O Significado das Coisas, de A. C. Grayling
10 de Março de 2006 ⋅ Opinião

Nacionalismo

A. C. Grayling
Birkbeck College London

O nacionalismo é a nossa forma de incesto, a nossa idolatria, a nossa demência. O "patriotismo" é o seu culto.
Erich Fromm

O nacionalismo é um mal. Provoca guerras e tem as suas raízes na xenofobia e no racismo. É um fenómeno recente — uma invenção dos últimos séculos — que prestou um excelente serviço a demagogos e tiranos, e a ninguém mais. Disfarçado de patriotismo e amor pelo país, tira partido da sem-razão da psicologia de massas para fazer parecer aceitável, e mesmo honroso, vários horrores. Por exemplo, se alguém lhe dissesse: "Vou mandar o teu filho matar o filho dos teus vizinhos", com certeza protestaria veementemente. Mas deixe seduzir-se com os seus gritos de "Rainha e Nação!", "A Pátria!", "O meu país, com razão ou sem ela!" e vai dar consigo a permitir que ele mande todos os nossos filhos matar não apenas os filhos de outras pessoas, como outras pessoas indiscriminadamente — que é o que fazem as bombas e as balas.

Os demagogos sabem muito bem o que fazem quando pregam o nacionalismo. Hitler disse: "A eficácia do chefe verdadeiramente nacionalista está em evitar que o seu povo disperse a atenção, mantendo-a assestada num inimigo comum". E ele sabia a quem apelar: Goethe observara há muito que os sentimentos nacionalistas "conhecem a sua maior força e violência junto das pessoas com menor grau de cultura".

Os nacionalistas apropriam-se de determinados desejos inatacáveis e misturam-nos com outros inaceitáveis. Individualmente, desejamos tratar da nossa vida — isso é inatacável. A maior parte de nós valoriza a cultura que nos modelou o desenvolvimento e nos deu o sentido que possuímos de identidade individual e colectiva — também isto é inatacável. Mas o nacionalista persuade-nos de que a existência de outros grupos e culturas coloca de alguma forma estas coisas em perigo, sendo a única maneira de as proteger vermo-nos como membros de um colectivo distinto — definido em termos de etnia, geografia, uniformidade linguística ou religiosa — e construirmos um muro à nossa volta, que nos isole dos "estrangeiros". Não basta que os outros sejam diferentes; temos de vê-los como uma ameaça — pelo menos para o "nosso modo de vida", talvez para os nossos empregos, e mesmo para as nossas filhas.

Quando as colónias ultramarinas da Europa reclamaram a sua independência, a única retórica a que se pôde recorrer foi o nacionalismo. Foi bastante útil aos unificadores da Itália e da Alemanha no século XIX (que, por sua vez, abriu caminho a algumas das suas actividades no século XX) e vemos várias nações ex-coloniais ir hoje em dia pelo mesmo caminho.

A ideia de nacionalismo depende da ideia de "nação". A palavra não tem sentido: todas as "nações" são híbridas, no sentido em que mais não são que uma mistura de imigrações e miscigenação de povos ao longo do tempo. Assim, a ideia de etnia é sobretudo cómica, excepto nos locais onde se pretende que a comunidade permaneceu tão remota e isolada, ou tão dominada, durante a maior parte da história, que conseguiu manter a sua reserva genética "pura" (um cínico diria "consanguínea").

Diz-se muitos disparates sobre as nações enquanto entidades: Emerson referiu o "génio" de uma nação como algo independente dos seus cidadãos numéricos; Giraudoux descreveu o "espírito da nação" como "a expressão dos seus olhos"; e abundam as afirmações sem sentido deste género. As nações são construções artificiais cujas fronteiras foram traçadas no sangue das últimas guerras. E não se deve confundir cultura e nacionalidade: não existe país no mundo que não albergue mais do que uma cultura diferente mas geralmente coexistente. Património cultural não é a mesma coisa que identidade nacional.

A cegueira das pessoas que se deixam levar pela demagogia nacionalista é surpreendente. Quem se opõe à existência de relações mais próximas na Europa, ou que procura separar-se de associações mais vastas a que pertence, faria bem em analisar as lições de tragédias como o conflito dos Balcãs ou — a mesma coisa em ponto grande — a história sangrenta da Europa do século XX.

A. C. Grayling

Tradução de Maria de Fátima St. Aubyn
Retirado do livro O Significado das Coisas, de A. C. Grayling (Gradiva, 2003)
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