Sir Michael Dummett (1925-2011) Dicionário de Filosofia
29 de Dezembro de 2011 ⋅ História da filosofia

Sir Michael Dummett (1925–2011)

Dag Prawitz
Universidade de Estocolmo

Sir Michael Dummett foi um filósofo de Oxford, membro de All Souls (1950), Professor Wykeham de Lógica (1979-1992) e membro do New College. Entre os seus compromissos exteriores à filosofia, o seu trabalho activo contra o racismo merece menção especial.

A filosofia de Dummett inspira-se em grande medida na filosofia de Frege e Wittgenstein. Diversas obras suas ocupam-se directamente de Frege, as principais sendo os dois livros Frege: Philosophy of Language (1973), e Frege: Philosophy of Mathematics (1991). Estes contêm explicações detalhadas das várias doutrinas de Frege, bem como a sua avaliação por parte de Dummett, juntamente com os seus próprios contributos. Interpolado a estes dois volumes Dummett também publicou The Interpretation of Frege's Philosophy (1981), em que defende a sua interpretação de Frege contra diversos críticos que tinham apresentado interpretações divergentes nas discussões vívidas da filosofia de Frege que se seguiram ao primeiro livro de Dummett.

Os temas mais importantes da própria filosofia de Dummett dizem respeito à metafísica e à filosofia da linguagem, e em particular ao modo como se inter-relacionam. Até que ponto o realismo é sustentável foi questão metafísica que o próprio Dummett abordou. Dummett considera que um ingrediente essencial de uma posição anti-realista é a rejeição do princípio da bivalência da lógica clássica. Por isso, as questões metafísicas têm consequências para a lógica. Por outro lado, a questão de saber que lógica está correcta tem de ser resolvida pela teoria do significado. Logo, defende Dummett, o modo correcto de abordar estas questões inter-relacionadas é começar pela teoria do significado e, na posse de uma teoria correcta do significado, seremos também capazes de resolver as questões lógicas e metafísicas.

Tal como Dummett a concebe, uma teoria do significado para uma língua deve explicar o que é saber o significado das várias frases da língua. Tendo em conta a natureza pública do significado, o conhecimento em causa deve manifestar-se no uso que fazemos das frases, e a teoria do significado deve descrever como o conhecimento se manifesta. Segundo Dummett, os que defendem o princípio da bivalência têm dificuldades com frases indecidíveis. Os defensores da bivalência identificam o significado de uma frase com a sua condição de verdade, e têm portanto de afirmar que podemos apreender o que é uma dada condição de verdade ser satisfeita mesmo quando — como é o caso das frases indecidíveis — não há modo de mostrar esta apreensão. Logo, conclui Dummett, uma teoria defensável do significado tem, ao invés, de identificar o significado de uma frase com algum aspecto do seu uso, considerando então diferentes modos de satisfazer este requisito. Um deles é considerar que o significado de uma frase é determinado pelo que conta como verificação da frase. Assim chegamos a um anti-realismo que é uma generalização da posição intuicionista em matemática. Dummett não se compromete com tal posição, mas mostra-se-lhe bastante favorável, e insta a que o trabalho posterior sobre a teoria do significado seja empreendido de modo a obter uma base firme sobre a qual estas questões possam ser resolvidas.

No seu “What is a theory of meaning? II”, reimpresso juntamente com outros artigos no volume The Seas of Language (1993), há uma apresentação inicial mas razoavelmente exaustiva de como Dummett vê a teoria do significado e a sua relação com a disputa entre o realismo e o anti-realismo. A discussão mais abrangente do caminho proposto por Dummett a partir da teoria do significado para a metafísica ocorre em The Logical Basis of Metaphysics (1991). Dummett também contribuiu para a filosofia do intuicionismo matemático em Elements of Intuitionism, que trata profusamente os vários aspectos filosóficos, lógicos e matemáticos desta doutrina. Muitos dos seus primeiros artigos estão reunidos em Truth and Other Enigmas (1978).

Dag Prawitz
Retirado de Dicionário de Filosofia, org. Thomas Mautner (Lisboa e São Paulo: Edições 70, 2010)
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