Peter Fried, de Elaine de Kooning
15 de Março de 2006 ⋅ Opinião

Direito aos clássicos

Desidério Murcho
King's College London

Na edição portuguesa da Poética, de Aristóteles (Imprensa Nacional Casa da Moeda) pode-se ler esta frase do segundo parágrafo:

"A epopeia, a tragédia, assim como a poesia ditirâmbica e a maior parte da aulética e da citarística, todas são, em geral, imitações."

A mesma passagem, na edição inglesa da Penguin reza assim:

"A poesia épica e a composição de tragédias, assim como de comédias, e a arte da poesia ditirâmbica e (na sua maior parte) da música para flauta ou lira, são todas (tomadas em conjunto) imitações".

Uma regra de ouro em qualquer trabalho de tradução de clássicos é começar por se fazer esta pergunta simples: "Quem estou a procurar servir com o meu trabalho?" E a resposta correcta é: "Os estudantes e o grande público". Isto porque os especialistas não precisam de traduções portuguesas de clássicos — pois elas já existem nas línguas cultas que qualquer especialista domina. Logo, a tradução de clássicos tem de servir os estudantes e o grande público. Isto significa que tais traduções têm de usar uma linguagem directa e acessível: a dificuldade na leitura tem de resultar exclusivamente da sofisticação do texto original, e não de uma linguagem desadequada. Significa também que as traduções de clássicos não são o lugar apropriado para a exibição de originalidades interpretativas, cujo lugar próprio são as revistas académicas da especialidade. Acresce que o texto original tem de ser acompanhado de uma introdução verdadeiramente informativa para estudantes e para o grande público, e não de um tratado académico para especialistas; e de notas igualmente esclarecedoras, informativas e despretensiosas, rigorosas e directas, úteis para o grande público e para os estudantes.

Para se traduzir bem um clássico da filosofia exige-se uma sólida formação filosófica, que garanta uma sensibilidade à estrutura lógica dos textos. Não se pode confundir premissas com conclusões, nem disjunções com conjunções. Não se pode encarar indicadores lógicos de conclusões (como "logo", "portanto", "consequentemente") como se tivessem apenas o papel de dar ritmo ao texto, podendo portanto o tradutor omiti-las ou substitui-las por outras palavras que têm um papel lógico inteiramente distinto. Se a estrutura lógica de um texto for desprezada, o pensamento do autor torna-se implausível e até aparentemente aleatório.

Na recente edição da Retórica, de Aristóteles (Imprensa Nacional) pode-se ler o seguinte:

"Pertencem a esta arte o credível e o que tem a aparência de o ser, como são próprios da dialéctica o silogismo verdadeiro e o silogismo aparente" (pág. 1355b).

Claro que Aristóteles não comete o erro de pensar que um silogismo pode ser verdadeiro. A tradução do mesmo excerto na edição da Hackett é reveladora:

"é evidentemente também uma tarefa da mesma arte distinguir o que é persuasivo e o que parece persuasivo, tal como, no caso da dialéctica, a mesma arte distingue o que é uma dedução do que parece uma dedução".

Uma boa familiaridade com as passagens mais citadas da obra a traduzir poderia impedir o erro de omitir passagens muito citadas, como acontece na tradução da Crítica da Razão Pura, de Kant (Gulbenkian) que omite uma frase crucial de uma passagem muito citada:

"Ao que se opõe o conhecimento empírico, que é conhecimento possível apenas a posteriori, isto é, através da experiência" (pág. B3).

A Hackett é uma simpática editora americana apostada em traduzir bem os clássicos, em edições servidas por esclarecedoras notas e introduções. Valia a pena traduzir alguns dos seus títulos. Afinal, se os clássicos são património da humanidade, todos temos direito a eles e não apenas quem domina uma língua estrangeira culta.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Publicado no jornal Público (26 de Novembro de 2005)
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