Dança de Cores, de Josef Stuefer
11 de Março de 2009 ⋅ Opinião

Mentalidade, cultura e dinheiro

Desidério Murcho
Universidade Federal de Ouro Preto

Alguns leitores ficaram, com razão, indignados com posições que defendi nos artigos "Comprar e Vender Ideias" e "Há Mar e Mar". Uma razão é que as verdades são muitas vezes desagradáveis porque destroem a imagem ampliada de nós mesmos que gostamos de cultivar. Sobre isto nada tenho a dizer, pois cada qual pode fazer uma análise dos seus próprios comportamentos e ideias e ver se se harmonizam muito bem entre si. Se virem que o índice de harmonização entre uns e outras é perfeito, é porque quase de certeza mentem a si mesmos, pois excepto os santos ninguém é um santo, ficando quase todos nós aquém dos nossos próprios ideais. Do meu ponto de vista, mais vale assumir que somos imperfeitos e nem sempre fazemos o que nós mesmos consideramos que devíamos fazer. É preferível isso à mentira de nós para nós.

Mas outra razão para alguns leitores ficarem indignados, ou pelo menos atónitos, é que do que escrevi nada se parece seguir em termos de algo que possamos fazer, cada um de nós. Contudo, isso é mera aparência. Há muita coisa que podemos fazer, cada um de nós, para melhorar as coisas, e sobretudo há uma mentalidade que podemos recusar. Em termos simples, podemos fazer o seguinte: sempre que possível, financiar os criadores de informação, software, ciência, filosofia, poesia ou artes cujos trabalhos prezamos, em detrimento dos produtos das grandes companhias. E devemos sempre perguntar para quem vai o dinheiro que estamos a pagar: para os criadores, em parte, ou na totalidade para alguém que não os criadores? Em segundo lugar, podemos recusar a ideia de que a cultura, as ciências, a filosofia e as artes devem ser gratuitas. Pois defender isto é defender inevitavelmente que estas actividades terão de ser financiadas pelos impostos das pessoas, a esmagadora maioria das quais não usufrui dessas coisas, ou pela publicidade.

No meu caso, recuso-me a usar software dito "gratuito" sempre que tenho uma opção de comprar um bom software a uma companhia pequena ou directamente a um criador. E se tiver de usar software gratuito, como é o caso do FileZilla, por não haver uma versão comercial boa, pago ao criador, e com muito gosto. No caso dos navegadores, é preferível usar o Opera, porque se trata de uma pequena empresa que paga a quem nela trabalha, em vez de usar o Firefox, que se baseia no novo tipo de trabalho escravo do séc. XXI, em que as pessoas trabalham de borla para alguns tubarões porque são religiosamente convertidas a uma causa qualquer.

Tenho música e livros ilegais no meu computador? Sim. Não sou perfeito. Mas pago sempre que possível, e pago com gosto quando gosto do que foi produzido. Procuro pensar nas consequências económicas do que pago ou não pago. Por exemplo, se eu não comprar livros de filosofia, e optar por encher o computador de versões digitais ilegais, estou a contribuir para a bancarrota das empresas que apoiam os autores, pagando-lhes, fornecendo-lhes revisores, e ajudando-os a fazer livros melhores. Não vejo mal algum em fazer o download de livros gratuitos, que entretanto estão no domínio público, porque o autor já morreu e por isso não precisa do nosso financiamento; mas se uma editora pegar nesses livros e os vender, fazendo um trabalho editorial de qualidade (cotejando originais, garantindo-me que estou a ler o que o autor escreveu mesmo e não mais ou menos o que ele escreveu), prefiro pagar — porque prefiro uma cultura baseada na precisão do que a baldice que é coisas como o Projecto Gutenberg, que não tem um controlo de qualidade adequado precisamente porque não pode pagar às pessoas para fazer esse trabalho, e não pode pagar-lhes porque disponibiliza os livros gratuitamente, quando podia vendê-los a 1 euro.

É por isso que uso os adjectivos "aristocrático" e "comunista" ao falar da mentalidade que defende dever ser gratuito tudo o que é trabalho intelectual, pois esta mentalidade implica que ou o criador é rico e por isso não precisa de ser financiado por quem usufrui do seu trabalho, ou o criador trabalha numa grande empresa ou no estado. Basta pensar que alguns dos melhores criadores do passado e do presente são pessoas que, precisamente por serem criativas, não têm grande paciência para aturar estruturas pesadas de poder, como as que existem inevitavelmente nas universidades e nas grandes companhias, para se ver a indesejabilidade do modelo comunista. E, claro, nem vale a pena explicar o problema que seria só os ricos poderem ser criadores intelectuais.

Outro aspecto que me impressiona nesta discussão é a falta de honestidade intelectual. Eu assumo desde logo que o modelo económico de financiar certas áreas da criação intelectual por meio do pagamento de cópias não é a melhor resposta. Veja-se o caso dos jornais: têm de publicar imenso lixo frívolo, para poderem ter mais leitores, para então poderem ter mais publicidade, que os torna economicamente viáveis. Mas, apesar disso, este modelo é melhor do que a alternativa em que os jornalistas dependem apenas da publicidade, como no caso da televisão aberta — razão pela qual, apesar de tudo, a informação da imprensa escrita é em geral melhor do que a informação das televisões abertas comerciais. Quando não se tem honestidade intelectual, contudo, começa-se logo por defender que o modelo que se tem em mente é perfeito, como a magia. Todos os criadores disponibilizam tudo gratuitamente na Internet e depois paga quem quer ou então só fazem as coisas depois de terem sido pagos. Não admitir sequer que, na melhor das hipóteses, este modelo enfrenta algumas dificuldades é sinal de desonestidade intelectual. É como desejar com tanta força a monarquia ou a república ou o comunismo que nos recusamos a admitir que talvez — talvez — as coisas afinal não sejam perfeitas nesse regime. E quando há desonestidade intelectual, cessa a possibilidade de discussão profícua porque nada há que possa pelo menos lançar alguma dúvida sobre o que a pessoa se recusa a pôr em dúvida: a pessoa construiu toda uma mundividência cuidadosamente talhada para acolher tudo o que lhe é favorável e para menosprezar tudo o que a põe em causa.

Trata-se, pois, de tentar ser realista e responsável. Trata-se de olhar para a realidade em vez de fingir que a realidade é como gostaríamos que fosse. Por exemplo, quando se defende que é economicamente viável um jornal online viver da publicidade, como fez o New York Times, é porque não se conhece a realidade ou nos recusamos a olhar para ela. O que este jornal fez só é possível porque o seu público-alvo é milhões de pessoas, e a minoria que clica na publicidade das suas páginas poderá ser suficiente para pagar o jornal. Isto não é possível fazer num jornal suíço, dinamarquês ou, ironicamente, português. O sistema do financiamento pela publicidade tem na Internet exactamente o mesmo efeito que teve na televisão aberta comercial: aparecimento de grandes grupos económicos e produção de lixo que possa atingir o maior número de pessoas. A informação de qualidade fica comprometida, tal como há décadas que está comprometida na televisão aberta comercial. E tal como na televisão aberta andamos há décadas a comer lixo norte-americano (e também algumas coisas de grande qualidade), comemos cada vez mais lixo norte-americano na Internet (e também algumas coisas de grande qualidade); e o problema é não se poder comer coisas de grande qualidade que sejam portuguesas ou suíças ou dinamarquesas, porque o modelo de financiamento pela publicidade privilegia os grandes grupos económicos, e estes brotam onde têm logo desde o início um público imenso à sua espera.

Uma vez mais, é uma questão de honestidade intelectual. Eu não tenho uma solução para este problema. Sei que as pessoas, na sua quase totalidade, não estão dispostas a pagar uma subscrição para ler um jornal online, mesmo que seja muito barata, porque se habituaram vir para a Internet como quem vai ver televisão: sem abrir a carteira. Já houve propostas de micropagamentos, que são tecnologicamente viáveis, mas me parecem muitíssimo impopulares. Outra proposta é os fornecedores de acesso à Internet serem obrigados a pagar aos criadores de conteúdos, como as rádios pagam indirectamente aos músicos, dinheiro esse que os fornecedores irão cobrar aos seus clientes. Isto é também tecnologicamente viável, e mais prometedor, pois não obriga o cidadão a pagar subscrições desta ou daquela publicação, livro ou música que puxa da Internet. O obstáculo principal desta opção é a mentalidade dos que querem usar a Internet sem pagar, que apresentam logo o argumento de que seja qual for o sistema usado, será possível contorná-lo tecnicamente. Mas a questão nunca é a impossibilidade do roubo mas o seu custo relativo: é com certeza possível roubar açúcar no supermercado mas a maioria das pessoas não o faz porque os custos associados não valem a pena face ao custo do açúcar. E se for verdade que nenhuma solução tecnológica é viável, bater palmas ao borlista é muito diferente de reconhecer que nada de especial podemos fazer excepto explicar às pessoas a importância de pagar aos criadores.

Se uma solução deste género não for efectivada na Internet, e não acredito que o seja em parte porque o Google teria muito a perder, a Internet será cada vez mais um domínio de frivolidades e muita, muita publicidade. Na página do criador do editor de HTML Arachnophilia, Paul Lutus, li há uns anos uma curiosa pergunta: por que razão não há publicidade nos livros, quando há publicidade em quase tudo o resto da nossa vida? A sua resposta é tola: porque os livros são para pessoas muito inteligentes, como ele. Evidentemente, não entra numa livraria há bastantes anos, com olhos de ver, para ter uma ideia do tipo de livros que se vende mais. A verdadeira resposta é outra: não há publicidade nos livros porque 1) não precisa de haver aí publicidade para esta actividade ser economicamente viável, porque o que as pessoas pagam pelos livros é suficiente para sustentar os criadores e os editores, e 2) os livros não são efémeros como os jornais e as revistas, e a publicidade só existe no mundo efémero — um anúncio publicitário com apenas seis meses pode ser totalmente ineficaz e irrelevante, ao passo que um livro com um ano é novo.

O futuro da Internet é previsivelmente tornar-se cada vez mais como a televisão aberta e como os jornais em papel: muita publicidade, muita tolice, e muita concentração nas mãos de poucas companhias gigantescas. A diferença fundamental é que as grandes companhias têm agora uma maneira de fazer dinheiro com qualquer pessoa que se decida a escrever um blog, por exemplo, ao passo que antes o cidadão comum era apenas destinatário da publicidade que sustentava os grandes grupos económicos. Dantes, o cidadão ficava sentado a ver na televisão ou a ler no jornal o que outros faziam, pagos com o dinheiro da publicidade que ele via. Agora, qualquer cidadão é estimulado a escrever na Internet para que esta se torne cada vez mais atraente como veículo publicitário. É um pouco como estimular o pessoal a conversar no jardim, às horas pardas da melancolia, para poderem ver anúncios publicitários enquanto estão lá placidamente sentados a dizer o que lhes der na gana. Considerar que isto é um aprofundamento da democracia destituído de aspectos contraproducentes encerra talvez algum exagero optimista.

Desidério Murcho
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