30 de Dezembro de 2008 ⋅ Opinião

Ditadura de alabastro

Desidério Murcho
Universidade Federal de Ouro Preto

Vive-se hoje um fenómeno social e político que corrói insidiosamente a liberdade de expressão. Certas opiniões estão proibidas, confundindo-se a liberdade de as exprimir com a nossa concordância ou com a sensatez ou plausibilidade dessas ideias. Ora, o núcleo da liberdade de expressão é a liberdade para os outros dizerem não apenas o que consideramos inocuamente falso, mas também o que consideramos gravemente falso, inadmissível, ofensivo, perigoso e indesejável. Se a liberdade de expressão não for isso, é como a pseudo-igualdade da Quinta dos Animais, de Orwell: todos os animais são iguais, mas uns são mais iguais do que outros.

A vida política contemporânea é feita de mentiras, e nesse aspecto talvez não se distinga da vida política do passado. Ora, a mentira alimenta-se e é alimentada por este clima de policiamento do pensamento e da expressão. Dado que uma pessoa com mentalidade medieval e que acredita em fantasmas, como o papa, não pode dizer o que realmente pensa dos homossexuais, fala por meias-palavras — que mesmo assim são imediatamente proibidas pelos homossexuais, que também não se atrevem a dizer o que realmente pensam do papa.

Este tipo de atitude resulta de uma recusa infantil em ver a realidade tal como é. E a realidade é que há pessoas como o papa, há homossexuais, há machistas e racistas e xenófobos, há militaristas e criacionistas e gente que acredita em espíritos e na alquimia e que a Terra é plana. A humanidade é assim mesmo. Ora, se começarmos a policiar o pensamento alheio, mostrando-nos muito ofendidos e dizendo que certas afirmações feitas por certas pessoas são "muito graves" ou "intoleráveis", não estamos a explicar por que razão tais afirmações são falsas; estamos apenas a fugir do assunto, dizendo que é intolerável um chefe de estado ou um juiz afirmar que os negros são inferiores ou que as mulheres estão logo acima das focas mas ligeiramente abaixo dos cães.

Na verdade, uma das tarefas mais importantes e difíceis de um professor é criar um clima na aula em que os estudantes se sintam completamente descontraídos para dizer o que realmente pensam. Isto é crucial porque sem esse clima o professor não tem oportunidade para corrigir incompreensões, erros e tolices — sendo que alguns dos erros e tolices serão dele e dos livros que ele usa e não dos estudantes. Ora, na vida política contemporânea adoptou-se esta postura de considerar certas opiniões tabus inconfessáveis, impedindo-se assim a sua discussão cuidadosa e descontraída. A própria impaciência que se vê em muitos debates denuncia esta postura, pois manifesta o desejo inconfessado de livrar o mundo daquela pessoa que defende aquelas ideias, e de fazer um paraíso sem elas.

Mas ninguém consegue conceber um paraíso. E quando certas ideias, que de facto muitas pessoas albergam no seu íntimo, não podem ser livremente expressas e discutidas por serem consideradas ofensivas e graves, estamos com certeza mais próximos de uma distopia orwelliana do que de um paraíso.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Publicado no jornal Público (30 de Dezembro de 2008)
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