A Pensadora

Filosofia e pensamento crítico

Desidério Murcho

O pensamento crítico é de algum modo o oposto do sexo na época vitoriana. Na época vitoriana o sexo era uma coisa que toda a gente conhecia e no qual toda a gente pensava, mas de que quase ninguém falava. O pensamento crítico, em Portugal, é uma coisa de que toda a gente fala, mas quase ninguém realmente pensa criticamente nem sabe o que é tal coisa.

A ideia generalizada é que o pensamento crítico consiste em "dar a nossa opinião". Isto está tão próximo da verdade como dizer que uma bicicleta é uma coisa com rodas. Uma bicicleta é de facto uma coisa com rodas, mas não basta que algo tenha rodas para que seja uma bicicleta. Do mesmo modo, o pensamento crítico passa certamente por "dar a nossa opinião" — mas isso não é suficiente. Podemos perfeitamente dar a nossa opinião e não estarmos de modo algum a pensar de modo crítico — na verdade, basta ouvir os políticos e os nossos grandes "intelectuais" a falar na televisão para assistir a esse espectáculo degradante.

Pensar de forma crítica é saber defender as nossas opiniões com argumentos rigorosos, claros e sistemáticos. E é neste aspecto que a filosofia, encarada como uma forma de pensamento crítico, se aproxima da ciência. É que quer a ciência quer a filosofia, praticadas no seu melhor, são um apelo constante ao pensamento crítico, à argumentação — a diferença entre ambas repousa unicamente no tipo de argumentos exigidos.

Não basta a um físico dizer que refutou a teoria de Einstein: ele terá de dizer rigorosamente que aspecto da teoria de Einstein ele afirma que refutou e terá de apresentar argumentos poderosos, alguns dos quais de carácter experimental, para sustentar a sua afirmação.

Do mesmo modo, em filosofia, não basta afirmar que "o homem é um ser situado"; é preciso começar por esclarecer o que quer tal coisa dizer realmente, e depois é preciso apresentar argumentos rigorosos, sistemáticos e claros que sustentem tal afirmação. Infelizmente, quem afirma este tipo de coisa em filosofia começa logo por nem esclarecer o que quer dizer a própria expressão de partida, pelo que nem vale a pena dar-lhes ouvidos.

O pensamento crítico é o pensamento que sabe usar os instrumentos argumentativos à nossa disposição, que são disponibilizados pela lógica formal e informal. Pensar criticamente é saber sustentar as nossas opiniões com argumentos sólidos e não cometer falácias nem basear as nossas opiniões em jogos de palavras e em maus argumentos de autoridade.

A filosofia e o pensamento crítico são a nossa melhor defesa contra a superstição. Perante as afirmações temerárias dos astrólogos, dos líderes religiosos e dos nossos políticos, a filosofia e o pensamento crítico dão-nos instrumentos para reflectir sistemática, rigorosa e claramente, de modo a determinarmos se isso que eles dizem é ou não realmente sustentável.

Ora, a humanidade não irá sobreviver se for incapaz de encontrar soluções criativas e seguras para os problemas que enfrenta, e se substituir estas pelas soluções obscurantistas dos que defendem antes de mais a autoridade religiosa, a atitude acrítica perante a astrologia e outras pseudociências e a passividade perante as propostas tantas vezes absurdas dos nossos políticos. E os desafios que teremos de enfrentar a longo prazo, como espécie, são muito maiores do que a generalidade das pessoas pensa, pelo que a necessidade de um pensamento límpido e solidamente ancorado em bons argumentos é incontornável.

A filosofia e o pensamento crítico permitirão conceber soluções criativas e sustentadas para os problemas que enfrentamos. Por exemplo, a tecnologia médica permite-nos hoje manter pessoas vivas, em estado vegetativo, durante anos. Isto representa um problema ético a que temos de dar uma resposta clara, baseada em argumentos claros e sólidos, em vez de darmos uma resposta baseada em pressupostos religiosos dúbios. A filosofia ajuda-nos a encontrar essas respostas, precisamente. Este é apenas um exemplo; há muitos mais, como os problemas relacionados com a pobreza no mundo, com os refugiados e com a ecologia.

A filosofia e o pensamento crítico implicam a tolerância e o respeito, que tanta falta fazem no mundo contemporâneo. A filosofia e o pensamento crítico exigem uma postura de cordialidade atenta, pois temos de escutar cuidadosamente os argumentos das outras pessoas para, juntos, encontrarmos argumentos melhores e soluções mais adequadas.

O nosso futuro como espécie depende em grande parte da capacidade que tivermos para cultivar o pensamento crítico — essa atitude que a ciência descobriu nos séculos XVII e XVIII e que a filosofia aprofundou nos séculos XIX e XX. Compete a cada um de nós, profissionais da ciência e da filosofia, divulgar não apenas os conteúdos próprios de cada uma das nossas áreas do conhecimento, mas também essa atitude que constitui o maior monumento alguma vez erguido por mão humana: o pensamento crítico e a inteligência clara.

Desidério Murcho
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