As contradições dos filósofos

Desidério Murcho

Um dos aspectos da filosofia que provoca algumas reacções é o facto de, ao contrário da ciência, os filósofos raramente chegarem a um consenso sobre as questões que discutem desde há 2500 anos. Se juntarmos a isto o facto de existirem argumentos a favor de cada uma das posições filosóficas, temos como consequência uma reacção psicologicamente compreensível: a ideia de que nenhum filósofo tem razão.

Esta reacção é compreensível, pois um dos princípios básicos da lógica clássica é que se no decurso de um raciocínio encontramos uma contradição, teremos de negar o pressuposto de partida — que neste caso seria a ideia de que alguns filósofos teriam razão. É assim que se numa discussão alguém se contradiz, nós passamos a desconfiar de tudo o que aquela pessoa afirma. Como os filósofos se contradizem entre si, é fácil desconfiar de tudo o que eles dizem. Mas desta ideia saudável de que devemos exercer as nossas capacidades críticas relativamente a tudo o que os filósofos nos dizem é fácil deslizar para uma outra ideia completamente diferente: a de que não vale a pena discutir o que eles dizem porque nenhum deles poderá realmente ter razão — ou, numa versão mais comedida, mesmo que algum deles tenha razão, não poderemos determinar qual deles tem razão. Deste ponto de vista, resta então fazer a história do que os filósofos pensaram, resta o comentário filosófico, resta aplicar metodologias de comentário literário às obras dos filósofos, sem nunca se procurar determinar se o que eles dizem é ou não verdade; o que eles dizem é um sinal dos tempos, é estimulante, é inspirador, é revolucionário — é várias coisas, mas não é susceptível de ser verdadeiro nem falso.

Penso que esta ideia é falsa por dois tipos de razões. Em primeiro lugar, porque não há qualquer razão para pensar que ela pode ser verdadeira. Em segundo lugar, porque há razões para pensar que ela não pode ser verdadeira.

Comecemos pelas últimas razões. Como poderá a afirmação de que não podemos determinar como verdadeira ou falsa nenhuma afirmação filosófica ser, ela mesma, verdadeira? Uma vez que esta afirmação é ela mesma claramente filosófica — não é com certeza um facto empírico, não é uma afirmação científica e recuso-me a pensar que seja fruto da revelação divina — temos grandes problemas em conceber que possa ser verdadeira. É que se for verdadeira terá de ser ela própria uma excepção ao princípio geral de que não podemos determinar como verdadeira nenhuma afirmação filosófica. Mas que razão teremos para pensar que tal excepção é aceitável que seja independente da vontade de impedir a incoerência de tal doutrina? Não consigo descortinar nenhuma.

Uma alternativa é pensar que a afirmação de que não podemos determinar como verdadeira ou falsa nenhuma afirmação filosófica não é uma afirmação filosófica, mas uma meta-afirmação: uma afirmação acerca de afirmações. Mas que razão temos nós para pensar que podemos determinar como verdadeiras ou falsas as meta-afirmações filosóficas, mas não as afirmações? Pelo contrário, há razões para pensar que o grau de complexidade e de consequente dificuldade das meta-afirmações é superior à das afirmações. Em qualquer caso, ainda que as meta-afirmações filosóficas sejam susceptíveis de serem verdadeiras apesar de as afirmações filosóficas o não serem, que razão teremos para pensar que tal meta-afirmação é verdadeira e não falsa?

O que nos conduz ao estudo da questão de saber se teremos afinal alguma razão para pensar que tal meta-afirmação é verdadeira. Aparentemente, esta meta-afirmação resulta da observação de que os filósofos se contradizem entre si e que nunca chegam a consenso. Mas desta observação não se segue que não seja realmente possível determinar como verdadeiras ou falsas as afirmações filosóficas — pensar isso seria falacioso: a falácia do apelo à ignorância.

Podemos pois pensar que talvez a ideia de que não podemos determinar como verdadeiras ou falsas as afirmações, teses ou teorias dos filósofos não seja verdadeira. Isto não significa que sabemos determinar como verdadeiras e falsas todas as teses filosóficas, mas antes que, porque não podemos pensar que nenhumas podem ser determinadas como verdadeiras ou falsas, algumas têm de poder sê-lo. Mas daqui não se segue que saibamos quais.

É um pouco como se soubéssemos que dentro de um saco preto tem de haver teses filosóficas susceptíveis de serem determinadas como verdadeiras e outras como falsas; claro que algumas não são susceptíveis de serem verdadeiras nem falsas; mas algumas têm de o ser.

Mas não sabemos à partida como deitar mão apenas às que são susceptíveis de serem determinadas como verdadeiras ou falsas, e ainda menos como deitar mão só às que são verdadeiras. A única coisa que podemos fazer é deitar mão a uma delas de cada vez, estudá-la com cuidado e tentar determinar se por acaso essa é susceptível de ser determinada como verdadeira ou falsa, ou se tem de ser abandonada por não ser susceptível de tal coisa. Mas isso é algo que só se pode fazer por meio do estudo paciente, cuidado e solidamente ancorado num pensamento claro e tão livre quanto possível de jogos de palavras, ambiguidades, vaguezas e non-sequiturs. O que é mais uma demonstração do papel fundamental da argumentação na filosofia.

Desidério Murcho
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