17 de Janeiro de 2016   Epistemologia

Conhecimento por contacto e por descrição

Enciclopédia Britânica
Tradução de Álvaro Nunes

A distinção entre conhecimento por contacto e por descrição foi introduzida por Bertrand Russell em ligação com a sua célebre teoria das descrições. Consideraremos aqui apenas a versão epistemológica (que se distingue da lógica) da sua teoria. Foi inventada por Russell para apoiar a tese básica do empirismo de que todo o conhecimento de questões de facto (i.e., todo o conhecimento a posteriori) deriva da experiência. O programa de Russell é ao mesmo tempo reducionista e fundacionalista. Tenta mostrar que o sistema do conhecimento é estratificado: que alguns tipos de conhecimento dependem de outros mas alguns não e que estes últimos formam as unidades fundacionais que suportam todo o sistema epistémico. Ele defendeu que, umas vez que estas unidades básicas se apoiam na experiência directa, em última instância todo o conhecimento factual deriva da experiência.

O argumento de Russell começa com uma distinção entre dois tipos diferentes de conhecimento, o que é e o que não é baseado na experiência directa. Quase todo o conhecimento humano é do ultimo tipo. Por exemplo, sabemos que há 2000 anos viveu um homem de Estado romano chamado Augusto, que foi o sucessor de Júlio César, que foi assassinado, e que foi amigo do historiador Tito Lívio. Mas, dado que nenhuma destas informações é agora conhecida com base na experiência pessoal, que justificação existe para que lhes chamemos conhecimento?

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Russell sustentou que a informação baseada na experiência directa é básica e não precisa de ser justificada; ele chamou-lhe “conhecimento por contacto”. À informação que não se baseia na experiência directa chamou “conhecimento por descrição”. Uma pessoa tem justificação para chamar a essa informação conhecimento, se puder mostrar que é possível fazê-la remontar a, e que assim em última instância se apoia no, conhecimento por contacto. Mostrar como isto ocorre num caso particular é legitimar essa informação particular como um espécime de conhecimento. Eis como este processo reducionista funcionaria no caso do que se conhece sobre Augusto.

Toda a informação que as pessoas do século XX têm sobre Augusto tem provavelmente origem em obras literárias, como a História de Roma de Tito Lívio. Essa informação é assim obtida em segunda mão, por intermédio de descrições em livros acerca da vida e actividades de Augusto. Mas por que razão chamar a essas descrições conhecimento? A resposta é que por intermédio de um processo histórico podemos fazer remontar essa informação a uma fonte original como Tito Lívio, que foi contemporâneo de Augusto. Ficamos a saber, por este processo, que Tito Lívio na sua História de Roma relata acontecimentos que ele próprio viu ou que lhe contaram outras testemunhas oculares. Podemos chamar ao que ele diz sobre Augusto conhecimento, porque esse testemunho se baseia na sua experiência directa ou na experiência directa de outra pessoa. Por conseguinte, o conhecimento por descrição é uma forma legítima de conhecimento, embora em última instância dependa do conhecimento por contacto.

A tese reducionista de Russell era então que todas os espécimes legítimos de conhecimento ou se baseiam na experiência directa ou se pode mostrar que dependem dessa experiência directa por intermédio de uma estreita cadeia de ligações causais ou históricas. A sua teoria era, portanto, uma forma de empirismo, porque tentava mostrar que todo o nosso conhecimento de questões de facto pode ser derivado da experiência.

Mas há uma característica adicional da teoria, derivada da tradição empirista de John Locke (1632–1704) e David Hume, que dá um sentido especial à noção de “conhecimento por contacto”. Segundo esta tradição, o conhecimento por contacto é sempre conhecimento baseado no que Hume chamou “impressões” ou no que Russell chamou “dados dos sentidos”. Para Russell, os dados dos sentidos eram entidades mentais que geralmente, mas não sempre, reflectiam as características efectivamente possuídas pelos objectos físicos. Mas, ao contrário dos objectos físicos, os dados dos sentidos eram os objectos directamente apreendidos num acto de percepção. O que Russell entendia por “apreensão directa” ou “percepção directa” era ela mesma explicada em termos dos conceitos de inferência e não-inferência. Ele sustentou que a percepção directa, i.e., a consciência perceptiva de um dado dos sentidos, não envolve nenhuma inferência e, consequentemente, que o conhecimento por contacto é idêntico à percepção de dados dos sentidos.

A diferença entre percepção inferencial e não-inferencial pode ser ilustrada por intermédio de um exemplo. Suponhamos que alguém está a trabalhar numa sala e ouve um som que emana de uma fonte exterior. (Russell considerava que a audição era uma forma de percepção.) Nesse caso o som é um dado dos sentidos. Não é preciso inferirmos que a pessoa está a ouvir um som; há consciência directa desse facto. Isto seria um caso de conhecimento por contacto. Com base no que ouviu desta forma directa, a pessoa pode então inferir (supor, conjecturar, colocar a hipótese) que o que causa o som é uma motocicleta que está fora da sala, algo que a pessoa na sala não pode ver directamente. Se a suposição da pessoa for correcta, a informação obtida desta forma é um caso de conhecimento indirecto. Nesse caso, o conhecimento da pessoa de que há uma motocicleta na rua depende da (e no sentido de Russell, é redutível à) consciência directa que a pessoa tem de um som. O exemplo ilustra como o conhecimento indirecto, como o conhecimento por descrição, deriva de conhecimento directo, como o conhecimento por contacto e, por sua vez, como este último depende da consciência directa de dados dos sentidos.

Deve ser mencionado que a distinção entre conhecimento por contacto e conhecimento por descrição pode ser defendida como legítima e útil sem assumir um compromisso com a teoria dos dados dos sentidos. Na obra de Russell, os objectos de consciência directa são dados dos sentidos, mas a teoria dos dados dos sentidos tem hoje poucos apoiantes. Um filósofo pode assim sustentar que uma pessoa pelo menos às vezes percebe directamente os objectos físicos (que não são dados dos sentidos) ao mesmo tempo que aceita que o conhecimento dos acontecimentos e pessoas passados é indirecto e, por conseguinte, conhecimento por descrição.

Retirado da Enciclopédia Britânica, edição de 2004

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