Folhas e Vida, de Luísa Migon
20 de Maio de 2009 ⋅ Opinião

Ortografia, fonética e grafia

Vítor Guerreiro

Um dos objectivos da reforma ortográfica de 1911 era pôr fim à chamada "ditadura da etimologia", aproximando a escrita da fonética. Assim, em vez de escrever "physica" e "philosophia", que sob esta forma estão mais próximas da sua fonte latina e grega, passámos a escrever "física" e "filosofia". Daqui resultam alguns factos interessantes. Os ingleses escrevem "physics" e "philosophy" e no entanto a sua fonética é muito diferente da fonética do latim ou do grego antigos. Exactamente em que sentido é que "filosofia" e "philosophia" são foneticamente divergentes? Parece que o próprio objectivo de aproximar a ortografia da fonética é uma ideia com credenciais lógicas duvidosas. A simplificação da escrita é tanto uma aproximação à fonética como a simplificação da notação musical é uma "aproximação" aos fenómenos acústicos — duas notações diferentes exprimem os mesmos fenómenos acústicos, a simplicidade da notação nada tem a ver com a relação entre notas e sons. Nem sequer podemos afirmar, portanto, que com os reformadores passámos à "ditadura da fonética": a fonética de "filosofia" é compatível com uma ou outra grafia, a menos que no tempo de Eça de Queiroz os utentes do português pronunciassem "philosophia" como se estivessem a ler grego antigo. Tão-pouco os utentes do inglês pronunciam "philosophy" com a fonética grega antiga. Não lembra ao diabo que em inglês haja ou tenha havido uma cisão entre a fonética e a ortografia, porque simplesmente não há leis "fonográficas" estritas. É tão disparatado afirmar que escrever uma palavra com menos letras aproxima a grafia da fonética como afirmar que imaginar um cisne com menos penas torna a nossa imagem mental do cisne mais "próxima" do cisne real.

Uma das motivações da reforma de 1911 era a ideia de que a "ditadura da etimologia" contribuía para o aumento do analfabetismo. Mas sendo assim não se compreende como os utentes do inglês não são maioritariamente analfabetos. Será que afinal não há qualquer correlação entre a ortografia e o analfabetismo? Na verdade, a ideia de "aproximação" à fonética para combater o analfabetismo é apenas um disfarce para o preconceito social. Escrever "filosofia" com "f" em vez de "ph" simplifica a escrita mas isto nada tem a ver com "aproximação" à fonética. A ideia subjacente é que os pobres são muito burros e precisam de uma ortografia muito simplificada, em vez de receberem simplesmente um ensino de qualidade. Dizer que assim ficamos mais "perto" da fonética é uma forma equivocada de dizer que as palavras ficam mais acessíveis ao escrevinhar do povo, tornam-se mais "intuitivas", do mesmo modo que a música pimba é mais "intuitiva" do que a música de Bach. É mais uma vez a defesa da ideia de que mais vale dar um peixe do que ensinar a pescar. Em vez de dar às pessoas os instrumentos para escreverem bem, reforma-se a ortografia.

Desta reforma resultou a ideia hoje comum de que os caracteres como "ph", "rh", "th", "k", "y" não fazem parte do português. Curiosamente, segundo este raciocínio, temos de afirmar que tais caracteres também não fazem parte do inglês. A verdade é que em português foram usados durante muito mais tempo do que o decorrido desde que deixámos de os usar, por decreto administrativo. Mas não é isto o mais curioso ou o mais importante. Podemos escrever igualmente bem com "física" ou com "physica" (o que é mais uma razão para não gastar tempo e recursos a reformar a ortografia). O que é realmente curioso é a ideia de uma ditadura da etimologia, como se a imposição dos reformadores não fosse ditatorial, indiferente ao que realmente preferem os utentes da língua.

Eis o mais interessante: um grupo de indivíduos decide que a ortografia anterior é uma ditadura e que vai reformá-la. De seguida, impõe as suas ideias a toda a população, em vez de simplesmente as passar a escrito e aguardar que o público as aceite, respeitando a decisão do público se este decidir ignorá-las. Os reformadores querem rejeitar aquilo que sentem como ditadura mas não aceitam que outros rejeitem a sua reforma como imposição, como ditadura. Não aceitam submeter as suas ideias à avaliação das pessoas em cuja prática querem interferir. Quanto a mim, parece-me de uma incrível arrogância subitamente alguém dizer a todos os outros: "Atenção! A partir de agora todos escrevem assim."

Ciente disto, Fernando Pessoa recusou a imposição dos reformadores e continuou a escrever "monarchia", "cysne", "philosophia", "physica", etc. A reacção dos reformadores é tipicamente paternalista: se os "artistas" querem escrever "philosophia", nenhum mal daí vem ao mundo. Os "excêntricos" serão sempre excêntricos. "Com o tempo habituam-se". Aparentemente as reformas destinam-se àqueles que os reformadores consideram que estão abaixo de si, daí sentirem-se tão naturalmente no direito de impor-nos as suas ideias ortográficas.

Chamo a atenção para o facto de este artigo não ser uma defesa nostálgica do regresso às glórias da ortografia antiga. Isso seria hoje tão contrário ao natural como foi no tempo de Pessoa deixar à força de escrever "philosophia" e "physica". Podemos escrever igualmente bem com uma grafia ou outra. Alterar a grafia em si não vai fazer que magicamente as pessoas passem a escrever melhor português. O que se critica é a arrogância dos reformadores, as trapalhadas que as reformas causam em vez de resolverem problemas, — nem sequer os próprios objectivos de simplificar a língua são alcançados por estas reformas, — a perda de tempo e recursos a reformar a ortografia em vez de concentrar os esforços na produção de boas obras de divulgação, gramáticas e dicionários de qualidade, que realmente ajudem o público a dominar a sua língua e a escrever cada vez melhor nela.

Vítor Guerreiro
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