Meditação (A Prece), de Alexei Jawlensky (1864-1941)
29 de Janeiro de 2006 ⋅ Opinião

O filósofo desempregado

Luís Estevinha Rodrigues
Universidade de Lisboa

Há coisas tão evidentes que se torna extremamente difícil negá-las ou ignorá-las. Uma delas é a má imagem crónica que uma grande maioria dos portugueses tem do filósofo, principalmente do português, mas também do não-português. Certo. Mas pode perguntar-se qual é a novidade em constatar esta realidade. Não é este estado de coisas evidente? Não foi já, recorrentemente, exposto em muitos e bons artigos? (Gosto especialmente deste, mas há muitos outros.) Então, voltamos ao assunto porquê? Bem, se me permitem, voltamos para dar conhecimento do que aconteceu recentemente a um colega. Este meu colega contou-me uma história, da qual foi protagonista, que atesta bem do desprezo de que os filósofos são alvo no nosso país. Que esse desprezo pelo filósofo e respectivo trabalho é um facto, não espanta ninguém ou quase ninguém; mas que ele venha do próprio estado, já se nos afigura como mais estranho.

Para se perceber o que está em jogo, convém esclarecer o que esteve na origem da caricata mas pouco hilariante situação em que se viu esse meu amigo. Não fosse a relação de proximidade e confiança que mantenho com ele há longos anos, nem acreditaria no que me contou, tal foi o estado de descrença e perplexidade em que fiquei depois de ouvir a sua história.

Chame-se a esse meu amigo S. S teve um começo de vida acidentado: más orientações traduziram-se em más escolhas; mau carácter e rebeldia originaram um mau começo. Depois de assentar numa profissão ligada aos serviços, de casar e de ter filhos, S acomodou-se durante muitos anos; sintoma claro de uma vida banal pautada pelo stress, cansaço e resignação. Talvez a conjunção de todos estes factores tenha funcionado como uma espécie de catalisador que despertou em S a consciência da sua própria estupidificação, recorrente e gradual. Decidiu então reiniciar os seus estudos numa área que sempre o fascinara: a Filosofia. Contra ventos e marés, dificuldades laborais, logísticas e financeiras, más vontades e invejas, mas também com a preciosa ajuda da família mais próxima, S lá conseguiu, com algum mérito, diga-se, concluir a sua licenciatura em filosofia. Fê-lo num tempo recorde (o do curso) com uma média bastante boa, o que lhe permitiu pensar em outros "voos". Todavia, fê-lo também a expensas da sua estabilidade laboral e financeira, acabando por vir-se confirmar o risco de desemprego (isto não é um apelo à piedade — é a constatação dos factos).

Vendo-se na situação de desemprego, tal como milhares de portugueses, diga-se, S tentou durante uns tempos reentrar num mercado de trabalho que bem conhecia. Não o conseguindo, tentou outros. Tentou quase tudo, excepto o crime e a fraude (tão caros a tantos portugueses, de fato-macaco ou colarinho branco). Claro que a idade "avançada", 38 anos, já não lhe permitia dispor de grandes esperanças, principalmente num país cujo primeiro-ministro pensa resolver o problema do desemprego empregando mil jovens recém-licenciados e deixando no processo milhares de trintões e quarentões sem qualquer perspectiva ou resposta laboral. Enfim, perante este quadro sombrio, S lá se inscreveu no Centro de Emprego para poder usufruir da respectiva pensão social e, quem sabe, ter um trabalho honesto. Contudo, vendo bem as coisas, nada disto era estranho ou novo no panorama laboral português: S era apenas mais um recém-licenciado, serôdio, é verdade, a viver da piedade social. Mas S não se resignou; concorreu a um financiamento estatal para investigação, e, vá-se lá perceber como, talvez por mérito ou talvez não, conseguiu-o.

É por aqui que começa o episódio caricato que quero relatar. Tendo passado a ser investigador por conta do estado, S viu-se forçado a declarar essa situação no Centro de Emprego, isto para não haver acumulação ilegítima de duas pensões sociais: a bolsa de estudo e o subsídio de desemprego. Fê-lo aquando da sua chamada ao Centro de Emprego para uma das já famosas reuniões organizadas pelos Centros em que se juntam numa sala em média quinze a vinte desempregados para discutir e trocar ideias sobre a situação pessoal e profissional, um must see imperdível: quer pela falta de tacto demonstrada pelo sistema, quer pela ausência de soluções apresentadas pelos técnicos (ou pelo ridículo das que apresentam), quer pelo constrangimento psicológico das pessoas presentes, a fazer lembrar as terríveis situações da Grande Depressão americana da década de 30 do séc. XX. E foi numa dessas reuniões, a fazer lembrar reuniões dos Alcoólicos Anónimos ou uma das sessões de terapia de grupo para pessoas com problemas mentais e psicológicos (sem desprimor ou desprezo para com os mesmos), que S informou o técnico de emprego responsável pela condução da sessão sobre a sua nova situação de investigador por conta do estado. Isto gerou desde logo uma grande perplexidade na pessoa em questão, bem como em muitas das outras lá presentes. Como era possível uma reconversão tão grande? "Burro velho não aprende línguas", leu S nos olhos do técnico. Como é que um tipo que ainda há pouco era técnico de serviços comerciais podia agora aspirar ao estatuto de investigador académico de ponta? Para mais financiado pelo estado? Em quê? Filosofia?! Que tolice! Que coisa estranha! Ainda se fosse em serviços de higiene ou como formador de formadores, algo com uma forte componente prática e pragmática. Sim, se fosse isso até se entenderia a reconversão. Mas, como filósofo?! Para que raio serve isso da filosofia?

S foi então rotulado como um "caso especial" pelo técnico de emprego. Este pediu-lhe para o acompanhar no final da reunião, tendo em vista actualizar a sua ficha informática de "cliente" subsidiado pelo estado. Chegados ao gabinete, o técnico perguntou a S se ele desejava manter a inscrição no Centro de Emprego. S percebeu imediatamente que intenção do técnico era anular a sua inscrição; pois o técnico pensava agora que, como S já tinha uma ocupação, era perfeitamente possível "anular" a sua condição de desempregado, mudando as informações contidas no registo informático ou mesmo anulando-o. Assim matava-se dois coelhos com uma só paulada: menos um para o técnico se preocupar e também menos um a contar para a estatística do desemprego no país. Mas o meu amigo S recusou anular a inscrição, e é por aqui que surge o que penso ser o mais caricato e incrível desta história toda. O técnico de emprego perguntou a S se queria manter na sua ficha os dados desactualizados, nomeadamente que S ainda era técnico de serviços comerciais. Sem qualquer desprimor para a classe dos técnicos de serviços comerciais, cuja imagem e bom-nome defendeu durante muitos anos, S declarou que tinha agora outro estatuto: filósofo e investigador. Perguntou então ao técnico se podia inscrevê-lo como tal. O que se seguiu foi digno de ser rotulado de surrealista, quiçá uma cena que não nos espantaria se tivesse acontecido num país sul-americano ou subsariano, mas não em plena Europa. Então não é que o técnico informou S que a classe profissional de filósofo não existia no sistema! Quer dizer, o sistema, inclusive o informático, pelo que entendeu S, não permitia que se introduzisse nem "investigador" nem "filósofo" — embora permitisse "sociólogo", "psicólogo", "antropólogo", "matemático" ou "médico".

Mas isto não ficou por aqui. O técnico informou S que por S ser filósofo (leia-se, licenciado em filosofia), só poderia inscrevê-lo como, pasme-se, professor! Este era, segundo o técnico, o enquadramento normal dos licenciados em filosofia desempregados. O meu amigo retorquiu que nem sequer tinha feito as disciplinas pedagógicas necessárias para o ensino estatal e que, por isso, não podia dar aulas ou concorrer para professor, fosse qual fosse o grau ou sistema de ensino. Mas isso não preocupou minimamente o técnico, que revelou a S ser esse o procedimento usado — e em vigor — desde 1994. Se aparece um desempregado em filosofia, inscreve-se como professor. Ficou então S inscrito como professor no Centro de Emprego sem 1) nunca ter dado uma aula na vida e 2) não estar minimamente habilitado — profissional ou curricularmente — para o fazer.

Dizia-me S há uns tempos, em alegre cavaqueira comigo e com outros colegas aspirantes de filósofos, que a filosofia tem utilidade. Dizia-me que os seus objectivos agora passavam por investigar, investigar, investigar, tal como faz um cientista médico, um biólogo farmacêutico, um astrofísico ou um arqueólogo de campo. Mas como podem os filósofos em Portugal adquirir o mesmo estatuto de investigadores que têm estes investigadores dos mais variados ramos da ciência? E de que serve fazê-lo? Não é verdade que neste país a grande maioria das pessoas continua a ter uma imagem errada do que é ser filósofo? Como consegui-lo se o próprio estado não reconhece os filósofos como outra coisa que não seja... professores de filosofia? Então a filosofia ensina-se apenas para poder ser ensinada? Que diabo de sistema é este que fomenta a redundância? Se pode até ser verdade que algo cheira muito mal no Reino da Dinamarca, não é menos certo que algo fede na República Portuguesa, pelo menos quando se trata de enquadrar e reconhecer os seus filósofos.

Luís Estevinha Rodrigues
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