Discussão, democracia e perversão
Desidério MurchoA discussão pública é importante porque é a única maneira que temos de descobrir a verdade. Somos todos seres falíveis e por isso erramos muitas vezes. Muitas das nossas crenças mais queridas revelam-se falsas. A única maneira que temos de aumentar a proporção de crenças verdadeiras é submetê-las à discussão pública. Mas de nada adianta discutir se não discutirmos com probidade intelectual, com boa vontade e honestidade. Este processo de descoberta da verdade só funciona se cada um de nós enfrentar com boa vontade a discussão de ideias. Isto significa que não vamos para a discussão para “ganhar,” mas para descobrir.
Infelizmente, não é assim que é comum entender a discussão de ideias. Pessoas que gostariam de pensar que são democratas e defensores da liberdade de expressão não conseguem realmente conceber o que é a liberdade de expressão e a democracia, entendendo a segunda como a ditadura da maioria e a primeira como gritaria simiesca. Estas pessoas concebem a discussão pública como gritaria pública — cada qual grita palavras de ordem o mais alto que pode, como num comício — e a ideia insustentável é que da cacofonia de vários gritos diferentes surgiria a sensatez. Isto é um pensamento tão melancólico quanto esperar que vários médicos que discordam quanto ao diagnóstico conseguem salvar um doente se desatarem a gritar entre eles.
A discussão pública, se não for dotada de probidade intelectual, de nada vale. É apenas mais uma das muitas frivolidades humanas, como o futebol, a novela ou os despiques infantis dos políticos que fazem as notícias dos jornais diários. O objectivo da discussão pública é descobrir que ideias são mais plausíveis; e isso só se descobre se todas as ideias forem levadas a sério e discutidas distanciadamente. Se as ideias que consideramos ofensivas, inaceitáveis ou absurdas não forem seriamente discutidas, é porque estamos a pressupor a nossa própria infalibilidade — infalibilidade que nos permite dizer com absoluta certeza que tais ideias são inaceitáveis ou absurdas. Claro que isto é uma ilusão, e no fundo estas pessoas têm medo de não ter razão, e de isso se vir a descobrir se a discussão for aberta e honesta. O truque então é encontrar uma maneira de eliminar a discussão fingindo que não estamos a eliminá-la, e isso faz-se desviando o assunto — passa-se a discutir outra coisa, mais confortável e menos perigosa.
Esta visão da discussão pública é uma ameaça à democracia, pois só vale a pena ter democracia se esta se basear numa noção virtuosa de discussão pública. O fundamento da democracia é a ideia historicamente revolucionária — mas banal se pensarmos nela um pouco — de que todos os grandes ditadores, todos os reis absolutistas, todos os estadistas reverenciados pelas multidões são pessoas como nós e como nós estão sujeitos ao erro — de modo que é uma ilusão infantil pensar que eles têm um acesso privilegiado à verdade, estando por isso isentos da chatice que é discutir ideias pacientemente com os outros, para ver se resistem à discussão ou se pelo contrário se revelam ilusões.
A democracia e a liberdade de expressão são hoje comuns e infelizmente ninguém surge para as pôr explicitamente em causa — e é por isso mesmo que tantas pessoas têm ideias tão erradas sobre os fundamentos de ambas. Mas é precisamente este consenso que ameaça a democracia e a liberdade de expressão, que ficam aos poucos desvirtuadas, transformando-se em meras imitações de contrabando, perdendo-se o artigo genuíno. O populismo substitui a genuína democracia e a gritaria substitui a discussão pública e é tanto mais difícil defender a democracia e a liberdade de expressão quanto mais as pessoas pensam que não têm falta de qualquer delas. Descartes escreveu que por toda a gente pensar, ilusoriamente, que tem bom senso, este é o bem que parece mais amplamente distribuído pela humanidade, pois ninguém se queixa de ter falta dele — apesar de na verdade ser um dos bens mais escassos.
A comunicação global que a Internet permite ampliou o problema. Quem concebe a discussão pública como um despique para ver quem consegue gritar mais alto usa então os blogs para gritar e arregimentar outros gritadores, imitando a discussão genuína de ideias porque afinal de contas não se pode escrever artigos só com gritos e muitos pontos de exclamação. Quem tem uma concepção hobbesiana da vida política usa a Internet para arregimentar partidários, pois ganha-se politicamente em função do número bruto de evangelizadores que se conseguir granjear. Neste sentido, a Internet não aprofunda a democracia nem a liberdade de expressão — limita-se a amplificar a incompreensão profunda destes conceitos — e é tanto mais perigosa porque parece fazer precisamente isso.
O que está em causa é a diferença radical entre entender a discussão pública de ideias como instrumento de descoberta da verdade ou como forma de comício para arregimentar partidários que, se forem muitos, conseguem impor a sua vontade aos outros. Isto baseia-se na noção errada de que, se uma maioria aceitar uma ideia, tem o direito de a impor aos outros; todavia, como escreveu Mill,
se todos os seres humanos, menos um, tivessem uma opinião, e apenas uma pessoa tivesse a opinião contrária, os restantes seres humanos teriam tanta justificação para silenciar essa pessoa, como essa pessoa teria justificação para silenciar os restantes seres humanos, se tivesse poder para tal.