ensino, passámos gradualmente, pela mão de vários jovens cientistas portugueses, a departamentos semelhantes aos que existem noutras partes menos desfavorecidas do planeta: centros vibrantes de paixão intelectual, onde a criatividade, aliada ao máximo rigor, é cultivado. No caso da filosofia ainda estamos noutros tempos, em que a opacidade e falta de qualidade do ensino, assim como o desconhecimento das bibliografias actuais, contrasta com a atitude emproada e pretensiosa. Em filosofia, publicar é ainda quase exclusivamente uma coisa que se faz para preencher um currículo, porque a isso obrigam as instituições; não é algo que se faz com a paixão de comunicar com as pessoas, com a paixão de discutir ideias, com a vontade de dar uma modesta mas sólida contribuição para que fiquemos todos melhor. O dilema do prisioneiro, no caso da filosofia, ainda não teve um desfecho feliz: onde cada qual só pensa em si e no seu currículo pessoal, nada dando em troca à profissão que lhe dá um emprego, todos ficamos pior porque a profissão, ironicamente, persiste no amadorismo.

Em qualquer caso, graças a iniciativas como a Crítica, entre muitas outras, pelo menos uma coisa parece certa: fosse eu hoje novamente o jovem que fui quando tinha 17 anos, teria à minha disposição muitíssima mais informação de qualidade sobre a filosofia do que tive no meu tempo. Isso ter-me-ia permitido perder menos tempo do que perdi, e ter-me-ia permitido descobrir mais cedo a minha paixão.

Cometi certamente muitos erros ao longo destes quinze anos na direcção da Crítica, pelos quais peço desculpa. Nunca tive outras intenções que não discutir ideias, porque as ideias me apaixonam, e divulgar uma maneira de fazer e ensinar filosofia pouco conhecida entre nós. Se esse trabalho foi útil para alguém, cumpriu-se o que se visava. Se foi apenas uma imensa perda de tempo, penso que não terei prejudicado ninguém excepto a mim mesmo. Gostaria que as novas gerações de apaixonados pela filosofia ganhassem do meu trabalho de ensino e divulgação pelo menos duas lições. A paixão pela discussão genuína e sem peias de ideias filosóficas, que se opõe ao academismo estéril em que se finge discutir só para cumprir o dever, e a exigência de máximo rigor, máxima precisão, máximo domínio de todos os aspectos relevantes para o tema que estamos discutindo ou estudando, o que se opõe à infeliz cultura académica que consiste em simular que se sabe do que se fala, quando na realidade só se tem disso ideias vagas.

Resta-me agradecer a todos os que colaboraram com a Crítica, fazendo traduções, escrevendo textos importantes para estudantes e professores, ajudando a pagar as despesas. E, nos últimos anos, devemos agradecimentos a Rolando Almeida, pelo máximo profissionalismo com que desempenhou a função de assistente editorial, assim como a José Oliveira, que voluntariamente mantém e continuará a manter a presença da Crítica no Facebook. A todos, muito obrigado.

A Crítica continuará online indefinidamente, enquanto a publicidade das suas páginas gerar receitas suficientes para pagar as despesas com o domínio e o servidor. Não há planos para a eliminar da Internet; e se a isso formos forçados, os leitores serão atempadamente informados.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
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