Opinião

O clube dos filósofos mortos

Desidério Murcho

Um dos aspectos mais tristes da cultura filosófica nacional é o completo desconhecimento da melhor filosofia contemporânea. Isto é tanto assim que já me perguntaram, numa conferência, se hoje em dia ainda havia filósofos. Fiquei surpreendido com esta pergunta, mas não muito. Há muito que sei que a cultura filosófica nacional está ainda na fase da contra-reforma, cuja expressão máxima foi o salazarismo de meio século, e cuja propriedade proeminente é o isolamento provinciano.

Este isolamento tem consequências desastrosas. Os nossos jovens que têm talento e gosto pela filosofia afastam-se desta actividade, pois parece-lhes — e com razão — que a filosofia é uma peça de museu, onde se discutem textos em vez de ideias, e onde os pensadores mais modernos já morreram há muito. As pessoas que vão ficando na filosofia são os cinzentos, que não têm gosto pela aventura do pensamento rigoroso nem pela discussão clara de ideias. E o resultado é o que está à vista: uma cultura filosófica feita de paráfrases obscuras e citações abundantes, mas onde a capacidade para pensar pela sua própria cabeça nos grandes problemas da filosofia não é, de modo algum, uma propriedade proeminente.

E tudo isto teria a sua dose de comédia, não fosse a tragédia que envolve. Porque a verdade é que a filosofia nunca esteve tão viva como hoje em dia; nunca se publicou tantas obras profundas, estimulantes e inteligentes de filosofia como hoje em dia; nunca houve tantos filósofos de alta qualidade como os que temos hoje em dia. Os problemas mais intrincados da filosofia têm hoje respostas altamente subtis e prometedoras, nas suas mais diversas áreas: na ética, na estética, na filosofia da religião, na filosofia da ciência, na filosofia da linguagem, na filosofia da mente, na filosofia política, etc., etc., etc. Nunca, como hoje, os debates em filosofia foram tão ricos, tão variados, e de tão elevada precisão, criatividade e pertinência.

Todavia, em Portugal continua-se a achar que fazer filosofia é comentar textos de filósofos que morreram há séculos. O resultado é o que temos: professores de filosofia que nada sabem realmente de filosofia, excepto papaguear textos e alinhavar associações selvagens de ideias, sugestões enviesadas e jogos de palavras "eruditos" com muitas palavras latinas, gregas e alemãs à mistura. Os grandes problemas, argumentos e teorias da tradição filosófica passam-lhes ao lado. Porque a única via de acesso à história da filosofia é a filosofia contemporânea, se estivermos apartados da filosofia contemporânea não poderemos compreender realmente os problemas, as teorias e os argumentos dos filósofos mortos — tal como alguém que nada saiba de medicina não pode compreender realmente a história da medicina do século XII.

Se a humanidade não se extinguir ou se não regressar à barbárie, os séculos XX e XXI da filosofia ficarão conhecidos na história da filosofia como os séculos XVI e XVII são hoje conhecidos na história da ciência: como um período riquíssimo, no qual as tentativas milenares de responder aos grandes problemas da filosofia encontraram finalmente métodos à altura de nos darem respostas razoáveis. Por quanto tempo mais continuará Portugal a recusar aos seus jovens a possibilidade de participar no debate filosófico internacional?

Desidério Murcho
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