Gotham City
13 de Julho de 2005 ⋅ Opinião

Contos de Gotham

Orlando R. Vicente

Venho falar-vos de Gotham. Gotham é um certo departamento de filosofia de uma determinada faculdade nacional. Gotham é um local sinistro: composto somente por ruelas obscurecidas pela total ausência de luz nocturna. A cada esquina ouvem-se burburinhos, palreios surdos que ninguém entende, que ninguém sabe de onde vêm. Em vigília, aparenta normalidade enganadora. Mas por detrás das suas paredes creme e solarengas algo de invulgar se passa. É sobre o que se passa além paredes este relato. Gotham tem dois tipos de cidadãos: docentes e discentes. São separados pelas suas funções. Ao discente caberá aprender e formar-se, ao docente caberá ensinar e avaliar. Se os docentes não cumprirem com as suas funções de forma competente, as funções específicas do outro tipo de cidadãos encontram-se comprometidas. Se o docente não ensinar, o discente não aprende; se o docente não avaliar competentemente, o discente não se forma (ou forma-se em desacordo com o seu mérito). O facto de o docente não conseguir ensinar é sinal de incompetência (salvo excepções. Dirá o Padre António Vieira que "ou é porque o sal não salga ou é porque a terra se não deixa salgar". Logo, aqui também há quota-parte de responsabilidade por parte dos alunos). Por sua vez, o facto de o docente não avaliar em conformidade com os critérios estabelecidos é falta de seriedade e honestidade no desempenho das suas funções. Há casos de incompetência e há casos de falta de seriedade, e, pior ainda, há casos de incompetência e de falta de seriedade simultaneamente. Os últimos naturalmente serão os mais graves.

Por que razão sai a incompetência dos docentes incólume? Porque os docentes em Gotham não são avaliados. Mesmo quando é do conhecimento público que dado professor é incompetente, os seus pares - por variados motivos que podem ser praticamente todos reconduzidos ao pequeno tráfico de influências nos órgãos decisórios do corpo docente de Gotham - nada fazem em relação a essa incompetência, seja individualmente, seja por meio de um dos órgãos de Gotham com poder suficiente para o fazer. Os alunos também deveriam ter possibilidade de alertar para estas situações. As possibilidades são escassas, e as que existem são filtradas de tal forma pela engrenagem própria de Gotham que o alerta tropeça em ouvidos de mercador. A incompetência deveria ser erradicada - com despedimentos ou com outra pena menos grave. Ao invés, muitas vezes, é bonificada com ordenados chorudos e com posições de relevo no interior do departamento. Isto sucede em Gotham!

De um corpo de docentes incompetente, forma-se um corpo de discentes proporcionalmente incompetente. Isto condena o futuro de Gotham à incompetência, perpetuando-a. Que se adquire com a incompetência? Por que razão é ela fomentada? Porque é uma parte constitutiva da engrenagem departamental: "as coisas funcionam assim, desde sempre". Não é que se tenha seja o que for a ganhar com a incompetência, bem pelo contrário; no entanto, é premiada porque os incompetentes também têm interesses que querem ver salvaguardados, e outros docentes necessitam, por sua vez, dos incompetentes para salvaguardar os seus interesses nos órgãos departamentais.

A falta de seriedade é um caso bem mais bicudo do que o anterior; tem mais nuances. Se calhar, é mesmo mais grave. Trata-se da perversão do mecanismo de avaliação de forma a prejudicar ou beneficiar indevida e conscientemente alguns discentes. Gotham, por ser um departamento de filosofia, não é exactamente igual a outros departamentos. Portanto, não é de estranhar que os critérios de avaliação sejam muito próprios e diferentes dos critérios em outros departamentos. O que é inexplicável é que muitos docentes pratiquem critérios de avaliação totalmente arbitrários. Pior, fazem-no sistematicamente. Aquilo que se espera de um departamento universitário é que os alunos ligados a esse departamento sejam avaliados de acordo com o seu mérito, e o seu mérito é determinado pelos critérios de avaliação: quando os satisfazem, merecem uma boa nota; quando não os satisfazem, não o merecem.

Acredito haver casos em Gotham nos quais os docentes não leiam os elementos de avaliação dos seus alunos, e os avaliem apenas de acordo com critérios que nada têm a ver com critérios académicos: desde o género do aluno, ao seu ar, ao seu nome, a um gosto particular por uma corrente filosófica, ou a qualquer outro motivo que não permita um determinado aluno cair nas graças do respectivo professor. A vida em Gotham é medonha! Assim, bons alunos são deixados para trás, ou passam com péssimas notas, enquanto alunos simplesmente perdidos nas vielas de Gotham, esperando encontrar o Minotauro, sem grande aptidão para a investigação e trabalho filosóficos, são premiados. A incompetência é premiada em ambos os tipos de cidadão.

Por que razão não há queixa dos discentes mais afectados? E por que razão, quando há, não é ela efectiva? Na maior parte das vezes, não há qualquer queixa, porque o professor tem na sua posse todos os elementos de avaliação, porque ninguém sabe verdadeiramente quais são os critérios de avaliação estabelecidos, porque não há informação precisa acerca de quais os locais/órgãos em que este género de queixas deve ser apresentado e, finalmente, porque há receio (justificado) da parte dos alunos de represálias perpetradas pelos docentes. Os atentados à honestidade escapam desta forma.

Por que razão as queixas não surtem os efeitos desejados? Porque determinada parte do corpo docente se unifica contra elas, e como a eles cabe, em última instância, a decisão, nada é levado a efeito, no fim de contas. O clima de desconfiança e ameaça reina em Gotham! Imagine-se agora o que é haver docentes que não cumprem qualquer das suas funções, isto é, que sejam incompetentes e desonestos. A bizarria que isso provoca. E há em Gotham casos assim. Como se podem resolver estas faltas graves? Como se pode mudar consideravelmente o estado de coisas? O cenário não é animador. Considerável parte dos alunos, legitimamente preocupados com a sua média de final de curso, escolhe as cadeiras mais mirabolantes que Gotham disponibiliza. Isto para que, com relativo pouco trabalho e esforço, obtenham uma boa média no final. A própria política praticada no departamento permite e fomenta o florescimento deste género de cadeiras. Não é por mero acaso que são aquelas que têm a maior assistência. São estas cadeiras que menos ensinam aos alunos, pelo menos acerca de filosofia, e simultânea e consequentemente as mais fáceis de se obter a nota pretendida. Não estou a responsabilizar primariamente os discentes, tal não deve ser feito. Trata-se somente da resposta normal dos alunos às falhas graves do sistema departamental. Ninguém os pode censurar. No entanto, se alguma mudança virá por parte dos alunos, este género de respostas tem de cessar, para que o ciclo seja finalmente quebrado. Dos professores, mudanças não se devem esperar; o estado de coisas é-lhes propício. Por isso digo que o cenário é desanimador. Gotham parece condenado ao falhanço.

Resta-nos projectar um sinal luminoso no ar: "Batman precisa-se!" E aguardar que o herói chegue.

Batman forever!

Orlando R. Vicente
orlandismos@hotmail.com
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