O Grito, de Edvard Munch
13 de Junho de 2005 ⋅ Ensino da filosofia

Gritar no escuro não basta

Desidério Murcho

O excelente cientista, professor e divulgador de ciência, Nuno Crato, publicou no jornal Expresso uma importante crónica intitulada "Gritando no Escuro...". Nuno Crato dá voz à sua indignação perante acções de formação de nulo valor científico ou didáctico, pagas com o dinheiro dos contribuintes, e através das quais os professores do ensino secundário progridem na carreira docente — além de serem dispensados das aulas para assistir a tais inanidades. O problema não é novo. Como escrevi num artigo publicado no jornal Público ("A Formação Contínua de Professores"), a ideia geral da formação contínua é boa e de prosseguir. Mas é necessário corrigir os disparates a que deu lugar. Não vou repetir as propostas construtivas apresentadas nesse artigo.

Contudo, vale a pena reflectir na razão de ser da crendice dos professores que foram assistir à inacreditável acção de formação que Nuno Crato denuncia. Afinal, trata-se de professores licenciados pelas universidades portuguesas. O que explica então que aceitem sem pestanejar os mais rotundos disparates? Como se explica que aceitem sem qualquer espírito crítico a pseudociência, a astrologia, a alquimia, as forças magnéticas da Mãe Terra e outras patranhas do género?

A explicação é simples: as universidades portuguesas não sabem formar os seus alunos. Os alunos decoram conhecimento empacotado, que repetem nos exames e trabalhos, mas não foram formados — nas humanidades até foram intelectualmente deformados. E este é o verdadeiro problema. Problema que não se vê quando se elege, para disfarçar, as chamadas ciências da educação como o inimigo a abater. O problema não é nem as ciências da educação, nem as acções de formação de banha da cobra. O problema é haver tantos licenciados que deveriam ter aprendido nas universidades a ter espírito crítico, mas que mal sabem articular um pensamento sofisticado e que vão atrás da primeira banha da cobra sonante.

Em suma, o verdadeiro problema da educação em Portugal é a falta de qualidade do ensino das nossas universidades. Na melhor das hipóteses, os estudantes saem dos cursos superiores a saber resolver meia dúzia de cálculos e fórmulas; mas não aprenderam o mais importante: não aprenderam a pensar, não aprenderam a exercer o espírito crítico, não aprenderam a ser intelectualmente autónomos. A generalidade dos alunos saem das universidades formados em plágio: aprenderam a decorar ou copiar o que dizem os manuais ou os textos das autoridades preferidas do professor, para despejar diligentemente nos exames e trabalhos académicos.

Enquanto não se encarar o verdadeiro problema não se consegue resolvê-lo. Nenhuma reforma do ensino pode vingar se ignorarmos o ensino superior. A reforma do ensino superior é uma condição necessária para a reforma do restante ensino, porque é o ensino superior que dá formação, directa ou indirecta, aos professores do secundário e do básico.

Mais do que gritar no escuro, importa fazer algo em prol da qualidade do ensino superior (e é claro que há bons exemplos disso mesmo, que são de saudar e estimular). Pois se os professores do secundário aceitam tão facilmente as cantigas do bandido, é porque nas universidades não receberam uma formação intelectual sólida — limitaram-se a aprender a repetir o que nem os seus professores entendem muito bem. Mas quem conhece a realidade sabe que a generalidade dos professores se está de facto nas tintas para aquelas acções de formação, ainda que se inscrevam nelas. Os professores precisam pura e simplesmente de créditos, e fazem o que lhes parece mais fácil porque muitas vezes não têm à sua disposição acções de formação de qualidade, das quais possam retirar benefícios científicos e didácticos óbvios. E este é outro problema cuja responsabilidade cabe às universidades. Muitos professores, esperançados, inscrevem-se em acções de formação cientificamente sérias, dirigidas por professores universitários, para depois verificarem frustrados que afinal é apenas mais do mesmo — mais formalismo oco, mais conteúdos para decorar que não se explicam e que nenhuma relação têm com as necessidades de ensino dos professores do secundário. Entre a chatice formalista e oca, e a palhaçada do Feng Shui, venha o diabo e escolha — e os professores escolhem.

Sem uma universidade de excelência não é possível ter um ensino de qualidade. Sem uma universidade de excelência não é possível também ter uma cultura política saudável, não é possível ter jornalismo de qualidade, não é possível ter empresários competentes — porque os agentes culturais, os jornalistas, os políticos e os empresários são formados nas universidades. (E, curiosamente, os melhores destes profissionais são os que mais mal dizem das universidades.) A excelência da universidade é um factor central no desenvolvimento de um país civilizado. E quando algo corre mal em qualquer um dos sectores atrás discriminados, é sinal seguro de que a universidade está doente e precisa rapidamente de ser reformada. A universidade não pode continuar a ser uma coutada de privilégios. Há uma responsabilidade social e um profissionalismo que as universidades deveriam exigir a si próprias. Se não o fazem, é porque são meras ilusões sem sentido, onde se arrastam vaidades fátuas sem futuro, como Eça de Queirós tão bem retratou.

Desidério Murcho
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