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30 de Abril de 2013   Filosofia

Um debate vivaz e contemporâneo

Nelson Gonçalves Gomes
Universidade de Brasília
Filosofia em Directo
Filosofia em Directo
de Desidério Murcho
Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2011, 104 pp.
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Este livro parte de dois pressupostos. O primeiro é a premissa de que vale a pena tratar de questões filosóficas. O segundo é a hipótese de que é possível tratá-las por meio de argumentos, deixando aos historiadores da filosofia a legítima tarefa de trabalhar textos.

O avassalador progresso das ciências naturais ao longo dos séculos XIX e XX trouxe para muitos a convicção de que a filosofia estaria obsoleta, depois de perder os seus temas de outrora para as novas formas de conhecimento. Ao fim e ao cabo, o que restaria à metafísica após o surgimento da física, da química e da biologia, o que sobraria à ética após a instituição das ciências sociais, o que caberia à teoria do conhecimento após a chegada da psicologia? Este ceticismo, porém, não é aplicável à história da filosofia, a única remanescente dos orgulhosos estudos especulativos de antanho. Nessa linha de pensamento, mesmo que as doutrinas filosóficas estejam ultrapassadas, é fato que o filósofo x defendeu a tese y e que o pensador z foi leitor de x. Segue-se daí que a história da filosofia seria o que ainda nos resta, porquanto quem insiste em falar validamente de filosofia deveria admitir a identidade entre ela e a sua história. Logo, os únicos argumentos filosóficos ainda admissíveis seriam aqueles apresentados por autores de textos do passado, a serem examinados hoje como peças dotadas de valor arqueológico.

Filosofia Directamente é um livro que milita contra essa posição, pois discute questões filosóficas presentes no cotidiano. A seleção de seus temas começa por tópicos de caráter político-social (democracia, liberdade), passa pela ética e pela metafísica (autonomia, valor, sentido, realidade, contingência) e vai concluir-se na teoria do conhecimento (raciocínio, verdade). Tópicos como esses têm a ver com questões espontâneas que as ciências não abrangem. O governo pode resolver os problemas da sociedade sem o seu consentimento? Até que ponto a autoridade pode impor limites à ação dos indivíduos? A minha preferência individual é a base de todos os valores? Se Deus não existe, tudo é permitido? Como relacionar realidade e aparência? Podemos ter certezas infalíveis? Perguntas desse tipo estão ao alcance das pessoas e podem ser discutidas de maneira inteligente, mesmo sem o emprego de métodos sofisticados de raciocínio. O que o livro pretende fazer é apresentar questões filosóficas no nível introdutório, mas de maneira potencialmente participativa. Quem assiste a debates ao vivo pode neles tomar parte.

Uma vez concluída a etapa introdutória, entretanto, o interessado terá de progredir dedicando-se à literatura mais avançada, pois a filosofia não se dissolve no debate popular. Por isso mesmo, o livro contém sugestões para leituras posteriores.

A grande contribuição do Prof. Desidério Murcho é fornecer neste trabalho um exemplo concreto de questões filosóficas tratadas por meios argumentativos cotidianos. As suas tomadas de posição estão abertas à crítica, mas é precisamente isso que ele quer obter: um debate argumentativo vivaz e contemporâneo.

Nelson Gonçalves Gomes

Sobre o autor

Desidério Murcho nasceu em 1965. É professor de Filosofia na Universidade Federal de Ouro Preto, no Brasil, e autor dos livros Essencialismo Naturalizado (2002), O Lugar da Lógica na Filosofia (2003) e Pensar Outra Vez (2006), tendo ainda organizado Viver Para Quê? Ensaios Sobre o Sentido da Vida (2009), A Ética da Crença (2010) e Por Que Escrevo e Outros Ensaios, de George Orwell (2008), entre outros. Traduziu os livros Lógica: Um Curso Introdutório, de W. H. Newton-Smith (1998), A Última Palavra, de Thomas Nagel (1999), Os Problemas da Filosofia, de Bertrand Russell (2008) e Um Mundo Sem Deus: Ensaios sobre o Ateísmo, dir. Michael Martin (2010). É autor de manuais de filosofia para o ensino secundário.

Excerto

Há quem pense que, sem Deus, tudo seria permitido. Isto não implica mas sugere que o dever consiste exclusivamente em obedecer à vontade de Deus, sem o qual nenhum valor objectivo haveria. Que há alguma confusão nesta ideia torna-se claro assim que se sai das afirmações pomposas e passamos a falar de um caso particular. O que esta ideia significa, na realidade, é que a razão pela qual não devo agredir o Palma Cavalão, por exemplo, nada tem a ver com ele mas antes com Deus. É difícil conceber uma forma mais radical de incompreensão do pensamento ético. Na realidade, quem for incapaz de compreender que é devido a ele que não devo agredi-lo, pensando ao invés que não o devo fazer porque isso desagrada a Deus, é incapaz de pensamento ético.

Um pobre substituto do pensamento ético é o medo do castigo e a esperança da recompensa. Exteriormente, em termos das suas consequências práticas, pode não haver diferença em alguns casos: quando precisamos da ajuda de alguém por estarmos a morrer afogados, tanto nos faz que essa pessoa nos ajude devido a nós ou devido a Deus. Mas daí não se conclui que não exista uma diferença profunda. Essa diferença pode não caracterizar a acção em si, mas caracteriza certamente a pessoa que age. Quem se inibe de agredir o Palma Cavalão não devido a ele mas por ter medo do castigo, divino ou outro, tem um perfil muito diferente de quem não o agride devido ao Palma Cavalão, e não por medo de qualquer castigo, divino ou não.

Se a razão pela qual temos o dever de fazer certas coisas e de nos abster de outras não é Deus, o que será? Qual é o fundamento do dever? Qual é o fundamento do valor?

Preferências

Quem pensa que, sem Deus, tudo é permitido, não pensa, com certeza, que precisa de Deus para ter uma razão para beber água quando tem sede. Neste caso, a razão para beber água é ter sede. Ter sede é ter um certo tipo de preferência por beber água — com origem, neste caso, numa necessidade biológica elementar. No entanto, não basta ter uma preferência para ter uma razão para satisfazer essa preferência. Isto porque podemos ter outras preferências incompatíveis com a primeira. Temos razão para satisfazer uma preferência depois de reflectir e tomar em consideração outras preferências relevantes. Por exemplo, uma pessoa tem a preferência de ficar a dormir até tarde; mas tem também a preferência de começar de manhã cedo uma longa viagem. Se ficar na cama, não poderá satisfazer a segunda preferência.

Uma parte importante da sabedoria consiste em ser proficiente no raciocínio prudencial, que diz respeito precisamente à capacidade para pesar cuidadosamente as nossas diversas preferências, estabelecendo prioridades que se revelam acertadas com o tempo. Entre outras coisas, o raciocínio prudencial faz-nos descontar a força de uma preferência momentânea mas com previsíveis consequências adversas, contrastando-a com a força de uma preferência futura — que, a falar verdade, não temos agora, mas temos boas razões para crer que teremos. Por exemplo, uma pessoa pode ter agora uma preferência por ir jantar ao mais caro restaurante da cidade, mas descontar essa preferência pela preferência futura de jantar ao longo do resto da semana — sendo que se jantar hoje nesse restaurante, não terá dinheiro para jantar nos outros dias.

Estes casos simplistas são enganadores. Fossem todos assim tão simples e o raciocínio prudencial seria banal. Há dois aspectos pelo menos que tornam o raciocínio prudencial difícil. Primeiro, podemos enganar-nos quanto às preferências que teremos: podemos crer que daqui a dez anos teremos uma forte preferência por algo que agora lutamos para conseguir obter, e depois descobrir com muita consternação, ao obtê-la, que afinal não é assim tão importante para nós. Segundo, podemos enganar-nos quanto às consequências do que escolhemos fazer agora. Em ambos os casos, confrontamo-nos com a nossa falibilidade.

Assim, as preferências não nos oferecem razões simples e automáticas para as satisfazermos; exigem raciocínio cuidadoso. Mas estão na sua base. A razão última para satisfazer uma preferência irá sempre incluir o facto de ser uma preferência.

As nossas preferências não são também irrevogáveis. Podemos não preferir algo e ver que era uma boa ideia preferi-lo, depois de raciocinar cuidadosamente, ou preferir algo e ver que era uma boa ideia não o preferir. As nossas preferências não são independentes do nosso raciocínio, nem imunes a ele, porque não somos autómatos. Podemos não ter uma capacidade irrestrita para passar a preferir voluntariamente o que antes não preferíamos, ou para deixar de preferir o que preferíamos, mas temos sem dúvida uma capacidade modesta para avaliar judiciosamente as nossas preferências e para nos aproximarmos gradualmente das preferências que, em função disso, vemos que são razoáveis.

Quem pensa que, sem Deus, tudo seria permitido, considera que as nossas preferências não são suficientes para fundamentar o dever. Mas considera que as preferências de Deus o são. Interpretada literalmente, a ideia é implausível. Se a minha preferência, depois de passar pelo crivo do pensamento prudencial cuidadoso, não fundamenta o dever, a preferência de Deus ainda menos o poderia fazer. Se a minha preferência por beber água não me dá uma razão para beber água, a preferência de Deus não pode dar-me uma razão para a beber. Isto porque ou a preferência de Deus pela água é arbitrária, e nesse caso não me dá razão alguma para beber água precisamente por ser arbitrária, ou é razoável, e nesse caso é por ser razoável que me dá uma razão para beber água e não por ser uma preferência de Deus.

Para ser plausível, a ideia de que as preferências de Deus fundamentam o dever tem de ser reinterpretada. A ideia plausível é que um ser sumamente sábio saberá ver que preferências são realmente razoáveis. Esse ser será imune à ilusão humana, que nos faz preferir agora o que mais tarde consideramos desprezível, ou vice-versa. Além disso, sendo sumamente bom, esse Deus não quererá que agridamos alguém injustamente, devido a essa mesma pessoa. E nós teríamos então o dever de não a agredir devido a ela, e não apenas devido a Deus, sendo o desagrado deste apenas um indicador de que algo de errado estaríamos a fazer.

Contudo, nesta versão da ideia não é verdadeiro que sem Deus tudo seria permitido, mas antes que sem Deus não teríamos alguém infalível para nos ajudar a distinguir o que é realmente preferível do que apenas parece que o é. Mesmo sem Deus, continuaríamos a ter preferências. E se são estas preferências o fundamento do dever, a inexistência hipotética de Deus não significaria que tudo era permitido.

Ter uma preferência é valorizar, e ambas são actividades humanas inevitáveis. E não só humanas: são também inevitáveis para qualquer ser que tenha um certo grau de sofisticação cognitiva. Ao valorizar e preferir, podemos fazê-lo melhor ou pior, tendo mais ou menos consciência do que fazemos, e podemos certamente errar muitas vezes, valorizando e preferindo o que depois descobrimos serem ilusões. Mas não podemos evitar valorizar e preferir, porque valorizar e preferir são constitutivas da acção e do pensamento.

Conclui-se daqui que quem declara que “hoje não há valores” está mergulhado em confusão. Há valores hoje como havia há duzentos anos e como haverá daqui a mil anos, se continuar a haver seres humanos ou outros seres capazes de valorizar coisas — porque quem é capaz de valorizar, é incapaz de não valorizar. Não podemos evitar valorizar umas coisas e não outras. Quem declara que não há valores, quer na verdade dizer que a maior parte das pessoas valorizam o que ele não valoriza e não valorizam o que ele valoriza. Mas se começar por nem saber exprimir cuidadosamente o que pensa, é porque não valoriza o pensamento rigoroso — algo que seria avisado valorizar.

Índice

Prefácio

  1. Democracia
  2. Liberdade
  3. Autonomia
  4. Valor
  5. Sentido
  6. Realidade
  7. Contingência
  8. Raciocínio
  9. Verdade

Conclusão
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