Hermenêutica e filosofia

Desidério Murcho

Uma das palavras mais procuradas no motor de pesquisa da Crítica é "Hermenêutica". Esta é também uma das palavras mais procuradas no Dicionário Universal da Língua Portuguesa, disponibilizado on-line pela Priberam e pela Texto Editora. Este facto é significativo e mostra bem um aspecto infeliz do ensino da filosofia tal como tem vindo a ser praticado em Portugal.

A hermenêutica é uma das muitas palavras estranhas que os professores gostam de deitar à cara dos estudantes, sem que lhes expliquem o que quer tal coisa dizer. Com o passar do tempo, esses estudantes adquirem o hábito de usar essa palavra em certos contextos, apesar de não saberem bem do que estão a falar, e chegam depois por sua vez a professores, onde terão por então oportunidade para deitar à cara dos seus desventurados estudantes a mesma desgraçada palavra. E assim se perpetua uma comédia de enganos, em que todos fingem saber o que não sabem e dominar o que não dominam.

No nosso país, muitas pessoas gostam de reduzir a filosofia à hermenêutica. Outras, reduzem a filosofia à sua história. Em ambos os casos, o que importa, sobretudo, é reduzir a filosofia a qualquer coisa que não nos obrigue a pensar autonomamente e a avaliar criticamente o que as outras pessoas pensam, incluindo-se nestas os próprios filósofos. O objectivo da filosofia deixa assim de ser, nas palavras imortais de Tomás de Aquino, descobrir a verdade, mas apenas descobrir o que disse Plotino, ou Descartes, ou Kant... ou o próprio Tomás de Aquino, atraiçoando assim brutalmente o que este próprio filósofo entendia por filosofia.

Curiosamente, as pessoas que reduzem a filosofia à hermenêutica fazem-no sem saber bem o que estão a fazer. Em primeiro lugar, estão a desistir do projecto original da filosofia: pensar criticamente sobre problemas e argumentos filosóficos. Em segundo lugar, estão a comprar por atacado ideias filosóficas muito determinadas, que devem ser discutidas e não adoptadas como dogmas irrefutáveis. Em terceiro lugar, a filosofia não é, pura e simplesmente, uma ciência social.

A hermenêutica nasceu da ideia, em si altamente discutível, de que as ciências sociais tinham um método próprio, distinto do método das ciências da natureza. Esse método era a hermenêutica, que consistiria em tentar determinar o significado dos fenómenos sociais, ao invés de tentar descobrir as leis que os regulam — leis que os partidários da hermenêutica pensavam que não existiam, ou cuja existência era politicamente perigoso admitir.

Como pode tal coisa aplicar-se à filosofia é outra história. E, sobretudo, trata-se de uma corrente filosófica muito determinada, que deve ser criticamente avaliada, como todas as correntes filosóficas, e não dogmaticamente admitida como verdadeira sem apelo nem agravo. Em qualquer caso, a ideia geral era a de que a tarefa da filosofia seria interpretar textos do passado.

Isto, claro, é no mínimo discutível e só pode ocorrer, como escrevia há uns meses Thomas Nagel a propósito de uma ideia semelhante defendida por Richard Rorty, a quem nunca se deparou naturalmente com os problemas e os argumentos filosóficos e que só depois de uma certa idade tropeçou artificiosamente nesses problemas porque os leu num texto com 900 anos. A uma pessoa destas não lhe passa pela cabeça que os problemas e argumentos da filosofia são coisas bem reais — pelo contrário, para uma pessoa destas os problemas e argumentos da filosofia serão sempre coisas historicamente situadas, artificiosas, que só podemos estudar com a mesma estranheza com que estudamos a civilização egípcia.

Mas a filosofia não é algo que nos é estranho. A filosofia é uma actividade natural. Qualquer pessoa medianamente inteligente se depara, geralmente quando ainda é bastante nova, com problemas e argumentos filosóficos.

A figura de Tomás de Aquino, um dos maiores hermeneutas de sempre de Aristóteles e da Bíblia, mostra bem como podemos respeitar a hermenêutica e a exegese, sem no entanto tentar reduzir o pensamento filosófico nem à hermenêutica nem à exegese, encarando a actividade filosófica como uma actividade natural de procurar descobrir a verdade acerca dos nossos conceitos mais básicos, como os conceitos de bem, verdade, validade, justiça, beleza, etc. Enquanto não encararmos a filosofia como uma actividade natural, estaremos apenas a fazer uma pantomima de aparência filosófica, sem que tenhamos ainda entrado no debate universal de ideias filosóficas que tem conseguido resistir, desde há 2500 anos, contra quem quer cidadãos passivos e intelectuais acríticos.

Desidério Murcho
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