Batman
13 de Julho de 2005 ⋅ Opinião

Como é ser o Batman?

Frederico Sólon

Permitam-me que distorça um pouco o título do famoso artigo de Nagel e o use para formular uma opinião sobre o funcionamento de um certo departamento de filosofia. Este departamento aparenta ser, aos olhos menos habituados, um departamento vulgar, inserido numa faculdade vulgar, de uma universidade vulgar, num país vulgaríssimo. Mas não é. Não é, porque neste departamento passam-se coisas ainda mais estranhas do que em Gotham City.

Para começar, expliquemos os métodos de avaliação usados neste departamento. Numa palavra: ninguém os entende. Logo, ninguém os pode explicar. Os alunos que pertencem a este departamento não entendem nem os parâmetros de avaliação nem a sua aplicação. Por que será? Bem, talvez seja simplesmente porque ou os professores não os explicam convenientemente ou não os aplicam imparcialmente.

O que realmente acontece neste departamento, e que não deveria acontecer, é que as avaliações são feitas (salvo raras excepções, diga-se) com base nos mais incríveis parâmetros, do tipo, "ir às aulas — por ir — mesmo que se aproveite o tempo de uma aula da treta para mandar umas mensagens, copiar uns apontamentos ou controlar o parceiro sexual do lado"; "polir uma graxa à hora do café"; "bater a pala nos corredores quando se cruza com o prof."; ou, ainda, "dizer coisas muito profundas mas sem qualquer sentido no meio de uma discussão sobre Kant ou Derrida". Enfim, contra mim falo. O melhor seria estar caladinho.

Não queria, mas tenho que continuar porque o que se passa em certos círculos é bastante triste. Por exemplo, no que toca à produção filosófica dos alunos deste departamento (excluindo, novamente, algumas raras excepções), deve ter-se em consideração o seguinte: quanto mais estapafúrdia, melhor! Quanto mais profunda(mente) incompreensível for, quanto mais críptica, literária, retórica, ou poética (de 10.ª categoria, claro), quanto mais empenhada em dizer coisa absolutamente nenhuma ou qualquer coisa sem qualquer interesse, maiores possibilidades há de essa produção conseguir um notão. Experimente-se, por exemplo, fazer uma incursão alienada pelo Ser e o Nada do Sartre; encete-se uma digressão infantil pelos mistérios do Pascoais; invente-se uma parábola rocambolesca sobre os filmes estopada do Sokurov ou sobre a ininteligibilidade e as unhas do Deleuze; entre-se nos Caminhos da Floresta embebido por um espírito Nietzschiano; diga-se muitos nomes famosos (ou nem por isso) e cite-se de memória centenas de obras que não se leu ou não se estudou; e, milagre dos milagres, está-se garantido!

Bem, talvez não seja bem assim. O êxito académico — de um qualquer aluno de um qualquer grau de estudos ministrado por este departamento — depende um pouco da astúcia em perceber o que é que se deve "dar" a "quem". É uma astúcia da razão, mas não a de que falava Hegel. É que, neste departamento surrealista, estão instituídos certos grupos de interesse. São interesses sociais, financeiros, académicos e, at last but not the least, filosóficos. Os alunos são assim presenteados com "fanáticos" das mais variadas correntes, vontades, disposições, credos, dogmas e doutrinas — já para não falar de opiniões. Depois há também os párias, os excomungados e os bichos-do-mato, todos eles mal vistos pelos colegas e pelos alunos.

Enfim, há um pouco de tudo neste departamento, desde autoritarismo quase ditatorial (temos lá agora uma espécie de Mayor que quer carregar nos seus ombros todos os fardos de "Gotham" e, por contraponto, quer decidir sobre tudo ao mesmo tempo sem passar cavaco a ninguém), à timidez própria da insegurança, passando pelo exílio voluntário, até ao mais rigoroso ostracismo. Enfim, há um pouco de tudo para todos os gostos. (Por isso é que não admira a ninguém que alunos que não conseguem notas no secundário para entrar nos cursos que desejam, e são as suas primeiras escolhas, se sintam inclinados a entrar em filosofia no referido departamento. Julgo que isso acontece porque a fama de "democracia da balda", "facilitismo" e "dá-me graxa que eu passo-te" já atravessou largamente as fronteiras do departamento a que me refiro).

Daí que o aluno tem de criar aquilo a que designo por uma certa "cultura-da-esperteza- saloia". Perante tanta diversidade seria uma tolice não fazer uma diferenciação positiva: não se dá gato a quem gosta de cão, muito menos caviar aos amantes da sardinha assada e do courato. Ele há coisas que, decididamente, não combinam. Cabe ao aluno encaixar as peças do lego no sítio correcto e esperar que tudo corra pelo melhor. A aprendizagem desta esperteza saloia é difícil: faz-se à custa de alguma reflexão sobre a nossa própria experiência e sobre a compreeensão dos casos de injustiça que se vão observando com o decorrer do tempo. Além disso, constrói-se à custa de muita incerteza, do sacrifício de alguma criatividade, notas, amizades etc. Mas, enfim, a esperteza "faz-se" e ajuda a fazer o curso. Logo, compensa desenvolvê-la.

Queria agora voltar ao Batman. Todos sabemos que é um herói justiceiro e absolutamente imparcial (daí não existir, claro, porque não pode haver tal coisa no mundo). Todos temos presente a sua grande capacidade para distinguir o bem do mal, o justo do injusto, o meritório do não-meritório, o competente do incompetente etc. Todos temos presente na memória a sua "estilosa" fatiota negra (algo pirosa, diga-se em abono da verdade), invulnerável às balas e à injustiça — mas não às mulheres. Todos os que conhecem a história do Batman sabem também que Bruce Wayne é o homem que está por debaixo da fatiota. Todos sabem igualmente que a máscara do Batman simboliza uma espécie de Véu de Ignorância (à lá Rawls), e que, quando a coloca, Bruce Wayne deixa de ser o homem para passar a ser um demónio vingador, virtualmente indestrutível, imparcial, implacável, blá... blá... blá...

Bem, isto é tudo muito interessante; mas como é que está relacionado com o tópico deste artigo? Eis a relação. Alguém que chega a professor universitário (mas não só) deveria pensar em como é ser o Batman, ou algo aproximado. Deveria pensar em que medida poderia ser o mais imparcial possível. Deveria pensar como deve avaliar correctamente — mesmo friamente — o desempenho dos alunos. Deveria, claro, usar critérios coerentes de justiça para o fazer, isto é, ter como que uma "cegueira" para o acessório, a mediocridade e o supérfluo, e um radar para detectar o trabalho, o rigor e a criatividade. Deveria, por fim, ser imune à graxa e às querelas intestinas (nunca se viu o Batman andar à pancada com o Super-Homem, não é?).

Julgo que se entende perfeitamente o que quero dizer; até porque é trivial. Mas o facto é que o trivial nem é bem visto nem bem aceite no referido departamento. Deve ser um vício profissional, a saber, ignorar a trivialidade e procurar a verdade onde ela não poderá nunca estar.

Mudemos agora de área, mas não de assunto. Importa salientar que até o Batman sabe que, apesar de culto, forte, rico e bonito (depende do actor, dizem as mulheres) deve principalmente ser modesto e humilde. Ele sabe que, por muito que saiba ou julgue saber, por muito dinheiro que tenha, por muito domínio das artes marciais, e por muitos gigs que invente para a sua fatiota, há sempre alguém que sabe, tem, pode, domina etc., um pouco mais que ele. Recordemos o velho ditado mafioso: There is always a bigger fish. Cai que nem uma luva nesta situação, porque uma larga fatia dos docentes de "Gotham" está convencida que é insuperável e que é uma espécie de Uno dos Unos de Plotino ou a fonte de energia do primeiro motor aristotélico. Enfim, é a mania das grandezas. Já dizia o sábio popular: "presunção e água benta, cada qual toma a que quer".

Voltemos ao Batman. Ele sabe perfeitamente que está sujeito a falhar, pois não passa de um homem disfarçado de morcego com o fim de aterrorizar os maus da fita. Ele sabe que é apenas um homem, e não um deus, com todas as vantagens e desvantagens que essa sua situação acarreta. É essa condição de homem do Batman que faz dele o meu super-herói favorito. O Batman é um homem, não um semideus, como por exemplo o Super- Homem. Ele, o Batman, tem dúvidas, complexos, problemas pessoais e sabe-se lá mais o quê. Mas, apesar disso tudo, de cada vez que veste a sua fatiota pirosa, mentaliza-se que tem uma tarefa para cumprir, e que a importância dessa tarefa é tal que tem que se sobrepor a todos os problemas psicológicos, pessoais, sociais ou outros que o homem por debaixo da máscara possa ter.

Ah! É verdade! Ia-me esquecendo disto! Até o homem-morcego sabe que pode vir a ser derrotado um dia. Ele sabe que é a lei natural das coisas, e que o tempo não perdoa, independentemente das muitas reciclagens que faça ao seu extraordinário fato e respectivos acessórios, ou do aumento de horas passadas no ginásio a desenvolver bíceps, ou do tempo dispendido na biblioteca a dar de comer aos neurónios. Por isso, não é de admirar que o Batman perca uma luta (de treino) com o seu discípulo, o Robin. Se até o Kasparov perde partidas de xadrez para os seus discípulos, por que raio certos professores de "Gotham" não poderiam perder disputas com os seus alunos? Mas não; isso, para eles, é impossível! Pensam: "Se fizemos uma tese de doutoramento (ou mestrado) somos invencíveis! Vamos agora passar vergonhas por causa destes fedelhos? Nem pensar! Temos um belo disfarce de sabedoria, vamos esconder as nossas fraquezas por detrás dele".

Voltámos aos sofistas de segunda e terceira categorias; sem ofensa para os sofistas, claro. É que os sofistas defendiam abertamente a sua posição, num combate verbal minimamente "justo". Mas em "Gotham" o combate verbal pára imediatamente — na maioria das vezes — quando há insinuações quanto às consequências para os arguentes que não têm ainda o "canudo". E, com isto, lá se vai a velha tese de Protágoras de que todos os argumentos podem ser abordados de duas perspectivas. Aqui só há uma; escusado será dizer qual; toda a gente já compreendeu.

Eis por que razão do ponto de vista pedagógico seria interessante que alguns docentes do referido departamento se perguntassem "como será ser o homem-morcego?". Provavelmente por não o fazerem é que alguns podem ser comparados ao Joker, que, como se sabe, é um dos arqui-inimigos mais perigosos do Batman. Alguns dos Jokers de que falo são verdadeiras wild-cards, anedotas sem rumo, método e objectivos, com a agravante de se darem ares de grandes filósofos. Enfim, vale que nos fazem rir; embora, por vezes, a situação dê mais para chorar do que para rir.

Fiz neste artigo um deliberado ataque ad hominem a certos Jokers que por aí andam a ensinar — não se sabe bem o quê — em universidades portuguesas. Não digo quem são, nem quem sou, porque, como é sabido, uma das principais regras de vida para quem quer ser um "super-herói" é o anonimato. Imagine-se as desgraças que poderiam acontecer a Peter Parker se o público, em geral, e os seus inimigos, em particular, soubessem que ele é o Homem-Aranha nas horas vagas. Coitado do pobre Peter, nunca mais teria nem um minuto de sossego nem qualquer perspectiva de uma vida decente. Transporte-se agora isto do mundo dos super-heróis para o mundo académico (ou será o contrário?) e percebe-se facilmente o que se quer dizer com a analogia.

Resta deixar claro que não há ressentimentos nem traumas de maior aqui para o meu lado. Se digo o que digo é porque, tal como o Batman, aprendi gradualmente a colocar-me numa "posição elevada" para melhor observar o que realmente se passa, coisa que não é possível fazer de uma "perspectiva térrea".

Tal como o Batman, temos a pretensão de representar um grande número de indivíduos que se sentem injustiçados pelos Jokers deste mundo. Mas claro que ninguém levanta cabelo quando há problemas graves em Gotham City. Quando isso acontece, os ofendidos limitam-se a ligar o aparelho que projecta o símbolo do Batman no céu nocturno e esperam que ele apareça para salvar a donzela em apuros e castigar os vilões. Isso! Vão esperando e não façam nada! Pode ser que ele apareça qual Sebastião salvador. Vão esperando... O meu conselho é que esperem sentados.

Batman forever!

Frederico Sólon
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