Opinião

O discurso paralisante

Desidério Murcho

Um dos aspectos da cultura portuguesa que impressiona o meu sentido crítico é uma certa forma habilidosa, mas não menos vil, de paralisar toda e qualquer tentativa de mudar o que quer que seja. Na verdade, este aspecto impressionou o sentido crítico de outras pessoas, como Eça de Queirós, que escreveu até um livro inteiro para o denunciar — Os Maias. Leia-se a seguinte passagem, logo no início do capítulo VIII (o capítulo do episódio de Sintra):

— Ninguém faz nada — disse Carlos espreguiçando-se. — Tu, por exemplo, que fazes?
Cruges, depois de um silêncio, rosnou encolhendo os ombros:
— Se eu fizesse uma boa ópera, quem é que ma representava?
— E se o Ega fizesse um belo livro, quem é que lho lia?
O maestro terminou por dizer:
— Isto é um país impossível... Parece-me que também vou tomar café.

O discurso paralisante tem as seguintes características. Numa conversa entre amigos começa-se por denunciar um problema que precisa de ser resolvido. No meu caso, o tema mais comum é obviamente o atraso e o amadorismo da filosofia no nosso país. Toda a gente concorda. Mas imediatamente a seguir os problemas começam a avolumar-se, a aprofundar-se, a generalizar-se. Em menos de 5 minutos, já é todo o país, todo o mundo, todo o universo que precisaria de mudar. Mas, claro, como somos impotentes para mudar o universo inteiro, mais vale desistir já e não fazer rigorosamente nada.

Este é o perfil do discurso paralisante. Serve que nem uma luva a quem, em qualquer caso, não estaria disposto a perder um hora por semana, quanto mais várias horas por dia, em prol da filosofia em Portugal — em prol não do seu currículizinho e da sua vidinha pessoal, mas em prol das próximas gerações que, se trabalharmos bem, terão melhores condições do que nós tivemos para estudar e ensinar filosofia e que poderão participar, de igual para igual, no debate filosófico internacional — coisa que hoje talvez só um ou dois portugueses podem fazer.

Isto contrasta com a noção de que quem acha que algo está errado e tem a possibilidade de dar a sua pequena contribuição para mudar o estado de coisas, deve fazê-lo ou calar-se — sob pena de ser hipócrita. O discurso paralisante permite-nos ser bem pensantes, permite-nos distanciarmo-nos do deplorável estado de coisas do país, mas continuar sem nada arriscar, sem nada fazer, sem nada perder em prol do que julgamos ser um bem. O discurso paralisante assenta que nem uma luva ao tipo de pensamento inconsequente tão popular entre os bem pensantes portugueses; permite alardear sofisticação sem que essa sofisticação se traduza em qualquer sacrifício. É inconsequente e frívolo, como é de bom-tom numa conversa de café. O problema é que todo o país parece não saber fazer mais nada senão conversa de café.

E assim, com esta frivolidade hipócrita, com a técnica do discurso paralisante, não iremos muito longe. E as gerações que vierem depois de nós olharão para nós acusadoramente, como nós olhamos acusadoramente para as gerações que nos precederam. E com toda a razão.

Desidério Murcho
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