O passado e o futuro da filosofia

Desidério Murcho

Ao longo dos seus 25 séculos de existência a filosofia tem sido muita coisa, desde ciência mal praticada até pura superstição religiosa. Mas, se pensarmos bem, também a ciência e a arte têm sido muita coisa ao longo da história. Newton, por exemplo, é uma das maiores figuras de sempre da ciência; todavia, era uma pessoa supersticiosa, que desenvolvia pseudo-investigações em alquimia, que ele considerava muito superior à física. Quer a ciência quer a filosofia têm de olhar para os seus passados respectivos com um olhar crítico e aproveitar o bom e excluir o mau.

Os séculos XIX e XX representam para a filosofia o que os séculos XVII e XVIII representaram para a ciência. Durante séculos, a ciência não se distinguia claramente da crendice, do ocultismo, e dos jogos de palavras. Faltava-lhe uma visão clara da sua própria natureza e dos métodos de investigação fidedignos. Isso foi conquistado a pouco e pouco, e todos nós conhecemos os heróis dessa revolução: pessoas como Galileu ou Newton.

O mesmo acontece nos séculos XIX e XX na filosofia. Russell e Moore foram responsáveis, juntamente com o Círculo de Viena, pelo princípio de uma revolução que devolveu à filosofia a sua natureza própria — que antes esteve enredada em jogos de palavras e numa falta gritante de um método fidedigno. Tal como Galileu deitou mão do telescópio e abandonou a autoridade da Bíblia e de Aristóteles, assim também Russell e o Círculo de Viena deitaram mão da lógica e abandonaram a autoridade dos jogos de palavras e da confusão mental.

A nova ciência reconquistou a sua verdadeira natureza, procurando o melhor que ela própria tinha produzido na sua história, e avançando na mesma direcção mas agora com novos instrumentos. O mesmo fez a filosofia. É por isso que hoje se pode falar de progresso em filosofia, apesar de não se tratar de progresso no mesmo sentido em que há progresso em ciência. Mas hoje compreendemos muito melhor a natureza dos problemas da filosofia que os grandes filósofos do passado tentaram, heroicamente, resolver. E temos hoje instrumentos que nos permitem enfrentar esses problemas como nunca antes foi possível.

Infelizmente, a revolução filosófica tarda a chegar a Portugal, tal como a revolução científica tardou também. Mas acabará por chegar, e a filosofia baseada em jogos de palavras acabará por desaparecer, transformando-se numa curiosidade popular, como é hoje a astrologia e a alquimia, que não têm obviamente lugar nas universidades nem no ensino secundário.

Desidério Murcho
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