5 de Julho de 2015   Filosofia da religião

Da superstição e do entusiasmo

David Hume
Tradução de Eliana Curado

Que a corrupção do melhor gera o pior tornou-se uma máxima comumente demonstrada, entre outros exemplos, pelos efeitos perniciosos da superstição e do entusiasmo, as corrupções da religião verdadeira.

Estas duas espécies de falsa religião, apesar de serem ambas perniciosas, são bastante distintas e mesmo de natureza contrária. A mente humana está sujeita a certos temores e apreensões inumeráveis, procedentes ou de uma situação infeliz em assuntos públicos e privados, ou de problemas de saúde, ou de uma disposição sombria e melancólica, ou do concurso de todas essas circunstâncias. Em tal estado de espírito a mente é tomada por uma infinidade de males e temores desconhecidos, derivados de agentes desconhecidos. Quando os objetos reais de temor são escassos, a alma, ativa em prejuízo próprio e alimentando a sua inclinação predominante, cria objetos imaginários, para cujo poder e malevolência não encontra limites. Como estes inimigos são inteiramente invisíveis e desconhecidos, os métodos empregados para apaziguá-los são igualmente incompreensíveis e consistem em cerimônias, observâncias, mortificações, sacrifícios, presentes, ou em qualquer prática, ainda que absurda ou frívola, em que o desatino ou a malícia recomenda uma credulidade cega e amedrontada. A fraqueza, o medo, a melancolia, juntamente com a ignorância, são, pois, as verdadeiras fontes da superstição.

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Mas a mente humana sujeita-se também a uma incompreensível exaltação e presunção, oriunda da prosperidade, da saúde luxuriante, de espíritos fortes, ou de uma disposição ousada e confiante. Neste estado de espírito, a imaginação se inflama com concepções grandiosas, mas confusas, às quais nenhuma beleza sublunar ou alegrias podem corresponder. Tudo que é mortal e perecível desaparece, como pouco digno de atenção. Segue-se uma série completa de fantasias de regiões invisíveis ou do mundo dos espíritos, onde a alma é livre para satisfazer-se com tudo que imagina, e que possa melhor se adequar ao gosto e à disposição atual. Assim, eleva-se em êxtase, transportes e vôos surpreendentes de fantasia. A confiança e a presunção aumentam estes arrebatamentos incompreensíveis, que parecem estar além do alcance de nossas faculdades ordinárias e são atribuídos à inspiração imediata do Ser Divino, objeto de devoção. Em pouco tempo, a pessoa inspirada chega a considerar-se um favorito ilustre da Divindade e, quando tomada por este frenesi, o ápice do entusiasmo, todo capricho é consagrado: a razão humana, e mesmo a moralidade, são rejeitadas como guias falaciosos. A loucura fanática se entrega, cegamente e sem reserva, ao suposto arrebatamento do espírito e à inspiração derivada do mundo superior. A esperança, o orgulho, a presunção, uma calorosa imaginação, juntamente com a ignorância, são, portanto, as verdadeiras fontes do entusiasmo.

Estas duas espécies de falsa religião podem dar ensejo a muitas especulações, mas eu devo me restringir, no momento, a poucas reflexões concernentes à sua influência distinta no governo e na sociedade.

A minha primeira reflexão é que a superstição é favorável ao poder sacerdotal, e o entusiasmo não é menos contrário a ele, ou melhor, mais contrário que a boa razão e a filosofia. Como a superstição se assenta no medo, no sofrimento e em um abatimento do espírito, ela representa o homem para si mesmo em cores tão desprezíveis que ele se julga indigno da presença divina, e naturalmente tem de recorrer a alguma outra pessoa, cuja santidade ou vida, ou talvez imprudência e astúcia, o tornaram supostamente mais favorecido pela Divindade. A ele se dirigem as devoções das superstições: a seu cuidado recomendam-se orações, petições e sacrifícios. Por seu intermédio, têm-se esperança de oferecer súplicas aceitáveis às divindades honradas com incenso. Eis a origem dos Sacerdotes,1 a quem se pode com justiça granjear a invenção de uma superstição medrosa e abjeta que, mesmo envergonhada de si mesma, não ousa oferecer as suas próprias devoções, mas de forma ignorante pensa em recomendar-se a si mesma ao Divino, pela mediação de seus supostos amigos e servos. Como a superstição é um ingrediente considerável em quase todas as religiões, mesmo as mais fanáticas, não havendo coisa alguma exceto a filosofia que seja inteiramente capaz de vencer estes incontáveis temores, segue-se que em quase toda a seita religiosa pode-se encontrar sacerdotes. Quanto mais forte for a mistura de superstição, mais alta é a autoridade sacerdotal.2

Por outro lado, observa-se que os entusiastas têm sido livres do jugo dos eclesiásticos, manifestando grande independência em sua devoção, com o desprezo pela formalidade, pelas cerimônias e pelas tradições. Os quacres são os mais notáveis. Em contrapartida, são também os mais inocentes entusiastas de que já se ouviu falar e, talvez, os representantes da única seita que nunca admitiu sacerdotes em seu meio. Os independentes, entre todas as seitas inglesas, se aproximam dos quacres em fanatismo e em sua independência da opressão sacerdotal. Os presbiterianos vêm logo em seguida, em igual distância em ambos os casos. Esta observação deriva da experiência, mas parecerá fundada na razão se considerarmos que, à medida que os entusiastas surgem de uma presunção orgulhosa e confiante, julgam-se suficientemente qualificados para se aproximarem do Divino, sem qualquer mediador humano. As suas devoções arrebatadoras são tão fervorosas que chegam a imaginar-se próximos ao Divino pela via da contemplação e do diálogo interior, o que os leva a negligenciar as cerimônias e observâncias externas, às quais a assistência de sacerdotes parece tão necessária aos olhos dos seus devotos supersticiosos. O fanático consagra-se a si mesmo e outorga-se um caráter sagrado, muito superior àqueles que as instituições formais e cerimoniais podem conferir a qualquer outro.

A minha segunda reflexão com relação a estas espécies de falsa religião é que as religiões que partilham do entusiasmo são, em um primeiro momento, mais furiosas e violentas que aquelas que partilham de superstições; mas em pouco tempo se tornam mais gentis e moderadas. A violência desta espécie de religião, quando excitada pela novidade e animada pela oposição, prova-se com incontáveis exemplos: os anabatistas da Alemanha, os camisars da França, os levellers e outros fanáticos na Inglaterra e os covenanters na Escócia. Apoiando-se o entusiasmo em disposições ferrenhas e em um presunçoso atrevimento de caráter, ele promove naturalmente as resoluções mais extremadas, especialmente depois de se elevar àquela altura, a fim de inspirar o fanático iludido com a convicção de ser iluminado pelo Divino e com o desprezo pelas regras comuns da razão, da moralidade e da prudência.

É assim que o entusiasmo produz as mais cruéis desordens na sociedade humana; mas sua fúria é semelhante à do trovão e da tempestade, que se esgotam em pouco tempo, e deixam o ar mais calmo e puro que antes. Quando o primeiro fogo do entusiasmo arrefece, os homens, em todas as seitas fanáticas, entregam-se à indolência e indiferença em assuntos sagrados. Não há um grupo entre eles que seja dotado de suficiente autoridade e cujo interesse esteja voltado para o apoio ao espírito religioso. Não há rituais, cerimônias ou observâncias sagradas que possam ser inseridos na trilha da vida comum, a fim de serem preservados do esquecimento. A superstição, pelo contrário, infiltra-se gradual e insensivelmente, fazendo que os homens se tornem dóceis e submissos. A princípio, parece aceitável aos magistrados e inofensiva ao povo, até que finalmente o sacerdote, tendo estabelecido firmemente sua autoridade, se torne um tirano e perturbador da sociedade humana, por suas contendas sem fim, perseguições e guerras religiosas. Foi com suavidade que a igreja Romish avançou na aquisição de poder? Em que funestas convulsões lançou toda a Europa, a fim de mantê-lo? Por outro lado, os nossos sectários, que haviam sido antes fanáticos perigosos, agora se tornaram livres-pensadores, e os quacres parecem ter-se aproximado do único grupo regular de deístas do universo, os literati, ou discípulos de Confúcio na China.3

A minha terceira observação sobre este assunto é que a superstição é um inimigo da liberdade civil, e o entusiasmo é seu amigo. Porque a superstição ruge sob o domínio dos sacerdotes e o entusiasmo destrói o poder eclesiástico, isto já é suficiente para justificar a presente observação. Para não mencionar que o entusiasmo, enfermidade de temperamentos ambiciosos e ousados, é naturalmente acompanhado de um espírito de liberdade, enquanto a superstição, ao contrário, torna os homens dóceis e abjetos, e os habilita à servidão. A história da Inglaterra nos ensina que, durante as guerras civis, os independentes e os deístas, apesar de grandes opositores em seus princípios religiosos, aproximavam-se em seus princípios políticos, e eram ambos apaixonados pelo bem comum. Desde a origem dos whig e tory, os líderes dos whigs têm sido deístas ou tolerantes professos em seus princípios; isto é, amigos da tolerância, e indiferentes a qualquer seita particular de cristãos. Por outro lado, os sectários, todos com uma forte matiz de entusiasmo, têm sempre, sem exceção, concorrido por aquele partido, em defesa da liberdade civil. Uma semelhança em suas superstições há muito tempo vem unindo o alto clero dos tories e os católicos romanos, em apoio de prerrogativas e poder real, embora a experiência do espírito tolerante dos whigs pareça ter tardiamente reconciliado os católicos com aquele partido.

Os molinistas e os jansenistas na França participam de mil disputas ininteligíveis, que não valem a reflexão de um homem de senso: mas o que principalmente distingue estas duas seitas e merece atenção por si só, é o espírito único desta religião. Os molinistas,conduzidos pelos jesuítas,são grandes amigos da superstição, observadores rígidos de formalidades e cerimônias e devotos à autoridade dos sacerdotes e à tradição. Os jansenistas são entusiastas e promotores zelosos da devoção apaixonada e da vida interior, tendo sido pouco influenciados pela autoridade. Numa palavra, meio católicos. As conseqüências são exatamente conformáveis ao raciocínio precedente. Os jesuítas são os tiranos dos povos, e os escravos da corte: e os jansenistas preservam vivas pequenas centelhas do amor à liberdade, que se encontra na nação francesa.

David Hume

Retirado de Essays: Moral, Political, and Literary (1741)

Notas

  1. Por Sacerdotes, eu me refiro aqui somente àqueles que fingem poder e domínio, e santidade superior de caráter, distintos da virtude e da boa moral. Estes são muito diferentes dos clérigos, que são destinados por lei ao cuidado de questões sagradas e à condução de nossas devoções públicas com decência e ordem. Não há homens mais respeitáveis que os últimos.
  2. O judaísmo moderno e o papado (especialmente o último), as mais absurdas e não-filosóficas superstições que já se conheceu no mundo, são os mais escravizados por seus sacerdotes. Enquanto pode-se dizer com justiça que a igreja da Inglaterra conserva alguma mistura de superstição papista, ela partilha também, em sua constituição original, de uma propensão ao poder e ao domínio sacerdotal, particularmente no que diz respeito à exata personagem sacerdotal. Apesar disso, de acordo com os sentimentos desta igreja, as orações do sacerdote devem ser acompanhadas com as da laicidade; ainda assim, ele é a voz da congregação. Sua pessoa é sagrada e sem sua presença poucos pensariam em devoções públicas, ou em sacramentos e em outros rituais que sejam aceitáveis para a divindade.
  3. Os Literati Chineses não têm sacerdotes nem instituição eclesiástica.

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