Autoretrato, de Amedeo Modigliani (1884-1920)
17 de Março de 2006 ⋅ Ensino da filosofia

L’Affaire Lafforgue

Jorge Buescu
Instituto Superior Técnico

O francês Laurent Lafforgue é um dos maiores matemáticos da sua geração. Tem um curriculum científico esmagador: tem dezenas de artigos de referência nos temas mais profundos e abstractos da Matemática actual; resolveu um problema fundamental conhecido como conjectura de Langlands, em aberto desde os anos 60, trabalhando com objectos matemáticos com o exótico nome de Shtukas de Drinfeld.

O mérito extraordinário do seu trabalho científico mereceu reconhecimento internacional, com as maiores distinções matemáticas: o Prémio Clay (obtido aos 34 anos!) e a Medalha Fields, a maior distinção mundial na área da Matemática, atribuída, como nos Jogos Olímpicos, apenas de 4 em 4 anos e apenas a matemáticos abaixo dos 40 anos de idade. Lafforgue é membro eleito da Academia das Ciências, director de investigação do CNRS e trabalha no mundialmente famoso IHES. Em suma, é um cientista de primeiríssimo plano em termos mundiais. E ainda não completou 40 anos.

Lafforgue é também uma pessoa de uma simpatia desarmante, humanista e de uma cultura geral impressionante, como o autor destas linhas teve oportunidade de apreciar nas conferências que Lafforgue realizou em Lisboa em 2003 (já depois de ser galardoado com a Medalha Fields). Está muito longe do estereótipo do cientista distraído ou do idiot savant.

Em Novembro de 2005, Lafforgue foi protagonista involuntário de um verdadeiro escândalo nos meios da Educação em França. Esses acontecimentos foram quase simultâneos com as revoltas nos subúrbios de Paris. Enquanto estes últimos preencheram semanas de noticiários, o caso Lafforgue passava totalmente despercebido em Portugal. Curiosamente, o caso Lafforgue tem provavelmente muito mais relação com a realidade portuguesa de 2006 do que as revoltas suburbanas: é uma manifestação extrema de sintomas idênticos aos que experimentamos em Portugal, sendo uma situação paradigmática. É útil, portanto, pormenorizar a evolução do que se passou com Lafforgue.

Depois da sua eleição como membro da Academia das Ciências, Lafforgue começou a interessar-se cada vez mais pelas questões da Educação e pelo declínio acentuado dos padrões da educação escolar em França, nomeadamente em áreas científicas. Em conjunto com colegas Académicos de áreas da Matemática e da Física (R. Balian, J. M. Bismut, A. Connes, J. Demailly, P. Lelong e J. P. Serre) elabora em 2004 um importante documento sobre Os saberes fundamentais ao serviço do futuro científico e técnico.

Na sequência do seu maior envolvimento em questões ligadas à Educação, Lafforgue é convidado em 2005 a integrar o Conselho Superior de Educação, cujo objectivo é tentar compreender as razões do estado catastrófico do sistema educativo francês e elaborar recomendações para medidas urgentes a tomar de forma a inverter o processo de degradação. O Conselho Superior de Educação, presidido por Bruno Racine, foi criado em 8 de Novembro de 2005 e reuniu pela primeira vez a 17 de Novembro de 2005.

No dia seguinte, 18 de Novembro, Racine exige a demissão de Laurent Lafforgue do Conselho Superior de Educação.

A razão do pedido de demissão ainda é mais inquietante. A 16 de Novembro, véspera, portanto, da primeira reunião de trabalho, Lafforgue tinha escrito um longo e-mail confidencial aos membros do Conselho. Nesse e-mail concretizava, com linguagem por vezes violenta, o seu diagnóstico sobre as razões do estado catastrófico do sistema educativo francês. No dia seguinte à reunião, 18 de Novembro, Racine diz a Lafforgue que esse e-mail (que era um documento de trabalho confidencial) "se tinha difundido rapidamente fora do Conselho Superior de Educação e provocava já escândalo no Ministério da Educação Nacional". Não lhe resta assim outra solução que não pedir a demissão de Lafforgue. Por outras palavras: alguém, convenientemente sem cara, achou boa ideia realizar uma fuga de informação de um documento confidencial para fazer rolar a cabeça de um especialista particularmente brilhante e incómodo, com ideias que poderiam estar perigosamente certas e poderiam mesmo, desastre dos desastres, ter sucesso. Estratégia digna de uma purga estalinista. A única diferença é que os tempos são outros: Lafforgue recusou-se a fazer autocrítica e publicou todos os documentos, incluindo o e-mail que deveria ter permanecido confidencial, na sua página Web.

É extraordinariamente instrutivo ler o documento de Lafforgue. A sua análise, embora sobre a catástrofe que reina no sistema educativo francês, transpõe-se praticamente ipsis verbis para o caso português. Chega a ser arrepiante a forma tão literal como a sua análise se adapta, o que evidencia estar-se perante um fenómeno global e não local. Em vez de extrair morais desta triste história, o autor destas linhas limitar-se-á, a partir daqui, a citar textualmente Lafforgue. O leitor é cordialmente convidado a extrair as suas conclusões. Lafforgue começa por afirmar que certos pontos da ordem de trabalhos o mergulham no desespero. De facto, "apelar aos especialistas da Educação nacional: Inspecções gerais e direcções da administração central, em particular direcção da avaliação e de prospectiva e direcção do ensino escolar" é exactamente como se formassem um "Conselho Superior para os Direitos do Homem" e se propusessem apelar aos Khmers vermelhos para constituir um grupo de especialistas para a promoção dos direitos humanos.

Lafforgue explica-se: depois de um ano e meio a estudar profundamente o estado da Educação em França, chegou à conclusão que o sistema educativo público está em vias de destruição total. Esta destruição é resultado de todas as políticas e todas as reformas levadas a cabo desde o final dos anos 60. Estas políticas foram concebidas e impostas por todas as instâncias da Educação Nacional, de inspectores e administradores às comissões de programas, pedagogos e outros especialistas das chamadas "Ciências da Educação" (aspas de Lafforgue); em suma, a Nomenklatura da Educação Nacional.

Estas políticas foram inspiradas por uma ideologia que consiste em passar a não valorizar o conhecimento, associada ao desejo de fazer a escola desempenhar outros papéis que não a instrução e transmissão do saber, à crença em teorias pedagógicas delirantes, ao desprezo das aprendizagens fundamentais, à recusa do ensino construído, explícito e progressivo, à doutrina do aluno "no centro do sistema" que "deve construir ele próprio os seus saberes".

Lafforgue sugere em seguida mais de uma dezena de livros publicados em França nos últimos três anos que fornecem um corpus factual para as suas afirmações (aparentemente em França a reacção a estas doutrinas é bem mais enérgica do que entre nós). São, sobretudo, testemunhos de professores no terreno que presenciaram em primeira-mão a catastrófica degradação do sistema de ensino público francês, cujos títulos falam em "Traição às letras", "O horror pedagógico", "Os professores acusam", "Contra os gurus do pedagogicamente correcto", "Quem teve esta ideia louca de destruir a escola?" ou "A fábrica do cretino: a morte programada da escola". Para que não houvesse interpretações simplistas de "reaccionarismo", Lafforgue explicita que o autor deste último livro, Jean-Paul Brigheli, é um professor de letras, de extrema-esquerda, que interpreta a destruição da escola como uma conspiração deliberada das classes dominantes ultraliberais.

Analisando especificamente o estado catastrófico do ensino da língua francesa, Lafforgue fornece um relatório da Associação dos Professores de Letras com base no qual afirma que "os especialistas (ou pretensos especialistas) a quem foi confiada a redacção dos programas de francês são simplesmente loucos varridos (estou a pesar as palavras)". E fornece exemplos concretos, verdadeiramente alucinantes e inacreditáveis. Não se apercebendo as instâncias políticas da natureza delirante das propostas, nem dando crédito às reacções dos professores mais conscienciosos, Lafforgue conclui que as instâncias dirigentes do Ministério da Educação estão integralmente povoadas de irresponsáveis (ou criminosos, nos casos em que esta destruição da escola foi deliberada).

Lafforgue reconhece que este movimento de degradarão educativa é muito generalizado, fazendo-se sempre em nome do "progresso" e da "modernização". Existem, contudo, excepções: países que não se deixaram contaminar pela ideologia dominante, como Singapura. Aliás, é interessante constatar que os israelitas determinaram quais os melhores manuais escolares de Matemática no mundo de hoje, chegando à conclusão que eram os de Singapura; e traduziram estes manuais, disponibilizando-os a todas as escolas de Israel.

Lafforgue recomenda páginas Web de instituições em quem confia na descrição dos problemas da Educação em Franca, como o GRIP (Groupe de Réflexion Interdisciplinaire sur les Programmes); Sauver Les Lettres (SLL); e a Association des Professeurs de Lettres (APL). Valem bem uma visita. Finalmente, recomenda a página pessoal de Michel Delord, "simples professor de matemática do secundário mas com um conhecimento impressionante da história do nosso sistema educativo". A página de Delord é, de facto, extraordinária e tem como dedicatória "Página dedicada a pais que se inquietaram por as suas crianças não saberem fazer uma divisão no Ensino Secundário e a quem foi respondido: "Os senhores são uns retrógrados".".

Não há dúvidas de que o e-mail de Lafforgue era violento na linguagem, tornando-o numa personagem incómoda. Lafforgue tornou-se um cavalo a abater e a sua purga foi instantânea. Contudo, é impressionante a precisão com que ele concretiza a evolução e as razões da degradação catastrófica do sistema educativo francês. Em três palavras: Lafforgue tem razão.

Mais arrepiante ainda é o exercício de transcrever as afirmações de Lafforgue para o caso português: pouco há a alterar. Na verdade, extrair as conclusões apropriadas do caso Lafforgue poderá ser essencial para a regeneração do sistema educativo português. Infelizmente, o desprezo a que o affaire Lafforgue foi votado pelos meios de comunicação portugueses não indica nada de bom. Quem não aprende com a História está condenado a repeti-la.

Jorge Buescu

Publicado em Ingenium: Revista da Ordem dos Engenheiros, II Série, N.º 91, Janeiro/Fevereiro 2006; retirado de Escola Secundária de Alberto Sampaio, Braga.
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