O Bando de Reparações, de Tunis Ponsen (1891-1968)
16 de Março de 2006 ⋅ Opinião

Levar uma bofetada, mas tentar ser "filosófico"

Jonathan Wolff
University College London

Há uma história sobre o Rei Carlos II ter perguntado à Real Sociedade porque é que um peixe morto pesa mais do que o mesmo peixe vivo. Depois de ter recebido um certo número de eruditas explicações por parte de cientistas de primeiro plano, o Rei respondeu: "Na realidade, não pesa mais".

Um encontro recente com um jornalista deixou-me a sensação de me terem dado com um peixe morto na cara, embora me fosse mais difícil dizer quem. Recebi um email pedindo-me um comentário, em nome da Associação Britânica de Filosofia, a propósito de uma observação do ministro do ensino superior, Bill Rammell, de que "não tinha importância" o facto dos estudantes estarem a abandonar a filosofia em benefício de estudos vocacionais.

Os estudantes estarem a abandonar a filosofia e o ministro afirmar que não é grave — sugerindo que, na verdade, é até uma coisa benéfica — é um furo jornalístico. No fim de contas, qualquer coisa que Charles Clarke disse há anos sobre as universidades e o medievalismo deu azo a uma pequena, mas saborosa, escaramuça, e talvez seja mais do que tempo para termos outra. Tive a visão de uma luta de recreio, com uma turba de excitados jornalistas formando um círculo e entoando: "cheguem-lhes, cheguem-lhes, cheguem-lhes", enquanto o ministro e as sociedades científicas arremessavam uns aos outros os seus saquinhos.

Quais são, então, os factos? As estatísticas que acabam de ser publicadas mostram que as candidaturas a filosofia desceram este ano 3,9%. Claro que isto não significa que alguém haja "abandonado" a filosofia, mas apenas que houve este ano menos candidatos que no anterior. Talvez se trate de uma distinção de pormenor, mas o significado é muito diferente. Ainda assim, uma queda das candidaturas não deixa de ser preocupante. Até que ponto? Bem, este ano registou-se uma descida global das candidaturas, depois do boom do ano anterior para evitar o novo regime de propinas. Essa queda global é de 3,4%. Perante isto, uma queda de 3,9% em filosofia dificilmente poderá considerar-se um furo jornalístico. Na realidade, é difícil entender-se porque é que é notícia.

Por outro lado, registam-se quedas surpreendentes nas áreas vocacionais: mais de 7% em Direito, 10% em informática, uns espantosos 18,6% em engenharia electrónica e electrotécnica. Alguém tem uma ideia sobre a razão disto? Os grandes vencedores são enfermagem — com uma subida de 15% — e "ciências da educação" com uma subida de 16,8%. Não deixa de ser muito significativo que profissões de baixa remuneração se tenham tornado tão mais apelativas. Será que os estudantes estão a pensar trabalhar em áreas que, pelo menos no início, não lhes assegurarão um rendimento suficiente que os obrigue a devolver o valor das suas propinas?

Seja como for, o jornalista estava no seu direito de solicitar os meus comentários e, assim, eu forneci-lhe alguns que tinha produzido anteriormente. Ao fim e ao cabo, há décadas que temos de nos defender de gracinhas como "a filosofia é a ciência com a qual e sem a qual a gente fica tal e qual".

O essencial da minha resposta — maçadora, mas verdadeira — é que muitos empresários reconhecem actualmente que o ritmo da mudança no local de trabalho é tão acelerado que o que as pessoas aprendem na universidade está já ultrapassado quando chegam a sentar-se à secretária, e que, por conseguinte, o empregado actual não necessita de conhecimentos vocacionais, mas de competências de pesquisa, flexibilidade, imaginação e rigor de pensamento, argumentação e exposição. Bem-vindos à Filosofia!

Quando se verificou a fúria para introduzir no currículo a "iniciativa", foi solicitado ao nosso departamento uma análise das "competências interpessoais" que desenvolvíamos nos nossos estudantes. Para nossa delícia descobrimos que uma formação em filosofia as desenvolve a todas, excepto uma: o trabalho de equipa! Isto é algo contra o que os filósofos podem lutar a todos os níveis, e pode explicar porque é que tantos dos nossos graduados são, primeiro, trabalhadores por conta própria, e só depois, se é que o chegam a fazer, trabalham por conta de outrem e apenas em cargos superiores. Um antigo chefe do arquivo do University College London disse-me que os estudantes de filosofia que trabalhavam para ele em part-time eram problemáticos, gastando demasiado tempo a pensar em como melhorar o sistema em vez de se limitarem a utilizá-lo.

A outra resposta do meu repertório é que — e isto é algo que todos os pais devem interiorizar e repeti-lo comigo — não existe infelicidade maior do que ser-se apanhado na armadilha de um curso vocacional para que se não tem vocação. Sob todos os aspectos, é muito melhor ter sucesso num curso que nos interessa do que falhar num que não nos interessa.

Para a próxima vez, porém, já saberei que responder quando me perguntarem se é grave os estudantes estarem a abandonar a filosofia. Empertigar-me-ei, numa postura verdadeiramente majestática, para declarar: "Na realidade, não estão a abandoná-la".

Jonathan Wolff

Tradução de Luís Gottschalk
Publicado no jornal Guardian (14 de Março de 2006)
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