O Pensamento, de Arlette Steenmans (n. 1958)
Filosofia

Divulgar a filosofia, estimular o pensamento

Desidério Murcho

Como é natural, as minhas opiniões sobre o ensino e a divulgação da filosofia devem ser criticamente avaliadas por si — e deve ter em mente que diferentes pessoas têm diferentes ideias sobre a natureza da filosofia e consequentemente sobre o seu ensino e divulgação. O leitor deve procurar expor-se às várias opiniões para que possa formar a sua própria opinião informada e crítica. As minhas palavras procuram ajudá-lo a atingir esse objectivo. Mesmo que discorde das minhas opiniões, ficarei amplamente satisfeito; o importante é permitir que forme a sua opinião, com base em dados abundantes e fidedignos.

Defendo que a filosofia é um conjunto de problemas, teorias e argumentos. O leitor pensará que esta definição é tão lata que será pacífica, mas engana-se: muitas pessoas discordam até desta caracterização, pelo menos na sua prática, ainda que a aceitem em teoria. No entanto, não vou defender aqui esta ideia; quero apenas tornar explícito que esta é a caracterização que determina praticamente todas as minhas opiniões seguintes.

Mas que acontecerá, perguntará o leitor, com aqueles que discordam desde logo desta caracterização? Bom, é claro que quem discorda desta caracterização acha que o que direi a seguir nada tem a ver com a filosofia; aceito isso, até porque também eu acho em geral que o que essas pessoas fazem nada tem a ver com a filosofia. Mas o importante é notar que, ainda que aquilo a que chamo filosofia seja completamente diferente daquilo a que outras pessoas chamam filosofia, temos com certeza ambos o direito de estudar, ensinar e divulgar a nossa prática intelectual. Isto é sem dúvida pacífico.

Como o leitor já reparou, a minha caracterização não serve para distinguir a filosofia de outras actividades cognitivas, como as ciências: também elas são um conjunto de problemas, teorias e argumentos. Mas a filosofia é um conjunto de problemas, teorias e argumentos sobre os nossos conceitos mais básicos, como a realidade, o conhecimento, o significado, o bem, a mente, a beleza, o número, a inferência, e muitos outros. Os filósofos pensam acerca dos problemas associados a estes conceitos e propõem teorias, sustentadas por argumentos. Divulgar e ensinar a filosofia é introduzir esses problemas de uma maneira elementar, assim como as teorias que procuram resolvê-los e os argumentos que as sustentam, apesar de estes não serem em geral elementares — mas isso não é uma dificuldade, uma vez que também a física não é elementar, e no entanto não só é ensinada desde cedo aos jovens, como é divulgada ao público leigo.

A divulgação e o ensino da filosofia em Portugal tem sido dificultada por dois obstáculos, resultando ambos de uma confusão conceptual infeliz. Em primeiro lugar, confundem-se os textos altamente especializados da filosofia com os textos de divulgação e introdução. Em segundo lugar, confunde-se a filosofia com a sua história.

A felicidade de O Mundo de Sofia foi ter percebido que não se pode introduzir e divulgar a filosofia através dos textos especializados dos próprios filósofos: seria o mesmo do que tentar ensinar geometria através dos textos de Euclides, música através das partituras de Bach, ou física através dos textos de Einstein: um desastre cultural, pedagógico e científico (ou artístico). Os filósofos, assim como os músicos ou os cientistas, produzem obras cujo destinatário são os outros profissionais e não aos estudantes.

Significa isto que não devemos “ir ao texto”, para usar a infeliz expressão da gíria universitária? Não. Significa sobretudo que não podemos limitarmo-nos a ir aos textos, sem que antes tenhamos preparação para tal — a consequência de o fazer é a repetição acrítica das frases dos filósofos, sem que no entanto se compreenda o seu significado, para já não falar na capacidade para ter uma opinião crítica sobre o que dizem os filósofos. Não podemos portanto começar pelos textos dos filósofos, tal como não começamos com as partituras de Bach. Mas nenhum filósofo terá uma boa formação se não estudar directamente os textos dos grandes filósofos, do presente e do passado, tal como nenhum músico será bem formado se não tiver estudado algumas partituras de alguns grandes músicos. O mesmo acontece aliás com os cientistas, que depois da formação universitária primária terão de aprender a ler os ensaios dos grandes cientistas; a única diferença é, neste caso, de carácter histórico: nenhum astrónomo tem de ler uma só linha de Copérnico, porque a sua teoria está ultrapassada — mas Bach e Descartes têm uma importância maior do que a meramente histórica. Todavia, para dialogar com Bach ou Descartes é preciso já saber, previamente, música ou filosofia.

O Mundo de Sofia conseguiu ultrapassar o primeiro obstáculo, e o seu êxito deve-se com certeza também a este factor, entre outros. Está claro que não se segue que o livro de Gaarder seja bom — na verdade, é muito mau, mas porque falhou num outro aspecto fundamental, que corresponde, precisamente, ao segundo obstáculo a que me referi acima: a confusão da história da filosofia com a própria filosofia. (Na verdade, Gaarder confundiu a filosofia com outra coisa ainda mais distante da filosofia: a história das ideias).

As relações entre a filosofia e a sua história são diferentes das relações que têm a física ou a biologia com as suas histórias respectivas, porque falta à filosofia o tipo de progresso que as outras conhecem, pelo menos no sentido em que as outras o conhecem: há hoje na física uma teoria consensual sobre a gravitação, mas não há uma teoria filosófica consensual sobre a verdade, a beleza, o número, a realidade, o bem, ou o conhecimento; no entanto, há um certo progresso em filosofia, no sentido em que hoje percebemos melhor as subtilezas e as dificuldades desses problemas do que Platão ou Aristóteles; e também sabemos hoje que algumas teorias são falsas, e que alguns argumentos são inválidos. Por tudo isto, algumas teorias e argumentos de Platão, ou de qualquer outro filósofo, têm hoje um interesse mais do que meramente histórico: têm um interesse, precisamente, filosófico — são, plausivelmente, teorias verdadeiras ou argumentos relevantes.

A confusão entre filosofia e história da filosofia consiste em pensar que tudo o que um filósofo disse, só porque o disse e era filósofo, e teve repercussão histórica, tem interesse filosófico. O efeito perverso deste erro é transformar a filosofia numa espécie de museu filosoficamente passivo em que se encontram cronologicamente ordenadas todas as ideias que os filósofos produziram: um clube de filósofos mortos. Mas a filosofia, tal como a entendo (e tal como Sócrates, Platão, Aristóteles, Descartes, Hume ou Kant a entendiam), não é isto. A filosofia é a discussão crítica dos seus problemas, teorias e argumentos. E não podemos confundir a discussão filosófica e crítica, com a discussão filológica, apesar de esta poder ser igualmente crítica, mas num sentido completamente diferente.

Está claro que para poder discutir criticamente os problemas, as teorias e os argumentos da filosofia temos de ter instrumentos; temos de saber como discuti-los e como avaliá-los. Nenhuma instrução ou divulgação da filosofia terá sucesso se não atender a esta exigência formativa básica; não passará de uma caricatura de mau gosto da verdadeira filosofia, tal como o canto coral era, em tempos idos, uma caricatura de mau gosto da música, a que os alunos do liceu se submetiam, impotentes.

Que instrumentos são estes? Sobretudo, os que permitem usar as capacidades críticas, ou as faculdades cognitivas superiores — que podem ser treinadas, como se treina um músculo. Por exemplo, um estudante de filosofia com o mínimo de treino tem de ser capaz de detectar o erro crucial e básico patente neste raciocínio infelizmente tão comum: “todas as coisas têm uma causa, logo tem de haver uma causa para todas as coisas”; e tem de ser capaz de saber a diferença entre os argumentos que, por ignorância do auditório, podem ser convincentes, dos argumentos que são realmente bons. Em suma, os instrumentos básicos que devem ser colocados à disposição dos estudantes de filosofia são os instrumentos críticos que lhe permitirão formar a sua própria opinião: autênticos instrumentos de libertação cultural. Instrumentos que permitem avaliar teorias, ver os seus pontos fracos e os seus pontos fortes, avaliar argumentos e a força, e ter uma postura crítica perante os problemas da filosofia, que permitirão ter uma resposta própria a esses problemas. Rigor, cuidado, simplicidade e humildade são os valores que resultam de uma aprendizagem deste tipo, porque o estudante aprende que o erro nos espreita em cada esquina, que os problemas da filosofia são intrincados, que as soluções são difíceis, e que o disparate bacoco e injustificado nunca produziu senão erro e ilusão — ainda que com palavras eloquentes e aparentemente profundas, como "Saber", "Ser" e "Ontologia".

As capacidades críticas desenvolvem-se através do seu próprio uso. E definham quando as substituímos pela citação acrítica, ainda que erudita, das palavras dos filósofos. A correcta formulação dos problemas, teorias e argumentos tradicionais da filosofia são excelentes exercícios para o desenvolvimento das capacidades críticas; mas a relação entre o que um filósofo disse e o seu contexto histórico não pode senão ser uma informação adicional — não pode confundir-se com o verdadeiro objectivo do ensino da filosofia: ensinar a pensar sofisticadamente, e não ensinar a citar sofisticadamente.

Uma das regras de ouro da redacção de bons ensaios de filosofia que me foi transmitida por M. S. Lourenço é esta: nunca devemos citar as palavras dos outros nos nossos ensaios, a menos que seja estritamente necessário — por ser surpreendente que tal filósofo diga realmente tal coisa, por exemplo. De resto, devemos sempre formular pelas nossas próprias palavras os argumentos, as teorias e os problemas da filosofia.

Que é razoável exigir da divulgação e do ensino da filosofia? Tanto num caso como noutro, uma introdução aos problemas, argumentos e teorias da filosofia, que num caso será profissionalmente aprofundada, e que no outro constituirá parte da formação cultural básica de um cidadão civilizado. É exactamente o mesmo que se espera da divulgação da física, ou da música — e repare-se que ninguém confunde uma introdução à música com uma introdução à história da música, tal como também ninguém procura introduzir a música através das partituras dos grandes músicos.

Do filósofo original, assim como do músico original, espera-se uma contribuição importante: a formulação de um problema, de uma teoria, ou de um argumento novos, ou uma nova formulação de um problema, de uma teoria, ou de um argumento antigos. Esta actividade é uma das mais nobres, tanto no caso do músico, como no caso do filósofo ou do físico. Mas esta actividade não pode existir sem a divulgação e a introdução, desde os níveis mais elementares, até aos níveis mais avançados: é para isso que existem os professores e os divulgadores. E é por isso que essa actividade é também tão nobre: é a condição de possibilidade, e deve ser o primeiro estímulo, para que existam filósofos, músicos ou cientistas inovadores — a verdadeira medida do valor universal de uma cultura.

Julgo que não é necessário justificar o papel que a filosofia tem na cultura em geral, porque julgo que não é necessário justificar o papel que o pensamento crítico tem numa cultura livre e civilizada. Só por si, isso justificaria o esforço de divulgar e de ensinar a filosofia. Mas num momento em que o mundo parece cada vez mais pertencer à toda-poderosa indústria do entretenimento — que estimula eficientemente os jovens a praticar o surf e o body-board, a Internet e os jogos de computador, a vida nocturna e o rock —, estimular os jovens a fazer coisas como ler um livro, pensar com rigor e cuidado, ou conduzir uma conversa inteligente, torna-se um desígnio civilizacional. Daqui não se segue qualquer ideia de que a filosofia tem primazia sobre qualquer outra disciplina escolar; na verdade, atendendo à forma como a filosofia é geralmente ensinada nas nossas escolas e universidades, melhor seria que não existisse. Mas dado que existe, o melhor é devolver à filosofia a sua natureza própria, e procurar ensinar os nossos estudantes a pensar pela sua própria cabeça, e não a repetir o que disse Platão ou Kant ou Descartes.

Mas para quem não gosta de desígnios civilizacionais, ou para quem achar, como eu, que, em qualquer caso, esse desígnio já está perdido, resta ainda o dever de fazer saber a algumas pessoas que no mundo não há só surfistas, políticos, diletantes culturais pastosos e futebolistas. Há também pessoas que fazem coisas como ler livros, pensar disciplinada e de forma consequente sobre coisas, e têm gosto em alargar o seu conhecimento.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Artigo publicado originalmente em Boletim da Livraria Barata (número 39, 1996).
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